31.10.07

Sinceramente ainda não compreendi o que os brasileiros estão comemorando. Se o Brasil era candidato único à sede da Copa de 2014 por que milhares de pessoas saíram às ruas ontem para celebrar a notícia? É algo que foge ao meu discernimento.
É verdade que estamos tão carentes de boas novas que até frase de biscoitinho da sorte nos deixa felizes. Em Brasília, por exemplo, até uma estátua do ex-presidente JK ganhou uma camisa da seleção.
Mas, além dos festejos, não entendo por que já tem gente dizendo que tem orgulho de ser brasileiro. Só pela escolha? Ou será que sou eu que não tenho amor pela pátria?
Não quero ser estraga-prazeres, mas não temos muito o que comemorar. Em todas as áreas. Nos próximos meses todos teremos a chance de exercitarmos os poderes da mente curta. Esqueceremos – ou nos farão esquecer – caos aéreo, leite adulterado, Renan Calheiros, CPMF… Um problema, entretanto, permanecerá na pauta: a CPI do Corinthians.
A TV vai se transformar numa grande mesa redonda em que os atacantes discutirão questões vitais no país do futebol: qual deles tem mais condições financeiras? Onde a segurança é mais eficaz ? Quem é mais privilegiado pela natureza?
Pessoas começarão a fazer bolões. As sessões nas Câmaras e Assembléias de todo o Brasil serão usadas com um único objetivo: tentar trazer as partidas para seus respectivos Estados. E 2008 é ano de eleições. Todos querem ser artilheiros – não foi à toa que 12 governadores embarcaram na comitiva que foi para a Suíça.
O nosso dono da bola, Lula, que já adora abusar de metáforas futebolísticas, vai estar inspirado como nunca. Ontem, mais uma vez, foi refém de seus discursos improvisados. Disse que o Brasil vai fazer uma Copa para argentino nenhum botar defeito. Da brincadeira sem-graça fica a pergunta: precisava se indispor deste jeito? Só faltou mostrar a língua para completar a malcriação.
Pior que a participação do presidente foi o comentário de Ricardo Teixeira de que violência não é um assunto exclusivamente brasileiro. Jogou no ventilador ao dizer que pelo menos aqui não há garotos atirando nas escolas (Estados Unidos) ou policiais assassinando inocentes (Jean Charles, em Londres). Em que país Ricardo Teixeira mora?
Pela pequena amostra já deu para perceber que provocações e informações equivocadas serão uma constante nos próximos sete anos. Num casamento, se o casal atravessa a crise dos sete seguirá forte. Será que essa regra também se aplica à nossa via-sacra rumo ao hexa?
30.10.07

Além da cabeleira loira, outro elemento não sai da cabeça de Susana Vieira: o marido-problema. Há poucos meses ela teve sua vida completamente exposta em rede nacional após o cônjuge – e policial – armar um barraco com uma prostituta num motel. Babado resolvido, o inesperado acontece: ela perdoa o bonitão, aparece na “Caras” e ainda sai em nova lua-de-mel.
Ontem mais um capítulo da novela. Na falta de coisa melhor para fazer, Marcelo sai à tarde para passear com Heitor, o pastor alemão da atriz. O cão, que não é bobo e já tinha sacado todo o movimento do dono postiço, morde a mão de Marcelo, se livra da coleira e sai em disparada. Acaba atropelado e morto na Praia do Pepê, na Barra da Tijuca.
Susana, mais uma vez, sofre. Chega ao local correndo e fica desesperada ao ver seu cão – que mais parecia um urso – ser carregado.
Marcelo vai parar no hospital e por pouco não perde o dedo. Teve de passar por uma cirurgia e já deve estar tudo bem – quem disse que vaso ruim quebra fácil?
O amor realmente é cego, surdo e mudo. Até o pobre do Heitor queria se livrar de Marcelo. Aproveitou-se de um inocente passeio para dar cabo ao seu plano, mas não conseguiu ser bem-sucedido. Só Susana não percebe que há algo errado?
