10.12.08

Entrou areia no sonho da viagem internacional de fim de ano. O trio verão + férias + alta do dólar vai fazer com que a maioria enterre o tesouro do décimo terceiro por aqui mesmo, em areias brasileiras.
Nosso dinheiro – já naturalmente salgado pelo suor – corre o risco de virar charque e ainda servir como aperitivo praiano.
Arranjar uma brecha na areia vai ser tão desafiador quanto conseguir alcançar o assoalho de um ônibus Penha-Lapa às seis da tarde.
Os paulistanos são testemunhas do drama enfrentado por aqueles que resolvem descer para o Guarujá ou para a Praia Grande num feriado prolongado. Além do trânsito, é preciso reservar fôlego para a dança das cadeiras que acontece na praia, cuja trilha sonora é composta pelo Créu e outros hits do verão.
Cada centímetro de areia é disputado a tapa, já que milhares de condomínios à beira-mar armam tendas para seus inquilinos e transformam o ambiente numa grande favela.
Quem poupou o ano inteiro, planejava salgar o charque em outros mares ao redor do globo e por isso mesmo não digeriu muito bem a idéia de passar as férias de verão no Brasil, um consolo. Desde o fim de novembro os freqüentadores das praias da Costa Blanca, na Espanha, estão tendo de respeitar as regras de um manual de comportamento para banhistas.
Está proibido construir castelos de areia, fazer pipi no mar e tomar cerveja. Também será considerado um fora-da-lei quem permanecer na praia entre a meia-noite e as sete da manhã e quem for pego pescando ou com animais na praia. Jogar bola fora do lugar marcado também será ato punido com multa.
Até Daniela Cicarelli terá de filmar seu "Sex and the Beach" em outra locação. Uma das faltas mais graves será fazer sexo na praia – a multa pode chegar a até 3 mil euros (cerca de R$ 9 mil).
Sem dinheiro e com tantas restrições, não existe a menor possibilidade de nos arriscarmos a fazer um tour por lá. Os espanhóis podem ficar tranquilos. Este não não haverá nenhum dos nossos para ser barrado no aeroporto de Madri.
9.12.08

A comédia de erros em Brasília não se desenrola apenas no Congresso e cercanias. Os brasilienses incorporam pouco a pouco a bizarrice criativa de nossas autoridades.
Prova disso é a história que se passou dentro de um ônibus, com gente comum.
Em Brazlândia, ao tentar beijar sua companheira de banco, o rapaz leva uns safanões. O caso vai parar na delegacia, vira ação penal e depois de três anos ganha as páginas dos jornais.
Além do evidente tom farsesco, foi a atitude do juiz que conduziu o processo que contribuiu para o destaque do caso – e não a absolvição do algoz.
Reparem nas sutilezas: “a moçoila foi surpreendida pelo inopinado beijoqueiro que, de supetão, não tendo resistido aos encantos da donzela, direcionou-lhe a beiçola, tendo como objetivo certo a face alva da passageira que se encontrava a seu lado”.
E a sentença continua ao dizer que a vítima “é uma moçona forte, que teria reagido e rechaçado a inesperada demonstração de intimidade não-existente”.
No fim dos depoimentos o juiz ainda teve tempo de perguntar à “vítima” se o réu era bonito. A resposta: “Doutor, se ele fosse um Reinaldo Gianecchini a reação teria sido outra”.
Tão inacreditável quanto o que foi narrado é a quantidade de gente, tempo e dinheiro gastos com o episódio: três delegados, oito médicos, nove defensores, cinco procuradores de Justiça, oito promotores de Justiça e dez juízes.
Ou, de acordo com o juiz, “43 profissionais altamente especializados que, ao longo da tramitação do processo (dois anos, oito meses e 13 dias), receberam dos cofres públicos proventos que podem ser estimados pela média em R$ 39.674.666,67”.
Além de ganharem – e bem – para trabalharem no caso, os “profissionais altamente especializados” se divertiram bastante. É o que indicam os autos do processo e o nível das questões feitas à “vítima”.
Não sou uma mulher da lei, mas creio que a economia de recursos teria acontecido se fosse levada em conta a condição mental do algoz, que sofre de esquizofrenia.
E mais: o que foi roubado foi apenas um beijo…
8.12.08

