30.4.07

SER GAY III

 Pré-conceitos caídos por terra, um impasse vem à tona no momento de definir Serguei. A dificuldade surge após a constatação de que a imagem rock and roll duela o tempo todo com a personalidade afável.
Ele se comove ao falar de cães abandonados que remexem o lixo e sempre que menciona pai e mãe. Filho único, guarda com carinho um porta-retrato com a foto da progenitora em seu banheiro-camarim. “Não gosto nem de olhar. Quando estou fazendo barba, viro para o outro espelho. Cuidei dela até o fim, dei banho nela na cama…”.
Com emoção semelhante, relembra os dias em que precisava barbear o pai, já impossibilitado das tarefas mais cotidianas. “Cantava serestas para ele. Se reclamasse de alguma coisa, eu o ameaçava de brincadeira com a lâmina: olha que eu te corto, hein?”.
A pequena sala anexa ao quarto foi o local escolhido para abrigar um quase troféu: o diploma que o pai recebeu na época em que trabalhava na IBM por seu “trabalho e dignidade”. Você tem filhos, Serguei? “Não, sou muito da pá virada para ser pai”.
A tão aguardada rebeldia só se faz notar em um único momento: quando fala de política. “Que orgulho um homem sente em ser membro do Congresso Nacional? Eles cagam bombom e mijam champanhe”.
Serguei mora em Saquarema há mais de 20 anos. “Sou o carioca mais paulistano que existe. Aquela Revolução de 32 devia ter dado certo. Hoje São Paulo seria um país. Sairia de Saquarema para morar lá, mas só se fosse outro país. Adoro o Largo do Arouche. O samba de São Paulo me dá tesão, me dá vontade de fazer sexo. Isaurinha Garcia, que coisa, gente…” Cantarola um trecho de “Canção do Amor Ausente”, de Elizeth Cardoso, e conclui: “Não tenho pátria, sou um cidadão da Terra”.
Contrariando todas as expectativas, Serguei descobriu uma boa definição para quietar os que pretendem decifrá-lo: ele é apenas mais um habitante do planeta Terra. Precisa mais?

Vejam mais fotos AQUI

 

Leiam também Ser Gay e Ser Gay II

tatinha13    12:29 — Arquivado em: Sem categoria


29.4.07

SER GAY II

 Serguei, vulgo Sergio Bustamante, transformou sua nova residência em Saquarema no “Templo do Rock”. Há cerca de um mês deixou seu antigo lar, cheio de infiltrações, e se instalou numa casa doada pelo “dono da Coca-Cola”, Russel Coffin.
Uma romântica cerca baixa de madeira pintada de branco é a porta de entrada para o pequeno jardim aparado à la símbolo da paz. Em volta, três bandeiras – uma com os dizeres “Peace and Love”.
Dentro, paredes revestidas com fotos, matérias de jornais e revistas do Brasil e do mundo, livros, pôsteres de atrizes como Marilyn Monroe ou músicos como Jon Bon Jovi, Jim Morrison, Beatles e alguns objetos que recebeu de presente de amigos e da ex-affair Janis Joplin.
No templo, o amor de Serguei por Janis é tudo, menos cego. Ela está por toda a parte: no banheiro que ele transformou em camarim, na sala de estar, na ante-sala, na subida da escada, no segundo andar, num outdoor no telhado e na cozinha. Uma foto de Janis estampada na lateral de uma caixa de leite longa vida chama para o show “Love, Janis”, uma homenagem à roqueira no Village Theater, em Nova York.
Na parte de cima do sobrado, as botas da amada pendem da parede. “Gostávamos muito de andar pela praça General Osório. Um dia, falei que gostaria de guardar algo dela. Na mesma hora ela arrancou a bota e me disse: pode ser isso?”, relembra Serguei. A alguns palmos dali, um par de tênis encardido que ele usou durante o festival de Woodstock, em 1968, e a apressada justificativa: “não lavei para não tirar a lama”.
Além da onipresente Janis, Serguei hospeda Samanta, Sharon, Jimmy, Lia, Tobby e Yellow, cães vira-latas que ele recolheu da rua e abriga no “Street Dog Hotel”, nos fundos da casa.
Narra as travessuras dos cachorros como pais as de seus filhos. “A Sharon é velhinha que nem eu, está com 14 anos. Eu a achei na rua, abandonada pela dona, mas troquei o nome dela. Shana, não dá, né?”. E com uma ponta de orgulho: “Ela não gosta que eu corro muito e é polícia também. Se alguém finge que vai mexer nas minhas roupas, ela avança”. Dia de dar banho é uma luta. Com seis, o sufoco é grande. “Quatro. Dois não tomam”, corrige ele, que se autodenomina o chefe da matilha.
A casa-templo é uma grata surpresa para os que, não sem motivo, esperam encontrar algo muito próximo a uma comunidade hippie. Virginiano, gosta de tudo muito limpo e organizado. Já nas boas-vindas, ele pede aos visitantes que tirem os sapatos. “Dou um duro danado para manter tudo limpo e não gosto quando chegam com o pé sujo. Adoro ser dona-de-casa”. É ele quem faz a faxina. Lava roupa em sua “Hard Work Area” e dá uma caprichada no chão. Só não cozinha. “Às vezes compro ou saio para comer”.
E o que Serguei come? Após uma rápida inspeção na pia, o novo sobressalto: nada de hot dogs e salgadinhos. Um vidro com rosquinhas de leite divide espaço na bandeja com uma garrafa de mel, outra de licor de chocolate e suco “Mais”.
Assim como Janis, flores naturais e artificiais espalham-se como heras pela casa. Servem de moldura para quadros e porta-retratos, enfeitam castiçais ou repousam em garrafinhas de Coca-Cola com água trocada diariamente.
Abajures estrategicamente posicionados e acesos valorizam cada ambiente e completam o inesperado clima “Casa Cláudia” do lugar.