Que me perdoem as loiras, mas será que é a cor do cabelo?
P.S.: assistam hoje, no “Programa do Jô”, a matéria feita em Pureza (RN)
29.10.07

Da mesma forma que nós brasileiros descobrimos um novo uso para a soda cáustica, os alemães devem ter achado alguma outra utilidade para o papel higiênico. Uma reportagem publicada pela revista "Der Spiegel" mostrou que os militares alemães gastam 800 milhões de rolos por ano.
Depois que o fato veio à tona surgiu uma explicação bem brasileira, ou seja, estapafúrdia. Um secretário alemão disse ter errado nas contas e disse que não são consumidos 800 milhões, mas 800 milhões de partes dele. O Brasil está fazendo escola mundo afora.
O lamentável é que estamos exportando know-how só para fatos duvidosos. Ouvi na CBN que Cristina Kirchner foi eleita na Argentina, mas foi derrotada em cidades consideradas importantes, como a própria capital Buenos Aires e Rosário. Além disso, a popularidade dela entre a classe média é baixíssima. Qualquer semelhança com o que aconteceu por aqui com Lula não é mera coincidência. É know-how.
Exportamos nosso conhecimento, mas também importamos porcarias. À parte o hábito do fast food, a sede dos publicitários em emplacar o Halloween por aqui é tamanha que um dia pega. Competições entre cães fantasiados – a exemplo do que foi organizado por João Doria Jr. em Campos do Jordão – estão virando moda. Os endinheirados acreditam que um deles pode se transformar em Tiger Woods. Nunca se jogou tanto golfe em São Paulo como agora. Louvo a iniciativa de dar um tempo de expressões como “pátria de chuteiras” ou “país do futebol”, mas o problema é que tem gente se levando a sério demais. Beira a breguice.
E o que dizer das versões televisivas para as séries americanas ou inglesas? Quem já assistiu “Donas-de-casas Desesperadas” deve saber do que estou falando. E nossas “milionárias” Karina Bacchi e Ticiane Pinheiro? Paris Hilton não pode nem sonhar que duas “wannabes” fazem sucesso por aqui num papel que é o dela – inclusive na vida real. E o nosso Donald Trump? Tão engraçado que é parodiado pelo próprio colega de emissora, Tom Cavalcante.
Tem jeito?
28.10.07

Além de nossa primeira-dama ter tirado do armário seu traje de Noelete para o aniversário de Lula, outra saia justa merece comentário: a entrevista que o governador carioca Sergio Cabral concedeu ao portal G1. Nela, afirma que o aborto é a solução para a violência.
Lendo a exclusiva, até entendo parte do que ele quis dizer, mas o fato é que ele se perdeu feio em seu discurso. Se ainda tivesse feito a declaração por escrito, através de um artigo, teria a chance de falar que foi mal interpretado ou tascar um “esqueçam o que eu escrevi”, mas quando se declara algo precipitadamente fica mais difícil voltar atrás.
Para justificar seu ponto-de-vista citou um livro americano em que os autores mostram que a redução da violência nos Estados Unidos na década de 90 está ligada à legalização do aborto em 1975 pela Suprema Corte. Minha humilde opinião é a de que isso foi apenas uma coincidência.
Mas o soco no estômago vem com a seguinte frase: “Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, na Tijuca, no Méier ou em Copacabana ou no Leblon. É padrão sueco. Agora pega na Rocinha, pega no Vidigal, pega no Alemão, é padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”. Nesta hora a gente volta no começo da entrevista para checar se não estamos lendo um pingue-pongue com o capitão Nascimento.
Escorregou feio na banana. Generalizar dizendo que no morro só tem marginal foi assinar um atestado para ser perseguido pela imprensa e por várias associações de direitos humanos e contra o aborto. Ingenuidade dele – para não dizer má-fé – pensar que menos gente signifique menos violência.