Uma idéia simples, uma câmera na mão e pessoas de bem com a vida foram os únicos elementos que os fotógrafos norte-americanos Nicole Kenny e KS Rives precisaram para dar asas ao projeto “Antes de Morrer Eu Quero…”.
Eles saíram pelas ruas de cidades como Nova York, Chicago, Atlanta, Los Angeles, Boston e Nova Orleans fotografando pessoas comuns com uma Polaroid. Durante o clique faziam a pergunta: “o que você quer fazer antes de morrer?”. Depois da foto pronta, pediam que o retratado escrevesse na parte branca da foto sua resposta.
Entre os desejos, alguns estranhos como “comer uma tarântula”, “dirigir um tanque de guerra”, “assar um suflê”, "saltar de um avião sem pára-quedas" ou “usar todas as peças de roupa que tenho no guarda-roupa”. Há também os convencionais – “ter um filho”, “escrever um livro” – e outros cuja caligrafia tornou impossível qualquer suposição.
A idéia nasceu da combinação de três fatores. O primeiro é o fim da Polaroid. A fabricante anunciou o término da produção para o início de 2009 – cansou-se de tentar competir com as digitais.
O segundo é uma técnica usada por psicólogos para tratar pacientes suicidas. A terceira motivação é levar as pessoas a refletirem sobre o que é realmente importante em suas vidas através de uma pergunta simples e direta.
As fotos já foram expostas algumas vezes e agora figuram no site de seus idealizadores, atualizado constantemente com novos retratos.
Daqui a alguns anos a idéia é entrar em contato com os fotografados e saber se eles atingiram seus objetivos – se estão a caminho ou simplesmente desistiram da idéia.
E vocês, o que ainda pretendem aprontar antes de morrer?
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7.12.08

Ela já tirou o apêndice, um cisto no ovário, nódulos do intestino, removeu outro do pulmão, um tumor na mama e retirou o útero. Também já quebrou a perna, operou o joelho e o punho. Agora descobriu um aneurisma de 6 milímetros no cérebro.
Ele já retirou tumores no rim e no estômago, um tumor na próstata e passou por uma angioplastia. Só em 2006 fez duas cirurgias para remover tumores no abdômen. No ano passado o câncer se espalhou para o peritônio (membrana que cobre as paredes abdominais) e foi necessária uma nova cirurgia. Em setembro deste ano foi operado novamente no abdômen. Há duas semanas teve uma enterite – inflamação no intestino delgado – e voltou ao hospital.
Os sobreviventes em questão são a senadora Roseana Sarney e o vice-presidente José Alencar.
Mais dia, menos dia, um deles não volta da sala de operação. Ou talvez nem cheguem a adentrá-la – o corpo já vai ter desistido de lutar contra a doença.
Não é fácil a vida de pessoas que têm de conviver com esse desagradável jogo de esconde-esconde. Além das picuinhas do dia-a-dia, comuns a todos os seres que vivem em sociedade, eles precisam aprender a lidar com uma surpresa em curtos intervalos. Uma unha encravada pode ser sinal de alguma coisa.
Figuras públicas que são, todo o sofrimento é acompanhado de perto pela imprensa. Muitos talvez reclamem da exposição de tanta agonia, mas a monitoração da banda não-podre da mídia não é de todo ruim. Quando eles pensam em esmorecer, são quase que forçados a se mostrarem bravos. Tem sido assim há anos com ambos.
O que mais dói não é a exposição de seus dramas pessoais. Roseana deve ter ficado muito mais apreensiva com o fato de terem tornado público que ela mantinha um cofre de tio Patinhas em sua empresa Lunus do que com a divulgação da data de sua nova cirurgia.
Tumores, cistos, nódulos, notas de R$ 50. Não é que Rosena já se livrou de encrencas muito maiores?
6.12.08