Confiram amanhã, Ser Gay III

   

 

tatinha13    15:32 — Arquivado em: Sem categoria


28.4.07

SER GAY

 Estar cara a cara com Serguei pela primeira vez é impactante. O instinto nos pede para fitá-lo mais demoradamente para, com calma, espreitarmos cada detalhe de uma figura que poderia ter inspirado a expressão “dinossauro do rock”. O bom senso nos traz de volta à Terra e transforma este olhar contemplativo num forçosamente natural e acanhado “Como vai? Muito prazer em conhecê-lo”.
Serguei precisa ser destrinchado aos poucos. O rosto – fino, branco e envelhecido – pede uma análise mais apurada. É justamente aí que estão as armas mais poderosas do cantor: os olhos. Duas grandes bolas azuis cortadas longitudinalmente por finíssimas ranhuras pretas. Desafiadores, mas falsos. Apenas depois de alguns diálogos e uma série de incursões disfarçadas – porém minuciosas – é que percebemos que não foram comprados num supermercado. Caleidoscópios ainda mais acentuados por uma generosa camada de lápis preto.
Descendo um pouco mais a vista, um segundo ponto para análise. Os lábios. Que não chegam a ser grandes, mas proeminentes. Classificá-los como carnudos seria um erro, afinal, o que chama a atenção não é exatamente o volume, mas sim o longo espaço compreendido entre as narinas e a boca.
Até aí não se sabe se ele é Steve Tyler, David Bowie, Mick Jagger ou William Dafoe. Uma espiada na cabeça e a confusão aumenta. Tina Turner? “Esse cabelo é seu mesmo?”. “Não, faço megahair”.
O corpo esbelto não chega a ser um grande mistério. Ele se desloca diariamente de bicicleta pelas ruas de Saquarema, cidade na região dos Lagos, no Rio.
Serguei aguça nossa capacidade espectadora. As tatuagens nos braços revelam, ainda que insconscientemente, um pouco do que testemunhou em seus 73 anos de vida. Uma bandeira dos Estados Unidos (país em que morou por 20 anos), um punhado de flores (resquícios da geração flower power?) e uma águia que se funde a uma cobra (uma cobra com olhar de águia ou vice-versa?).

Confiram amanhã: Ser Gay II

tatinha13    16:21 — Arquivado em: Sem categoria


26.4.07

APOCALYPSE NOW

 Meu mundo caiu. A criptonita existe, não é verde e nem radioativa, é encontrada na Terra e, para completar, tem outro nome: jardanita. Então, pensam vocês, não é criptonita. Sim e não. É o mineral mais semelhante àquele temido pelo Super-Homem. A única diferença é que a jardanita não tem flúor (talvez viesse daí o sorriso perfeito de Clark Kent).
A pedra foi achada na Sérvia. Coitado do Super-Homem. Morreu sem saber da novidade. E o pior: não podia imaginar que a verdadeira criptonita seria um cavalo…
Por falar em mundo cair, coincidentemente recebi do leitor Roberto Dib algo interessante. Como a imprensa noticiaria o fim do mundo?