Fácil jogar para as mães a responsabilidade por algo que ele já deveria estar se coçando para resolver. Mandou a batata quente para as mães, mas agora é a dele que está assando.
É certo que se as famílias tivessem menos filhos e mais condições para criá-los com educação e dignidade não teríamos tanta violência, mas daí a sugerir essa profilaxia nas favelas há algumas léguas.
Assim como a questão das drogas, já passou da hora de discutirmos a legalização do aborto. Se ninguém no Senado, no Congresso ou no Planalto tem coragem para tocar no tema, que algo seja feito por meio de um plebiscito. Pronto. A população decide – sendo um país que se diz católico, não é tão difícil adivinhar o resultado.
A minha opinião é a de que a mulher, mais do que ninguém, é a única que pode decidir sobre algo que lhe diz respeito intrinsecamente. A vida é dela, assim como a que está dentro de seu corpo.
O xará de Cabral descobriu o Brasil. Agora o governador precisa descobrir uma boa maneira de se safar dessa.
27.10.07

Algo me diz que tem caroço nesse angu que está virando o caso do padre Julio Lancelotti. O religioso se tornou conhecido e respeitado em São Paulo graças ao seu trabalho com menores infratores e aidéticos na instituição que comanda na capital, a “Casa Vida”.
Pois a credibilidade do padre está abalada desde que ele foi à polícia denunciar que estava sendo extorquido e chantageado por um de seus ex-pupilos – que age ao lado de mais duas pessoas. Ainda pesa contra ele a acusação de ter abusado de alguns menores – acusação que se tornou mais séria após o depoimento de uma ex-funcionária do instituto confirmando o ocorrido.
O que soa estranho é que além de ser uma história que se arrasta há seis, sete anos, na primeira vez em que foi pedir a ajuda das autoridades Lancelotti informou que havia dado R$ 50 mil ao grupo, mas voltou atrás e afirmou ter fornecido R$ 80 mil para a compra de um automóvel. Também teria ido pessoalmente fazer o financiamento da Pajero para eles.
Os advogados de ambas as partes dizem que seus clientes são vítimas, mas o que levaria o padre a dar tanto dinheiro para um jovem? Por que o religioso não procurou a polícia há mais tempo? Que tipo de chantagem pode ser feita contra um padre, o representante dos céus na Terra? Que maldade o padre teria causado a uma ex-funcionária a ponto de ela prestar depoimento contra ele?
Seria injusto acusá-lo de qualquer coisa antes que estes pontos sejam esclarecidos, mas é uma pena que mais uma vez um religioso esteja envolvido em assuntos desta natureza.
Uma coisa é certa: os pedófilos sempre encontram uma maneira de se aproximar de seus alvos. E isso ocorre de uma maneira tão discreta e sutil que somos pegos de surpresa toda vez que acontece. Alguns até escolhem a profissão levando em conta sua preferência (ou doença).
Estão lembrados do psiquiatra que dopava e depois abusava de seus pacientes adolescentes enquanto os pais aguardavam os filhos na sala de espera? E do monitor de acampamento que se aproveitava da convivência diária com os garotos para se satisfazer sexualmente? Isso só no Brasil. Nem vamos citar padres e professores tarados nos Estados Unidos e em outros países.
Quem acaba pagando o pato por todos eles é o pobre do Michael Jackson…
24.10.07

Não entendi se é coincidência ou humor negro, mas ao mesmo tempo em que o Rio de Janeiro desmorona, uma chamada na capa do portal Terra diz o seguinte: “Aproveite e faça agora bolinhos de chuva”.
