20.8.07

CADA UM NO SEU GALHO

 Não é de hoje que ouvimos que o mundo está globalizado. Em termos. No Brasil há vários lugares-ilha. E é nas viagens que tenho feito ao interior nordestino que encontro argumentos que justificam minha tese.
Estive no Sergipe, Alagoas e mais recentemente no Rio Grande do Norte em cidades não muito distantes da capital, cerca de 150 km, no máximo. Em todas elas, além do previsível clima de tranqüilidade, me chamou a atenção a relação do povo com a música.
Mesmo com a facilidade de acesso à Internet e à TV, as pessoas destes pequenos lugares ainda mantêm o velho hábito de ouvirem música na rua, em frente ao bar, com o som ligado no último volume. Nas caixas, um único ritmo: o forró.
Bandas com nomes sugestivos, como “Cinzeiro de Motel”, “Ferro na Boneca”, “Cavaleiros do Forró”, “Vaca Atolada”, “Pé de Urtiga”, “Garota Safada”, “Cabaço do Forró”, “Saia Rodada”, “Forró dos Plays”, “Moleca Sem-Vergonha” e outros estão nos ouvidos do povo.
A fórmula também é conhecida: uma “loira”, um galã, um cara de chapéu e mais algumas dançarinas com pouca roupa. Os refrões não são exatamente um primor, mas agradam. Estes grupos geralmente se apresentam nas vaquejadas, competições entre vaqueiros com farta distribuição de prêmios aos ganhadores. Há, inclusive, os que sobrevivem apenas disso. O povo adora.
Quem diria que enquanto americanos fazem filas para comprarem um iPhone e ingleses se espremem para conseguirem um exemplar de mais um livro da série “Harry Potter”, brasileiros ainda prefiram Joelma e Ximbinha. Repito: mesmo tendo acesso à Internet nos cyber cafés que chegam a existir nestes pequenos municípios.
Quantas vezes não escutamos gente dizendo que o povo só gosta de coisa ruim porque é apenas isso o que é oferecido a eles? Não é verdade. Infelizmente o povo também aprova produtos de má qualidade – principalmente na seara musical.
A banda Calypso é o melhor exemplo. Muito antes de estourar no sudeste, o casal já era considerado rei no Pará. Só faltava serem descobertos pelo resto do país. Estouraram não por imposição da gravadora ou porque a “música de trabalho” virou o tema do casal da novela das oito. O sucesso ocorreu porque os paranaenses prestigiavam – e prestigiam – seu produto interno bruto. Acham que Joelma realmente canta bem.
Não é necessário atravessar o Atlântico para estar num outro mundo.
Novidades incríveis encontramos aqui mesmo, nestas ilhas no interior do Brasil.
Nós do sudeste estamos ficando meio japoneses: se embaralharmos, não conseguimos identificar quem é brasileiro, português, americano ou inglês.
No Nordeste não. Eles sabem identificar exatamente se quem está cantando é o “Forró dos Plays” ou o “Ferro na Boneca”. E ai se você se atreve a dizer que é tudo a mesma coisa…

tatinha13    14:31 — Arquivado em: Sem categoria
2 Comentários
  1. Não precisa de muito esforço, porque nas regiões que vc passou AMADO BATISTA é rei.

    Comentário por Juventino — 21.8.07 @ 0:41

  2. Pode parecer preconceito, mas acho que o gosto musical tem a ver com o nível de educação de um povo (ou de uma região). É claro que “gosto contra gosto não se discute”, mas o acesso à informação e à cultura aumenta a capacidade de discernimento das pessoas, fazendo perceber com mais clareza o que pode ser considerado bom ou ruim.
    Isso também vale para escolha de políticos. Pensando assim, problemas críticos no sistema educacional, programas assistencialistas como o Bolsa Família, eleição do Lula e a banda “Cabaço do Forró” têm uma íntima relação…

    Comentário por Ricardo Rezende — 22.8.07 @ 0:33

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