“Queime Depois de Ler” é um ótimo exemplar do bom e velho cinema. Ele prova que um filme não precisa nada além de uma boa história. As rápidas sinapses na cabeça de um bom roteirista poupam os neurônios de todos os envolvidos numa produção cinematográfica.
Além disso, para quê gastar milhões de dólares em efeitos especiais ou bilhões em ações promocionais contando com um elenco que inclui John Malkovitch, George Clooney, Frances McDormand e Brad Pitt?
Ok, elenco estelar não é sinônimo de qualidade. Há diretores e produtores que estragam um blockbuster apesar de os atores – e com exagero, até os figurantes – serem a nata de Hollywood, como “Onze Homens e Um Segredo” e todas as suas continuações.
Esse não é o caso de “Queime Depois de Ler”. O mais recente trabalho dos irmãos Joel e Ethan Coen é uma tragicomédia com o sangue frio das personagens de “Fargo” e as viagens de “The Big Lebowski”.
George Clooney não está tão inspirado. Ele se sai melhor quando encarna personagens mais densos ou que requerem uma carga de conteúdo ou ar de mistério. No papel de idiota o ator não chega a convencer. Fica idiota mesmo.
Frances McDormand é inesquecível para quem assistiu “Fargo” – filme que aliás lhe rendeu o Oscar de melhor atriz. É tão competente que parece interpretar a si própria. Toda a dramaticidade, idiotice, falta de noção ou senso de humor que se espera da personagem saem sem esforço.
Sobre Malkovitch seria redundante dizer que ele vive um maluco.
Se Clooney deixa a desejar e Frances e Malkovitch garantem o show, Brad Pitt é a surpresa. Está impagável como um professor de academia ingênuo com cabelo e atitude à la George Michael. São os olhares de Pitt que proporcionam todas as gargalhadas do filme.
Tomara que a veia cômica de Brad Pitt seja mais explorada daqui para frente. Esse sim pode dizer que não é apenas um rostinho bonito.
Mais não é possível revelar – sob pena de estragar a expectativa já criada. Fiquem apenas com o subtítulo do filme: “A inteligência é relativa”.
Após “Queime Depois de Ler” não restarão dúvidas. É uma questão de hora, local e razão.
5.12.08

Lula é um fenômeno. Apesar da aparente previsibilidade, sempre surpreende. É uma caixinha de surpresas que causa emoções durante todo o ano, não apenas no Natal.
O bom velhinho já trouxe o presente de fim de ano do presidente. Pesquisa realizada pelo Datafolha mostra um novo recorde da aprovação de Lula: 70% dos brasileiros consideram seu governo ótimo ou bom. Mais: 27% ainda não tomaram conhecimento da crise. Um verdadeiro presentão de Natal. Melhor do que isso, só acordando com dez dedos.
Nada, absolutamente nada abala a reputação presidencial. Suspeitas de conhecimento do esquema do Mensalão, aliados suspeitos – como José Dirceu e Paulinho da Força –, boatos de que ele absorve mais do que o Bob Sponja e até mesmo a boca suja não são empecilhos para seu sucesso.
Ontem, durante o lançamento do Fundo Setorial do Audiovisual, no Rio, Lula antecipou o Réveillon e nos brindou com a seguinte pérola:
“Imagine se um de vocês fosse médico e atendesse um paciente doente. O que você falaria para ele? Olha companheiro, você tem um problema, mas a medicina já avançou demais, a Ciência já avançou demais, nós vamos dar tal remédio, você vai se recuperar? Ou você diria: Sifu?”.
Confesso que, ao contrário da maioria da imprensa, a declaração não me chocou. Não achei um absurdo e nem novidade. Estou tão calejada com as frases de senso de humor duvidoso de Lula que essa não foi capaz de mover um músculo de minha face.
A expressão “sifu” cai bem em programas de humor, estádios de futebol e até neste blog, mas na boca de uma autoridade fica bem feio. Na de Lula, é como Melissinha que vem com bolsinha. Combina.
O jornalista Ricardo Noblat chegou a pedir em seu blog que Lula peça desculpas por isso. Ora, Noblat, você acredita em Papai Noel?
Em caso positivo, não se decepcione se ele não trouxer seu presente. O bom velhinho pode estar muito ocupado com os pedidos de seu favorito.
4.12.08

Segundo um estudo realizado pela universidade Stony Brook, nos Estados Unidos, e publicado nesta semana pela revista “New Scientist”, os humanos são capazes de sentir o “cheiro do medo”.
Que bom que esse cio do terror foi comprovado cientificamente, porque foi o aroma que veio às minhas narinas quando soube que um empresário sul-africano morreu na terça-feira vítima de uma febre hemorrágica causada por um tal de arenavírus.
O cheiro do medo triplicou com a informação de que o defunto está num caixão de zinco lacrado dentro de uma sala selada num hospital no Rio enquanto aguarda para ser enviado de volta à África do Sul. Além disso, todas as pessoas com que ele teria mantido contato estão sendo monitoradas. Fedeu geral.
O arenavírus é assim chamado por causa de seus grânulos redondos, parecidos com areia. “Arena” quer dizer “areia” em latim.
Transmitido pela urina ou fezes de ratos contaminados, causa febre alta, calafrios, cansaço, vermelhidão no corpo, colapso circulatório e respiratório e pode provocar sangramento. Os sintomas aparecem de dois a 21 dias após o contágio.
No início de novembro alguns casos já haviam sido registrados na África. Quatro pessoas morreram na África do Sul, mas as autoridades de saúde falaram que o surto havia sido contido.
Apesar dos panos quentes, o cheiro do medo permanece. Difícil manter a calma ao termos conhecimento de doenças causadas por vírus misteriosos ou mutantes. Enquanto aguardamos o desdobramento da história, vamos resolvendo o problema com um "Bom Ar Flores do Campo".
3.12.08