Só consigo interpretar o “aproveite” de uma maneira: já que o Rio está um caos, prepare deliciosos quitutes, ligue a TV, ponha uma meia e acompanhe as notícias do caos de seu confortável sofá. Se for isso, muito triste. Capturar meia dúzia de internautas deste jeito soa a apelação…
De qualquer forma, não gostaria de estar na Cidade Maravilhosa numa hora dessas. Além de conviver com a violência, o carioca pode acrescentar mais um medo à sua lista: o de que os favelados desçam o morro de vez. Não seria o caso de se preocuparem com os traficantes – eles sabem muito bem para onde fugir. Sempre.
Não há registros de feridos, mas malandro que é malandro arranja um jeitinho de fazer cara de desabrigado para descolar uma graninha extra nos faróis. Uma semana. Este é o meu chute para começarem a surgir as “vítimas” do túnel Rebouças. E como brasileiro é solidário, se não ocorrer nada pior para satisfazer a sede de tragédia dos jornais sensacionalistas, em breve teremos campanhas ou passeatas por causa das infiltrações dos imóveis próximos ao local do incidente. A seguir cenas do próximo capítulo…
P.S.: a coluna volta no sábado. Nos próximos dias estarei nas cidades de Ferros e Virginópolis (MG). Até!
23.10.07

Não se falou em outra coisa ontem a não ser na morte da velhinha de 82 anos que se casou com o garotão de 24. O laudo deu conta de que ela teve um AVC, mas desconfio que o problema foi outro. Morreu envenenada por causa do nosso leite longa vida.
A intoxicação aconteceu durante a lua-de-mel dos pombinhos no Rio de Janeiro. A recém-casada bebeu de nosso leite e ao contrário do nome do laticínio, teve sua vida abreviada. Novos casos hão de aparecer para comprovar minha tese.
Ingênuo é quem pensa que Olacyr de Moraes ficou conhecido como o “rei da soja” porque é proprietário de extensas plantações do cereal. Ele recebeu a alcunha porque, visionário que é, só toma leite de soja. Além de lhe encher os bolsos, a soja lhe garante belas companhias e, consequentemente, longa vida. Desse mal ele não morre. A próxima miss sei-lá-de-onde pode se casar tranquila porque terá seu marido por um bom tempo.
Vamos rir porque a situação está feia. Até o leite virou alvo de operação da Polícia Federal. Neste caso o nome escolhido para a investida foi “Ouro Branco”, mas pelo o que foi encontrado no leite, poderíamos chamá-la de “Ouro Louro”.
Duas cooperativas em Minas Gerais foram autuadas porque acrescentavam peróxido de hidrogênio (a famosa água oxigenada) para aumentar o volume de sua produção e disfarçar as más condições de conservação e transporte. Pensei que só as louras de carne e osso usassem artifícios para aumentarem seus volumes…
Os resultados mostraram também a adição de soro acima do índice máximo. Do jeito que estava, só poderia ser destinado à alimentação de animais. Concordo que a nossa vida não tem se diferenciado muito da de um bicho. Além de vivermos enjaulados, quem usa o transporte público nas grandes cidades é transportado como carga ou manada. Os que dependem do serviço público de saúde recebem um tratamento infinitamente inferior ao dado a um cachorrinho de estimação. Sem contar que há muita gente que deixa o instinto selvagem falar mais alto e age como bicho.
Em países desenvolvidos até a sabotagem não traz efeitos colaterais tão sérios como aqui. Esses dias, na Itália, um maluco espalhou um corante na Fontana di Trevi que deixou as águas cor de sangue. Claro que o suspeito já está preso.
Quem nos dera que no Brasil o sangue fosse só um tom de vermelho.
P. S.: Vejam hoje, no “Programa do Jô”, a matéria feita em Curralinho (PA)
22.10.07

O que mais me chamou a atenção na matéria de capa da “Veja” sobre a “guerra” entre Globo e Record não foram os números ou a quantidade de dinheiro injetada pela Universal na TV, mas a explicação do bispo Macedo para a cobrança do dízimo.
