19.4.07

Não sei vocês assistiram a um filme chamado “Hurricane”, com Denzel Washington. Nele, o ator interpretava um famoso boxeador americano dos anos 60, Rubin “Hurricane” Carter. O pugilista foi condenado à prisão perpétua e ficou atrás das grades por 20 anos por um crime que não cometeu.
Quanta ironia… No Brasil, “Hurricane” (furacão, em inglês) é o nome de uma operação da Polícia Federal que prendeu 25 pessoas só no Rio de Janeiro. O grupo explorava ilegalmente jogos de azar e usava parte de sua fortuna para comprar delegados, policiais, juízes e desembargadores.
Passei da tristeza à indignação. Não me espanta saber que bicheiros estão envolvidos em maracutaias e que podem até ter subornado os jurados da Liga das Escolas de Samba do Rio – disso até a mais sinhazinha da Ala das Baianas já desconfiava.
O que causa revolta é a ligação de autoridades à máfia. Não estou nem um pouco surpresa, já que em cada setor que alguém resolve pôr a mão acaba numa colméia (muito produtiva, por sinal). Congresso e Senado federais, Restaurante da Câmara, Correios, Infraero. Se começar a citar todos…
E o que dizer de Marina Maggessi, a ex-inspetora da polícia que mandou para a cadeia diversos chefes do tráfico? Até a Maria Machadão entrou nessa. Ela está sendo acusada de ter recebido recursos de um bicheiro para a campanha de 2006.
Onde estão os cara-pintadas que se reuniram na Paulista para protestar contra a visita de Bush ao Brasil? Foram levados por algum furacão?
E olha aí mais uma ironia: na época da vinda do norte-americano, Maggessi e algumas deputadas do PC do B estenderam uma faixa no plenário com a inscrição “Bush não é bem-vindo”.
Gostaria muito que alguém fizesse pelo menos uma plaquinha, uma flâmula para protestar contra tudo isso. A minha eu já tenho. Escrevi: “Eu já sabia!”.
O triste desse episódio é que os envolvidos não só não serão condenados à prisão perpétua como não vão ficar no xadrez por 20 anos. Pobre “Hurricane” Carter.
18.4.07

Estou farta do mundo dos “famosos”. Assim mesmo, entre aspas, afinal, eles são como leite: existem os do tipo A, B, C e BBB. O problema é que este leite – pelo menos na minha geladeira – já coalhou faz tempo.
A mídia especializada também segue esta “regra laticínia”.
A “Caras” é um bom exemplo do tipo A. Bem feita, boas fotos, papel de boa qualidade, atende perfeitamente os que acham que a grama do vizinho é sempre mais verde. O público é um verdadeiro abecedário. Há desde os ricos e famosos de verdade – que têm prazer em abrir a casa mesmo correndo o risco de serem seqüestrados – e os que pagam para mostrar a festinha do cachorro.
Já o “TV Fama”, da Rede TV!, é laticínio do tipo C e BBB pra baixo. A audiência, também variada, sofre (ou se delicia) com as frases de efeito e as lições de vida dos “famosos” e com os erros de português de seus entrevistadores.
O mais curioso é que as tais frases são usadas quando eles querem demonstrar inteligência – e tudo acaba num cabecismo irritante que não dá nem para achar graça. As que mais me impacientam:
- “Fui picado pelo bichinho do teatro”;
- “Se nem Jesus Cristo conseguiu agradar a todos…”
- “Não tenho palavras para explicar o que estou sentindo nesse momento. É uma emoção muito forte”;
- “Esse papel foi um presente do autor pra mim”;
- “Estou batalhando por um lugar ao sol”;
E a pior delas:
- “Beijo no coração”.
Os fãs, ao ouvirem o tal “beijo no coração”, acham o máximo e também passam a usá-lo. E em qualquer situação.
O que dizer dos fãs? Eles ainda são um mistério, mas de uma coisa tenho certeza: fazem parte de uma espécime humana muito peculiar. Impossível entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que passa horas, dias, semanas ou meses escrevendo uma carta de mil páginas para o ídolo. Ou os que choram desesperadamente durante o show. Ou os que fazem plásticas para ficarem parecidos com seus ídolos. Tatuagens…
Tem maluco para tudo, inclusive para se descabelar pelo fim da dupla Sandy e Junior. Nesta terça-feira o mundo da música ficou mais triste (não eram eles que cantavam “Imortal”?).
Não vou julgá-los porque acabei de dizer que tem maluco para tudo, mas eu me pergunto: como a “Caras” e o “TV Fama” vão sobreviver sem os irmãos-prodígio, representantes dos famosos tipo A? Junior está sem namorada e Sandy já disse que não é mais virgem. Quem vai garantir o leitinho das crianças dos jornalistas especializados em fofoca?
Um minuto de silêncio pelo fim do duo, por favor.
17.4.07