The New York Times - “O Mundo Vai Acabar”

Observatore Romano – “Mundo Acaba Outra Vez”

Times (Londres) – “Rainha Teme Ver Diana Depois do Fim do Mundo”

El País (Madrid) – “Se Há Governo no Outro Mundo, Somos Contra”

Diário de Lisboa – “Leia Amanhã Como o Mundo Acabou Hoje”

O Globo – “Governo Anuncia o Fim do Mundo”

Jornal do Brasil – “Fim do Mundo Espalha Terror na Zona Sul”

Folha de São Paulo (ao lado de um imenso gráfico) – “Saiba Como Vai Ser o Fim do Mundo”

O Estado de São Paulo – “CUT E PT Envolvidos no Fim do Mundo”

Notícias Populares – “Psicopata Mata a Mãe, Degola o Pai, Estupra a Irmã e Fuzila o Irmão ao Saber que o Mundo Vai Acabar”

Estado de Minas – “Será que o Mundo Acaba Mesmo?”

O Lance – “Nem o Fim do Mundo Segura o Timão”

Correio Brasiliense – “Congresso Vota Constitucionalidade do Fim do Mundo”

Gazeta Mercantil – “Decretada a Falência do Fim do Mundo”

Folha Universal (do Bispo Edir Macedo) – “Pague o Dízimo Antes de Partir”

Veja – “EXCLUSIVO! Entrevista com Deus
- Por que o Apocalipse demorou tanto?
- Especialistas indicam como encarar o fim do mundo
- Paulo Coelho: “O profeta viu o fim do mundo e chorou”

Nova – “O Melhor do Sexo no Fim do Mundo”

Playboy – “Nova Loira do Tchan: Um Apocalipse de Sensualidade”

Sexy – “Como Transar no Além”

Super Interessante – “Do Big Bang ao Fim do Mundo”

Casa Cláudia – “Como Decorar a Sua Casa Para o Fim do Mundo”

P.S.: amanhã não tem coluna. Estarei no Rio, mais especificamente em Saquarema, na casa do cantor Serguei. Depois conto para vocês como é ser gay.

tatinha13    15:26 — Arquivado em: Sem categoria


25.4.07

LINHA CAMA MESA E BANHO

 Quem acompanha o noticiário sabe que a situação no Brasil está de pernas para o ar. Gostaria de saber se no meio de tanta confusão o Lula coloca a cabeça no travesseiro e dorme. E, se não consegue pegar no sono de imediato, o que conversa com dona Marisa? Se ele desafoga o coraçãozinho, ouve conselhos da esposa? Lula ronca? Dorme de pijama ou cueca? Se usa pijama, teria a referida peça aqueles furinhos característicos na gola? Lula baba?
Ah, os mistérios do poder… Gostaria de ser uma inocente samambaia num dos churrascos na Granja do Torto. Saberia se ele gosta de esquentar a pança na churrasqueira ou se chama o cunhado. Poderia descobrir também se usa palitos Gina e depois fica com aquela haste ridícula no canto da boca – meu lado mosca me diz que ele não apenas mantém o palito, como fica mastigando aquilo a tarde inteira. Pensando bem, acho que não gostaria de ser uma samambaia. Não sei que tipo de líquido Lulinha e seus amigos usam para regá-la.
E à tarde? Vai dar aquela esticada no sofá e acordar dizendo que o coraçãozinho de galinha não caiu muito bem? Teria Lula um kit de barbear? Qual a situação de seu pincel de barba? E da escova de dentes? Estaria mais para um espanador? Será que ele prefere Tek macia ou Oral B média? Usa nécessaire ou faz um maço com escova, pincel, gilete e amarra tudo com um elástico? E se esquece a toalha, grita para a Marisa trazer uma para ele? Será que ele toma banho de touca? A touca é dele ou da Marisa?
Quando acorda de manhã será que ele se olha e se acha gordo? Ah, como gostaria de ser esse espelho. De frente para mim, testa uma nova metáfora futebolística? Promete a si mesmo que vai começar a dieta de Beverly Hills? Faz perguntas do tipo espelho, espelho meu? Joga um bafo no espelho e escreve, dentro de um coraçãozinho, “Lula e Marisa”? Refletindo melhor de novo, acho que não gostaria de ser o espelho também. O bafo dele numa manhã pós-churrasco não deve ser uma das sete maravilhas do mundo.
Felizmente ou infelizmente, não sou mosca, samambaia e nem espelho. Sou apenas mais uma tentando decifrar esse enigma. Meu lado detetive me diz que ainda vou ter muito trabalho.