Tomar mais de dois copos de cerveja no Brasil dá cadeia, mas no Japão pode levar o bebum às nuvens – mais especificamente ao espaço.
A notícia do dia é que uma cervejaria japonesa acaba de produzir a primeira cerveja com cevada cultivada em algum canto da via láctea. É a “Space Barley” ou “Cevada do Espaço”.
A matéria-prima usada nas cervejas é a segunda geração de sementes que vêm sendo cultivadas na Estação Espacial Internacional Russa desde 2006. Foram produzidos 100 litros da cerveja espacial, que devem passar bem longe dos paladares brasileiros. Para degustá-la, 30 casais serão selecionados através de um sorteio, mas eles têm de morar no Japão.
Segundo a empresa, não há diferença entre a cevada espacial e a cultivada na Terra. Além disso, de acordo com o porta-voz da empresa, o sonho deles futuramente é poder fabricar cerveja no espaço e vendê-la lá. Que papo de bêbado, não?
Mas a experiência dos japas começou a fazer sentido quando me lembrei do “O Pequeno Príncipe”, clássico de Antoine de Saint-Exupéry.
Quem já foi candidata a miss ou os que tiveram algum contato com livros durante a infância sabem que a obra é uma das mais lidas do mundo.
Pois bem. Um dos planetas visitados pelo Pequeno Príncipe é habitado por um bêbado que dizia beber para esquecer seus problemas. Eureca!
Apesar de russos e americanos desbravarem as galáxias e realizarem jornadas nas estrelas, foram os japas quem cruzaram com o pai da idéia. Em 1943 – ano em que “O Pequeno Príncipe” foi escrito – esse visionário já tinha sua plantaçãozinha de cevada no fundo do quintal.
P.S.: aos fiéis leitores deste blog, meus agradecimentos AQUI (basta clicar no "Play")
2.12.08

Se estivéssemos em curso com alguma CPI em Brasília ou se algum escândalo político dominasse a pauta do dia, os colegas do Congresso poderiam ficar despreocupados. Este seria um ótimo momento para os fatos caírem no limbo.
É a campanha nacional para ajudar os desabrigados em Santa Catarina quem toma conta de cada centímetro do jornal ou dos preciosos minutos nos canais de TV.
Não é para menos. A tragédia que se abateu sobre o sul do país não pára de fazer novas vítimas. A cada dia sobe o número de mortos.
A Defesa Civil de Santa Catarina abriu oito contas bancárias para angariar fundos, além disso, em todo o Brasil, milhares de outras campanhas estão sendo feitas.
Mas, como sempre, tem gente esperta pegando carona no episódio.
Minha ficha só caiu ontem, no Rio, ao passar por alguns recônditos de Jacarepaguá. No meio de uma confusão de pedestres, carros, vans de lotação e lama, noto uma barraquinha xumbrega feita com sacos de lixo e a seguinte faixa: “Faça aqui sua doação aos desabrigados de Santa Catarina”. Pensei: “Santa Catarina é logo ali, numa rua em Curicica”. A tenda e a cara do dono não inspiravam a menor credibilidade.
Hoje leio a notícia de que a Record divulga uma conta bancária do Instituto Ressoar (ONG da TV) para o telespectador fazer depósito. Diz que os gastos são auditados pelo Ministério Público. Esse, no entanto, desmente que esteja fazendo qualquer tipo de fiscalização. A assessoria de imprensa diz que não cabe ao Ministério Público vigiar campanhas do tipo.
Além dos ratos de praia, há um outro problema. Na ânsia em ajudar, esquece-se de que é necessário um mínimo de organização. Doa-se de tudo – se bobear, até itens que ocupam espaço em casa, como bibelôs, varas de pescar, patins, aparelhos de ginástica passiva como o “AB Toner” e trabalhos escolares de Dia das Mães.
Nada do que foi citado é tão importante quanto a atitude de arregaçar as mangas. Quer ajudar? Embarque para Santa Catarina disposto a botar a mão na massa: tirar lama de dentro das casas, varrer as ruas, cuidar de quem está doente, carregar velhinhas que não conseguem se locomover ou trocar fralda de crianças ou idosos. Isso sim são atitudes de heróis.