Ele compara a quantia que seus fiéis repassam à igreja ao acordo entre um dono de terra e seu trabalhador. Segundo Macedo, se o arrendatário dá 50% do que retira da terra cultivada para o dono, é normal que o fiel dê 10% para a “obra de Deus”.
Saiu-se muito bem, são apenas 10% dos rendimentos. Mas, peraí. Existem fiéis que ganham um salário mínimo. Outros – como o próprio Macedo – sabem adubar a terra e vêem seu pé de feijão crescer até os céus. Literalmente.
Se a Universal – e consequentemente a Record – está indo de vento em popa é porque a relação servo e senhor feudal continua dando frutos em pleno século 21. Para todo carro há um macaco, para todo contador de história há uma platéia e para todo charlatão há uma vítima. Ou milhares. E não se fala mais nisso. Se tudo é feito dentro da lei – ou nas brechas –, se a empresa é uma coisa e a Igreja é outra, se os 10% de um somado com os 10% do outro dá 2 bilhões de reais por ano e no fim todos ficam felizes e vão para o céu, eu que não meto a mão nessa cumbuca. Deixa esse mingau engrossar para lá.
Enquanto isso, há gente se preparando para ser um Macedo no futuro. Leio hoje que no final deste ano receberão seus canudos os 35 primeiros bacharéis formados pela Faculdade de Teologia Umbandista, em São Paulo. A faculdade é a primeira do tipo a ser credenciada e reconhecida pelo MEC. Enade neles!
O leque de disciplinas é tão amplo que no fim do curso acho que os alunos podem até escolher entre variados tipos de “ilusionismo”: o de Edir Macedo, padre Marcelo, Mãe Dinah ou Paulo Coelho. Eles cursaram sociologia, psicologia, filosofia, ciências políticas, matemática, artes, lógica, anatomia, botânica, administração templária (?) e sistemas filo-religiosos (??).
A explicação do coordenador do curso, Roger Soares, não é tão objetiva quanto a do bispo: “Estudamos a teologia da umbanda com um enfoque multidisciplinar, passando pela ciência e pela religião e resgatando a cultura popular. O umbandista é o mestiço brasileiro e a faculdade é a valorização dessa cultura”. Captaram?
Mas não é só isso. Nos quatro anos de curso as aulas práticas ensinam a preparar rituais e conduzir cerimônias tradicionais da umbanda através do manuseio de ervas e folhas secas.
O coordenador faz questão de deixar claro que a proposta do curso não é formar pessoas para comandar templos umbandistas (apesar de os formandos terem capacidade para isso). Diz que os bacharéis em teologia podem dar aulas na educação básica como qualquer outro formado em teologia tradicional. Ele só está se esquecendo de uma coisa: combinar com os pais da criançada.
Neste caso eu meteria a colher nessa sopa. É mais do que certo que não deixaria um charlatão “formado” numa faculdade de umbanda dar aulas de teologia para um filho meu. O caldo ia entornar.
21.10.07

Finalmente assisti a “Tropa de Elite”. Finalmente porque tive de vê-lo em duas etapas. Na primeira, na sexta-feira de estréia, passei mal e fui obrigada a deixar a sala com a história já pelo meio. A combinação da câmera nervosa com o fato de eu ter sentado mais perto da tela do que o de costume me fizeram ficar tão zureta quanto o capitão Nascimento.
Ontem – da última fileira do cinema – consegui assistir à segunda parte do filme brasileiro mais polêmico de todos os tempos. Além de ter sido matéria em todos os jornais e revistas do país, foi tema de um “Roda Viva” e de um sem-número de entrevistas e discussões na TV.
O barulho é plenamente compreensível. O filme é ótimo. Retrata sem filtros um dos nossos maiores temores: a violência. Não há bandidos e mocinhos. Ou são todos arroz tipo agulhinha ou todos feijão carioca. E ambos, como mostra o prato do brasileiro, se misturam.