tatinha13    14:18 — Arquivado em: Sem categoria


24.4.07

CORUJICE DO MUNDO DA LUA

 O jeitinho brasileiro é motivo de orgulho para muita gente no Brasil. Não consegue o documento carimbado e autenticado pelo cartório? Não se preocupe, tenho um conhecido que trabalha na assessoria do Ministério que pode ajudar. Menores de 18 anos não entram na balada? Calma, vamos falar com uma amiga minha que é hostess que ela vai dar um jeito nisso. Fulano foi preso? Não há motivo para estresse, conheço um advogado que é amigo de infância do delegado.
O jeitinho e a criatividade são coisas nossas. Semana passada, mais uma demonstração desta capacidade criadora de nosso povo. Um casal da cidade de Castro, perto de Curitiba, escolheu um nome bem sugestivo para o filho recém-nascido: Lehgolaz (pronuncia-se Légolas). A inspiração veio de um dos elfos do filme “O Senhor dos Anéis”.
Até o dia em que li a reportagem, os funcionários do cartório de registro civil tentavam convencer os pais, Arielly e Cristiano Aparecido, a desistirem da idéia.
A mãe alega que escolheu Lehgolaz porque ele é representado pelo ator mais bonito do filme (Orlando Bloom) e também pelo significado, que quer dizer “o grande protetor”.
Não vejo nada de mais em Légolas – até porque Arielly e Cristiano Aparecido não ficam muito atrás. Já vi sacanagens bem piores, como Jerrys Presleys, Bucetildes, Elacervandros, Capitulinas, Hepotamedes e por aí vai. Além disso, daqui uns 15 anos, quando o pequeno elfo virar um adolescente, o nome não soará como um palavrão e ninguém mais vai saber quem (ou o que) é Senhor dos Anéis. Neste caso, vão os anéis e os dedos.

PERGUNTA DO DIA: Os de Saturno ainda estão lá?

tatinha13    12:49 — Arquivado em: Sem categoria


23.4.07

A FAMA DE MAU

 A situação em todo o país chegou num nível tão lamentável que está impossível separar mocinhos e bandidos.
E o que dizer quando começamos a achar os bandidos, mocinhos? É isso o que me aconteceu ao ler uma reportagem sobre os bicheiros presos pela Operação Hurricane, no Rio.
À parte da fixação deles por jóias e relógios e as mansões em que moram (todas coberturas de prédios com piscinas e jardins), eles desempenham – mais do que “nunca neste país” – o papel que deveria ser do Estado.
O tal do Anísio, por exemplo. Em Nilópolis, mantém uma creche para 300 crianças, um educandário e cursos profissionalizantes. Também distribui cestas básicas mensalmente, brinquedos no Natal e já chegou a dar 2.000 bicicletas numa só festa.
Dos R$ 7 milhões que custou o Carnaval deste ano, é possível que tenha bancado uns R$ 4 milhões. Além disso, cerca de 70% dos componentes da Beija-Flor desfilam com fantasias pagas pela escola. Quer alegria maior que essa para a comunidade, que respira samba?
E o mais impressionante: Joãosinho Trinta, que conquistou 5 dos 10 títulos da escola, teve ajuda na recuperação dos dois derrames que sofreu.
E Turcão? Administra, junto com a mulher, a obra social do casal, uma creche para cerca de 500 crianças em Barreto, bairro pobre de Niterói. Os menores recebem educação, alimentação, assistência médica e roupas.
Começamos ou não a pensar na “boa-mocice” deles? Triste, não?

tatinha13    13:03 — Arquivado em: Sem categoria


22.4.07

POR QUE O GOVERNO DELE VIRA BREU?