Nada como a sensação do dever cumprido. Parece até que respiramos com mais facilidade. Não falo por conta do trabalho e de outros afazeres profissionais – que são mais do que obrigações para mim. Digo por causa desta praga chamada ginástica (vamos peruar um pouco hoje?).
Cada vez que saio de uma aula de bike ou corrida sou outra pessoa. É uma delícia tomar banho e falar: vim, fiz, venci.
Já ouvi cantores, compositores e escritores dizerem que um bom trabalho é 90% transpiração e 10% inspiração. Na malhação esta lógica não funciona. Sem inspiração muito provavelmente você não vai conseguir a transpiração e as tão sonhadas calorias a menos.
Há dias em que realmente penso em virar para o lado e dormir mais um pouco. Às segundas-feiras este pensamento vem forte, dominador. Mas é só começar a me lembrar do que comi e do que ainda vou mandar pra dentro que em menos de cinco minutos estou de tênis e malinha pronta.
Acho uma bobagem, entretanto, quando ouço alguém contando que se viciou em endorfina. Esse papinho geração saúde, convenhamos, é mesmo chato.
Além de treinar diariamente, já participei de um duatlo que a academia promove. Geralmente são uns 25, 30 km de bicicleta e cerca de 4 ou 5 km de corrida. Falando assim parece difícil, mas para quem malha todo dia não chega a ser um bicho-papão. O duro é vencer os primeiros 30 minutos. Daí em diante já dá pra gritar um volta pro mar, monstro!
Pense nisso ao iniciar uma atividade física. Qualquer que seja ela. As primeiras semanas são mesmo complicadas – são estes meus 30 minutos – mas nada que a lembrança da calça 36 que você acabou de comprar não resolva.
Ainda não descobri se são as aulas, o professor, a endorfina ou a alegria de ter vencido a preguiça que me tornam uma pessoa feliz toda vez que cumpro mais esta missão diária. E, sinceramente? Você só vai se empenhar de fato quando começar a perceber os resultados.
FRASE DO DIA: Não sou a Madonna, mas já caí do cavalo
P.S.: Vejam hoje, no "Programa do Jô", a matéria sobre Braço do Trombudo (SC)
16.4.07

Na quarta-feira passada um anúncio da cerveja Brahma na capa da Folha de S. Paulo anunciava a criação da “Zeca-feira”. Porque, segundo Pagodinho, “uma sexta só é pouco”. No dia seguinte, manchete do mesmo jornal: “Anvisa vai limitar publicidade de cerveja”.
A restrição aos anúncios de bebidas começou em 1996, quando passaram a ser proibidos na TV entre as 6h e as 21h. Não estou muito certa, mas acho que a de cigarros também. O mundo de Malboro ficou só para depois da novela das oito.
A nova regulamentação apertou um pouco mais o cerco. Propagandas de bebidas com mais de 0,5 grau de teor alcoólico serão impedidas no rádio e na TV entre as 8h e as 20h. Em jornais, revistas e Internet, serão acompanhadas de alertas.
É certo que o “beba com moderação” que aparecia no canto da tela durante os comercias era bem tímido. Para alguém que bebe (ou mesmo para o alcoólatra) o aviso soava como um conselho de mamãe. Da mesma forma, acredito que as novas regras impostas pela Anvisa vão ter eficácia quase zero. É um avanço? Sem dúvida, mas ainda insuficiente.
Pegue um fumante que consome dois, três maços por dia e pergunte se ele pensa em parar quando vê uma das terríveis fotos escolhidas pelo Ministério da Saúde para alertá-lo de que fumar é um veneno. Até pensa, mas não tem mais forças para isso.
Paulo Autran é um ótimo exemplo. Em 2003 ficou em coma e quase faleceu por causa de suas tragadas. Viu a cara da morte e largou a piteira? Não. Na semana passada voltou ao hospital.
Não devemos ser radicais ao ponto de proibir a veiculação de qualquer anúncio de bebida alcoólica, bem como de tabaco. Qualquer criança sabe que fazem mal à saúde. O que incita alguém a começar a fumar e a beber não são apenas os anúncios, mas o nosso dia-a-dia. No cinema e na TV tanto a nicotina quanto a bebida são associadas à idéia de bem-estar, poder e luxo, quando não de aventura.
Estou convencida de que as mensagens subliminares são piores que o “Zeca-feira” ou o “venha para onde está o sabor”, mas aplaudo qualquer iniciativa de combate ao problema. Afinal, como vamos competir com os milhões e milhões de dólares que as companhias de bebida e tabaco injetam em Hollywood? Ou no punhado de reais envolvidos nos patrocínios da Copa e da Fórmula 1?
Esse mundo é só pra gente grande. Pegue seu cobertor Parahyba e já pra cama!
O tema de hoje foi sugestão do leitor Rodolfo. Valeu!
15.4.07

