20.4.07
FUI INDO E ACABEI FONDO

Cozinhar, jogar futebol, bordar, escrever, pintar, educar os filhos, desenhar. Todas elas são modalidades de arte. Enobrecem o homem, fazem bem ao espírito, à mente e o principal: não representam dificuldades para quem tem o poder nato de executá-las. Fingir-se de morta, no entanto, talvez seja a única penosa.
Jogar futebol, por exemplo, sabe-se ou não. Pode-se até argumentar que existem as escolinhas, os bons treinadores e o esforço do atleta, mas nada substitui a aptidão natural. O verdadeiro jogador já vem com o kit completo: boa estrutura física, raça e intimidade com a pelota.
O mesmo raciocínio se aplica às demais artes. Há os pais que sonham com uma cartilha para domar seus rebentos e as mulheres que freqüentam cursos de culinária e pintura. Toda tentativa é legítima e deve vir acompanhada de frases de incentivo, mas é aquela história… há casos em que não adianta beijar. Não vai virar príncipe.
Fingir-se de morta é uma arte. A oitava. A distância que separa o aparentar não saber de nada e o não passar a idéia de ser uma bocó é muito tênue. É tão difícil quanto fazer o milagre da multiplicação dos pãezinhos.
Ao contrário das artes genuínas, o fingir-se de morta representa uma dificuldade imensa para a “artista”. É o único caso em que a pessoa precisa ser uma atriz do padrão da Fernanda Montenegro para atuar num dramalhão mexicano.
Identificado o problema, uma série de planos mirabolantes vêm à cabeça. Fingir que não ouviu, meditar, fazer cara de modelo em catálogo de moda, contar até dez, cantarolar baixinho. Independentemente da alternativa escolhida, a naturalidade vai para o bebeléu. Não há saída a não ser testar uma a uma as possibilidades. A aflição é descobrir que quando se finge ser acaba-se sendo.
É assim que funciona. Esta arte – na qual apenas os cães são exímios – é traiçoeira. O fingir-se de é como uma doença degenerativa: um processo de morte lenta e gradual. É um anular-se em função do outro ou de alguma coisa. Até que ponto vale a pena?
tatinha13
14:35 — Arquivado em: 

Cara Tati,
esse é, sem dúvida, seu texto mais rebuscado. Um grande beijo.
Comentário por Joubert — 20.4.07 @ 17:51
Excente texto, na forma e no conteúdo. E para ilustrar sua tese, conto a história que conheci de auma mulher que sempre teve melhor desempenho profissional que o marido,ele fingia que não notava, e la tambem fingia que não era bem assi, Ele sempre diminuia sua carreira profissional e o valor de seu salário.Ela fazia cara de sonsa, acho que passou até a achar que era verdade. Ela perdeu a auto estima e o casamento rodou…
Comentário por picidaribeiro — 20.4.07 @ 19:29
Todos nós chegamos ao mundo como animal. ser humano, vegetal ou o que seja mas viemos ja pré determinados a alguma coisa mas infelizmente no dia a dia de hoje vc precisa ser polivalente pra poder sobreviver com um bom emprego e um bom salário que bem poucos chegam a esse denominador.
Comentário por Juventino — 21.4.07 @ 10:36
A arte de fingir-se de morto(a) pode ser manifestada de diversas formas: dar uma de joão-sem-braço, ignorar informações de propósito, omitir opiniões, anular o voto, fingir que não viu/ouviu, pedir para esquecer de tudo que foi escrito e por aí vai. Concordo que a diferenciação entre covarde, esperto, bocó ou distraído é muito difícil: depende principalmente das circunstâncias e do talento do “artista”.
Comentário por Ricardo Rezende — 23.4.07 @ 22:53
É aquela história: Finge-se de morto para comer o fiofó do coveiro. Ele são muitos e estão em todos os lugares, e na maioria das vezes se dão bem.Por questão de sobrevivência é válido. O polvo por exemplo, é especialista. Ele se transforma em uma pedra no fundo do mar para safar-se dos seus predadores.Como o homem é o pior dos animais…
Comentário por José Rezende — 24.4.07 @ 14:05