 Há cerca de um mês, em sua coluna na Folha, Elio Gaspari comentou uma declaração de Lula sobre o fato de ter abandonado a mãe de sua filha Lurian por causa da paixão por Marisa Letícia. A afirmação havia sido publicada num site chamado ABC de Luta. Fiquei curiosa e resolvi dar uma olhada.
A entrevista é gigantesca, um livro mesmo e, para ser sincera, não consegui ler até o final. Engloba desde o nascimento do nosso presidente até seus 54 anos.
Apesar de ter ido ao site por um motivo, durante a leitura meu objetivo tornou-se outro: investigar quantas vezes nosso presidente faz referência ao álcool.
Transcrevo alguns trechos (perdão aos que acham que é perseguição). Os três primeiros talvez expliquem o gene dele pra coisa:

“Não tive nenhuma convivência com meus avós, porque eu vim para são Paulo com 7 anos de idade. Só lembro que a mãe da minha mãe bebia um pouco. A imagem – engraçado – que eu tenho da mãe da minha mãe: ela, um dia, acho que bebeu demais, caiu no açude e quase morreu afogada. Eu era pequeno e fui com meus irmãos para tentar tirar ela de lá”.

“De vez em quando ele bebia, mas não era de beber de ficar bêbado, não. Eu não lembro de meu pai bêbado, eu não lembro. Posso até lembrar dele alegre mas, bêbado, não lembro de meu pai. Ele era muito trabalhador, muito trabalhador. Isso, ele pode ter todo defeito do mundo, mas ele era muito trabalhador”.

“Eu morava na Rua Albino de Morais. A Rua Albino de Morais era uma rua de areia preta. E a gente foi morar no fundo de um bar. Moramos lá quase dois anos. A gente morava num quarto e cozinha. Tinha o bar e tinha o corredor do lado do bar. E o quarto e cozinha era entre o bar e o banheiro. Para ir no banheiro, tinha que passar na porta da minha casa. E aí é que a porca entorta o rabo. Porque as pessoas bebiam e iam para o banheiro, que era o mesmo banheiro da minha família”.

“E de noite a gente, então, comprava batida de amendoim, e a gente vinha, o grande passeio nosso – hoje em dia a molecada vai para o Shopping – naquele tempo a gente ía pro Sacomã. A gente comprava um ou dois litros de batida, vinha 12, 13,15, 20 moleques, a gente ía bebendo no gargalo, dava a volta no Sacomã, voltava para casa e estava feito o passeio. E depois era muita brincadeira, muita, muita brincadeira”.

“E também, tinha dois cunhados que tocavam música sertaneja, então, o que eu fazia? Eu era empresário deles. Mas empresário assim, a gente ia numa casa, chegava, oferecia a dupla: "Olha, está aqui o Toninho e o Jacinto." O que o cara tinha que oferecer para a gente? Cachaça e petisco. Então, a gente contratava a casa, chegava lá de manhã, o cara arrumava o violão e a gente ia lá e colocava a cachaça na mesa, colocava lá algumas coisa para mastigar, cantava até duas horas da tarde, já ficava meio bêbado, aí, ia pra casa, dormia, às seis horas levantava e ia para a missa”.

“O primeiro 13º salário que eu recebi, foi o primeiro soco que eu tomei. Eu tinha 14 anos de idade e tinha uma padaria perto de casa. A turma da fábrica foi lá, sabe o que a gente comia? Azeitona, mortadela e vinho daqueles garrafões de cinco litros, aquele Sangue de Boi. Para mim, aquilo era o must, aquilo era uma coisa! E foi a primeira vez que eu tomei um foguete na minha vida, com 14 anos. Cheguei em casa meio alegre”.

“Então, a Marisa teve esse papel de compreensão de tudo o que eu fazia, de aturar as minhas cachaças, de aturar as minhas reuniões, de aturar as minhas assembléias, de aturar aquela vida conturbada”.

“Mas eu acho que isso me fez aprender muito, sabe? Esse negócio de conversar muito, de ouvir bastante. Eu acho que, o Possidônio pode até falar isso melhor, porque é bom conversar com um cara que gosta de tomar uma cachacinha”.