Assisti “300”. Quando escrevi sobre “Maria Antonieta” disse que era filme de mulherzinha. Pois “300” é cinema pra menino. Apesar disso – e de não ser muito fã de quadrinhos do tipo – gostei.
O nosso Rodrigo Santoro faz o rei persa Xerxes. Magérrimo, maquiado e moreno, ele está – como já adiantavam as piadas – a cara da Vera Verão. Não sei dizer se o personagem dos quadrinhos tem essa androginia, mas no filme não fica muito claro qual é a do rei.
Para os que ficaram decepcionados com a participação dele em “As Panteras - Detonando” ou mesmo na série “Lost”, em “300” ele dá conta do recado. Não só fala (a voz foi modificada por computador), como é o grande vilão da história. Xerxes, o temido.
Desde o início cria-se um clima para a chegada dele. É Xerxes pra cá, Xerxes pra lá, até que ele surge, triunfal e à brasileira, num carro que é, literalmente, um abre-alas de escola de samba.
A partir daí começam chuvas de vários tipos: de sangue, de cabeças decepadas, de flechas e de gritos.
Vale a pena abrir um parêntese para falar dos garotos. Quanta saúde. Estou em busca da alternativa mais saudável para esta questão: 1) eles passaram os seis meses que antecederam às filmagens marombando; 2) são modelos-atores; 3) os corpos também foram modificados por computador; 4) aderiram à nova moda brasileira e colocaram próteses de silicone.
Agora entendo a faceirice da apresentadora Gloria Maria na pré-estréia do filme, no Rio. Ela estava de papo com o rei Leônidas, Gerard Butler, o melhor representante da testosterona do filme. É Fantástico!
A história é baseada na batalha de Termópilas, que aconteceu na Grécia. E, apesar de o exército espartano ser pequeno, o ditado “a união faz a força” fica em nossa cabeça grande parte do tempo. Não devo revelar mais porque gostaria que vocês assistissem e mandassem seus comentários, mas o filme termina nos chamando para uma nova batalha. E eu estarei lá.
FRASE DO DIA: Continuo querendo ser uma das 300 de Esparta
Leia também Supercombo com Refri
14.4.07
Conforme o prometido, hoje vou descrever o Braço do Trombudo. Calma, gente, é só uma cidadezinha no interior de Santa Catarina.
O motivo da viagem foi iniciar uma série de reportagens em municípios com nomes ambíguos, como Pintópolis (MG), Serrinha dos Pintos (RN), Cabeceira Grande (MG), Pau dos Ferros (RN) e outros palavrões.
Braço do Trombudo fica a cerca de 270 km de Florianópolis e tem por volta de 3.500 habitantes. Na rua, num dia de garoa fina, não conheci nem 1% dos braço-trombudenses.
Achei que fosse encontrar o binômio clássico: a pracinha com a igreja e o coreto. Nem isso. Apenas duas ou três ruas, um Banco do Brasil, uma fábrica de parafusos e um povo bem simpático.
Logo na chegada, já começaram a surgir as piadas: a equipe e eu cruzamos com dois pequenos tratores carregados de mandioca. Mais tarde descobriríamos que o tubérculo é um dos principais produtos cultivados no local e tema da festa homônima, hoje extinta – para nosso azar.
Mais à frente, uma chaminé altíssima de uma fábrica de cerâmica falida (permitam-me não fazer nenhum trocadilho com o “falida”).
Na conversa com o prefeito Vilberto Schovinder (sócio da fábrica de parafusos), a explicação para o formoso nome do município. Existem duas versões. A primeira fala que, por causa das tempestades que atingiam a região, causando grandes trombas d’água, os imigrantes batizaram os rios e suas comunidades de Trombudo Central e Braço do Trombudo.
A outra garante que o nome vem do vasto número de antas na região. Essa foi novidade, já que eu não sabia que as antas têm uma tromba característica.
Além de cachoeiras, a cidade tem o atrativo turístico de qualquer lugar do interior: as festas típicas. A mais tradicional é a de Rei e Rainha do Bolão e Rei e Rainha do Tiro. Bolão para eles é boliche.
O cartaz abaixo me chamou a atenção:

Concordam que é preferível ser o primeiro perdedor a ficar em quarto lugar?
Adorei o hino do município, perfeito para sonorizar uma matéria cheia de duplos sentidos. A primeira estrofe diz:
"Tua história é de orgulho crescente!
Braço do Trombudo és bela, és potente!
No passado eras um sonho ideal, hoje um sorriso, uma conquista real!"
Abaixo, o prédio da prefeitura:

Por causa da chuva, não pude nem visitar a cachoeira local nem conferir o Trombudo. O rio, gente!
Assim que for confirmada a data da exibição, aviso a todos.
13.4.07

Nossos deputados resolveram abrir os trabalhos do ano. Enquanto Clodovil descerra seu gabinete à visitação para mostrar a nova decoração – que inclui almofadas com brasões da República – outros ocupam-se com a aprovação de um aumento de salário de R$ 12.800 para R$ 16.200. Uns ainda discutem se a CPI do Apagão Aéreo sai ou não. Ralando tanto, correm o risco de virar a capa do Batman.
Uma coisa já é certa: não vão votar nada às segundas-feiras. Oficializaram que só trabalham de terça à sexta. Ou terça, quarta e quinta? Nos demais dias, retornam às bases, que pode ser nas ilhas Cayman, Seychelles, Capri ou mesmo em Presidente Prudente.
Em São Paulo, o ano parece ter começado mais cedo. Foi aprovado gasto livre de R$ 12.400 aos vereadores. Foram criados ainda 27 cargos comissionados, ou seja, sem a necessidade de concurso. Liberou geral.
E, finalmente, a crise do apagão aéreo espirrou no Lula. Apesar de a pesquisa CNT-Sensus divulgar que a aprovação dele hoje é de 63,7%, ante 59,3% em agosto de 2006, o Ibope pinta outro quadro. 49% o avaliam como “ótimo” ou “bom”. Em relação à pesquisa de dezembro passado, a avaliação positiva era de 57%. Já é alguma coisa…
Diante dos fatos, acho muito oportuno o nome dado a um bordel na Inglaterra: Brasília. É sério. E não é de Jeany Mary Corner, e sim da empresária Michelle Tasker. Localizado em Preston, chegava a atender 27 clientes por dia.
A única diferença da Brasília londrina para a matriz brasileira é que lá a dona ficava com 40% do faturamento. E aqui? Alguém imagina de quanto é o lucro?
O post de hoje foi sugestão do leitor José Rezende. Valeu!
E, amanhã, Braço do Trombudo.
11.4.07

A presença de Keith Richards na Terra é a evidência mais clara de que Deus existe. E o roqueiro não só está vivinho da silva, como surpreende a cada dia.
Diante da pergunta “qual a coisa mais esquisita que tentou cheirar?” respondeu: “Meu pai. Cheirei meu pai. Ele foi cremado e não resisti à tentação de moer um pouco dele com o pó (a cocaína)… A coisa foi bem, e eu ainda estou vivo”.
Não sei se rio ou choro. A declaração foi dada à revista britânica “New Music Express”. No dia seguinte, Keith negou. Disse que tudo não passou de uma grande brincadeira. O que ocorreu é que ele plantou um carvalho inglês e tirou as cinzas da urna para que servissem de adubo.
Mas as excentricidades não param por aí. A revista norte-americana “Slate” foi além. Entrevistou especialistas para saber os perigos pelos quais o roqueiro teria passado. E o alívio: cheirar as cinzas do pai só faria mal à saúde se isso virasse um hábito.
Os peritos ainda fizeram uma analogia com os trabalhadores de minas de carvão. Expostos à poeira por muitos anos, podem desenvolver doenças respiratórias graças ao acúmulo de pequenas partículas no pulmão.
Essa é mais uma das muitas histórias que vão entrar para o repertório de maluquices do mito. A mais famosa delas dá conta de que, por causa das drogas, Keith teria se internado para trocar todo o sangue do corpo.
A propósito, o pai de Keith Richards, Bert, morreu em 2002, aos 84 anos.
P.S.: amanhã não tem coluna. Embarco hoje à noite para Braço do Trombudo, em Santa Catarina. Sexta-feira estamos de volta. Até!
9.4.07