Nada contra quem gosta de "tomar uma cachacinha". O problema é que ele quem bebe e nós é que ficamos de ressaca…

LEIA TAMBÉM Pinga ni Mim

tatinha13    13:39 — Arquivado em: Sem categoria


21.4.07

O EXTERMINADOR DO PRESENTE

 De vez em quando aparece mais um louco nos Estados Unidos. O sul-coreano Cho Seung-hui é o da vez: 23 anos e 32 mortes nas costas (33 com a dele).
Engasgar-se com um pretzel ou bolinar uma estagiária com um charuto já são notícias que não chegam a causar comoções à população. O que os norte-americanos não imaginavam é que os assassinatos em série também iam virar assunto corriqueiro.
Sem nenhum esforço podemos nos lembrar de vários acontecimentos do tipo em menos de uma década. Deixando de lado tragédias como a do World Trade Center, o caso mais famoso foi o de Columbine, que virou até tema de documentário para Michael Moore. Dois estudantes mataram 13 pessoas e cometeram suicídio em seguida. A matança aconteceu numa escola no estado do Colorado, a Columbine High School, em 1999.
O que mais intriga no caso de Cho Seung-hui já não são as mortes e o posterior suicídio. Antes de terminar o “serviço” ele ainda encontrou tempo para um pit stop nos correios. Juntou uma série de fotos, vídeos e cartas de sua autoria e mandou para a rede de TV NBC.
Segundo os jornais, o sul-coreano era muito quieto e, durante a adolescência, seus parentes chegaram a pensar que ele fosse surdo-mudo. Fico imaginando que tipo de ânsia, desespero ou sei lá o quê existe na mente de seres como Cho Seung-hui, que só com a morte conseguiu realizar os sonhos que teve em vida: ser popular e causar qualquer espécie de emoção nas pessoas.
Fico matutando também como é perigoso viver. Certa vez ouvi a Fernanda Torres dizer que o número de acidentes de trânsito é ínfimo se começarmos a pensar nas condições de cada um que está dentro de seu carro. E é verdade.
Não sabemos se estão bêbados, drogados, com sono, armados, brigando com alguém no celular, p… da vida com o chefe ou se sabem dirigir!
O simples ato de sair na rua para comprar um pretzel pode ser muito perigoso. Podemos trombar até com um Cho Seung-hui indo ao correio. Também não é motivo para começar a usar camisetas do tipo “não bebo, não fumo, não corro, morri”. Enfim, quando chegar a hora não adianta chegarmos atrasados.

tatinha13    11:45 — Arquivado em: Sem categoria


20.4.07

FUI INDO E ACABEI FONDO

 Cozinhar, jogar futebol, bordar, escrever, pintar, educar os filhos, desenhar. Todas elas são modalidades de arte. Enobrecem o homem, fazem bem ao espírito, à mente e o principal: não representam dificuldades para quem tem o poder nato de executá-las. Fingir-se de morta, no entanto, talvez seja a única penosa.
Jogar futebol, por exemplo, sabe-se ou não. Pode-se até argumentar que existem as escolinhas, os bons treinadores e o esforço do atleta, mas nada substitui a aptidão natural. O verdadeiro jogador já vem com o kit completo: boa estrutura física, raça e intimidade com a pelota.
O mesmo raciocínio se aplica às demais artes. Há os pais que sonham com uma cartilha para domar seus rebentos e as mulheres que freqüentam cursos de culinária e pintura. Toda tentativa é legítima e deve vir acompanhada de frases de incentivo, mas é aquela história… há casos em que não adianta beijar. Não vai virar príncipe.
Fingir-se de morta é uma arte. A oitava. A distância que separa o aparentar não saber de nada e o não passar a idéia de ser uma bocó é muito tênue. É tão difícil quanto fazer o milagre da multiplicação dos pãezinhos.
Ao contrário das artes genuínas, o fingir-se de morta representa uma dificuldade imensa para a “artista”. É o único caso em que a pessoa precisa ser uma atriz do padrão da Fernanda Montenegro para atuar num dramalhão mexicano.
Identificado o problema, uma série de planos mirabolantes vêm à cabeça. Fingir que não ouviu, meditar, fazer cara de modelo em catálogo de moda, contar até dez, cantarolar baixinho. Independentemente da alternativa escolhida, a naturalidade vai para o bebeléu. Não há saída a não ser testar uma a uma as possibilidades. A aflição é descobrir que quando se finge ser acaba-se sendo.
É assim que funciona. Esta arte – na qual apenas os cães são exímios – é traiçoeira. O fingir-se de é como uma doença degenerativa: um processo de morte lenta e gradual. É um anular-se em função do outro ou de alguma coisa. Até que ponto vale a pena?

tatinha13    14:35 — Arquivado em: Sem categoria
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