A manchete “juíza brasileira é esfaqueada no Timor Leste” me fez pensar em mais um caso de represália da população local contra quem se atreve a meter a colher onde não é chamado.
Dois motivos me levaram à conclusão: além de ter sido escalada para trabalhar como observadora internacional nas conturbadas eleições, o que se sabe é que o clima no Timor é meio tenso.
Mas a leitura da reportagem revela que não foi nada disso. A magistrada foi assaltada mesmo. Sair do Brasil para ser esfaqueada em Dili. Isso é que é azar.
Acredito que eu não estava sozinha ao pensar daquela forma. Já nos acostumamos a ter notícias de pessoas que, apesar das boas intenções, acabam se envolvendo em encrenca da séria.
O caso mais marcante foi o da missionária americana Dorothy Stang, assassinada em 2005 no Pará. Fora a atividade pastoral, Dorothy tentava minimizar alguns conflitos fundiários na região amazônica, o que ia de encontro com os interesses econômicos de madeireiros, seringueiros e outros eiros do local.
Há também os gaiatos, ou melhor, os que estão no lugar errado, na hora errada. O assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes entra nessa categoria. Foi morto por policiais no metrô de Londres pela “atitude suspeita” de usar uma jaqueta pesada num dia de calor. Acharam que fosse um homem-bomba.
Algum tempo após o incidente, o primeiro-ministro Tony Blair tomou uma atitude muito em moda no Brasil na última semana: pediu desculpas.
Aí caímos numa outra discussão: até que ponto reconhecer o erro é válido após um grande estrago ter sido causado? O que vale é a intenção? Depois da mordida, sopro adianta?
8.4.07

Depois dos outdoors, o novo alvo do prefeito paulistano Gilberto Kassab são as feiras livres.
Era muito pequena quando o Jânio foi prefeito e uma das poucas lembranças que tenho é que o símbolo do governo dele era uma vassoura. Pelo jeito o Kassab passou a mão na vassoura do Jânio (no bom sentido) e anda fazendo horrores por aí.
Atitudes de bruxo ele já teve. Quem não se recorda dos gritos que ele proferiu contra um cidadão que protestava num posto de saúde quando da visita do prefeito ao local? Ficou tão furioso que o pessoal do deixa-disso teve de entrar em ação. A turma do “Pânico na TV” fez uma reconstituição ótima sobre o episódio.
Feira livre em São Paulo agora é tudo, menos livre. O horário de funcionamento terá de ser entre 7h30 e 13h30 e o período de montagem deve ser entre 6h e 7h30. Os feirantes estão proibidos de usar jornal velho para embalar as mercadorias, bem como gritar para atrair a freguesia. Barracas e uniformes serão padronizados e os vendedores deverão seguir algumas medidas de higiene, como o uso de luvas descartáveis. Além disso, as feiras deverão ser realizadas em locais com estacionamento para clientes e feirantes e acesso a banheiros públicos.
Cadê o charme da feira? Pechinchar pode? Será que é o fim da aventura de se desvencilhar de uma casca de banana no chão? Com as novas regras, o simples ato de provar um pedaço de melancia vai ser chamado de “degustação de fruto vermelho suculento e adocicado” . Xepa sem grito não é xepa!
Se não pode nem gritar e nem colar cartazes, como o feirante vai se comunicar? Por mímica? Fazer gestos para tentar vender banana é fácil, mas como sinalizar um repolho? Um brócolis?
Essa tentativa de transformar feirantes em dândis não vai dar certo. Imagino o quão desagradável é ter uma feira na rua onde se mora, ouvir o barulho dos montadores às quatro da manhã e depois ter de conviver com o cheiro de peixe o resto da tarde. Embalar carnes no jornal também não é das atitudes mais higiênicas. Concordo, em parte, com algumas das decisões do prefeito, mas faltou bom senso ao nosso Harry Potter paulistano.