Para quem, como eu, que achava que existia uma simbiose – ou parasitose – entre policiais e traficantes, em “Tropa de Elite” fica bem claro que a larva virou não uma lombriga, mas uma anaconda desgovernada. O drama é muito pior do que eu supunha. E, surpreendentemente, o diretor José Padilha deixou para trás um elemento muito comum nesta safra de filmes nacionais: a pieguice.
Sangue espirra, tiros ecoam dos fuzis, corpos são carregados como peças de carne, mas o show tem de continuar. E o show do Bope é espetacular.
Pouco acompanhei as discussões ou li as resenhas que o filme suscitou – não queria perder a surpresa de algo que já havia visto pela metade – mas acredito que a PM deva estar furiosa com a parte que a toca.
Se não é possível separar quem é arroz e quem é feijão entre polícia e tráfico, o mesmo não se pode dizer entre o Bope e a PM retratados no filme. A polícia representa o que há de pior e o Bope surge, com toda sua garra e truculência, para reprimir os corruptos. Nem que para isso as mortes tenham de ser colocadas na caderneta do Papa.
“Tropa de Elite” se passa em 1997, mas a precariedade da polícia é tanta que por instantes pensamos que a história é da década de 70 ou 80. As instalações policiais são sofríveis, bem como a situação da frota de veículos. Faltam peças, mecânicos capacitados e o protagonista: o dinheiro.
Não sei se por ingenuidade ou falta de observação, nunca tinha reparado no símbolo do Bope – um crânio atravessado por facas e do qual pendem granadas. Pouco violento, no entanto, se levarmos em consideração a que tipo de treinamento estes policiais de elite são submetidos. Treinamento também pouco questionável se tivermos em mente onde os aprovados vão trabalhar e que pepinos vão ter de encarar.
Achei interessante ainda uma tática mostrada no filme: a de que para diminuir as estatísticas de homicídios em sua área certos grupos policiais desovam os corpos em freguesia alheia. Vivendo e aprendendo.
O mais terrível ao deixar a sessão de “Tropa de Elite” é pensar que acabamos de ver um filme não-ficcional. É o nosso mundo real. Uma realidade que ao deixarmos a sala de cinema irá surgir à nossa frente.
E não poderia ter exemplo mais oportuno para ilustrar o que estou falando: as mortes na Favela da Coréia esta semana no mesmo palco no qual José Padilha encenou sua história. O Rio de Janeiro.
20.10.07

Não satisfeito em comandar sua “revolução” na Venezuela, Hugo Chávez tenta colocar suas asinhas sobre nós – mais especificamente dentro de nossas cabeças. Pretende distribuir nas escolas do Distrito Federal e nas que são vizinhas ao consulado venezuelano em todo o país o livro “Simón Bolívar, o Libertador”, com textos da principal referência de Chávez.
Livro é sempre bom. Ainda mais no Brasil, onde retiram os óculos e cegam estátuas como a de Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana. Mas é necessário um mínimo de critério.
Meu conhecimento histórico é demasiadamente deficiente. Cursei colégio técnico e História foi disciplina apenas no primeiro ano. Para piorar, neste único período não me recordo de ter tido aulas sobre América Latina. Portanto, além das informações de orelha, o que sei sobre Simón Bolívar colhi na Internet.
As fontes mais confiáveis dizem que Bolívar é o “personagem histórico mais complexo e de maior influência no imaginário político continental”. Seus seguidores têm um espectro ideológico que varia de A a Z, o que torna difícil saber até que ponto as apropriações do legado dele são fiéis ao pensamento original.
Aí é que mora o problema. Papel aceita tudo, o que muda é a interpretação que fazemos da leitura. Não sei se Chávez está mais para A ou para Z, mas a distribuição dos livros pode ser o primeiro passo do que vou chamar de “interferência intelectual” do venezuelano por aqui.
O Ministério da Educação não foi avisado oficialmente e disse que não tem que se pronunciar. As escolas é que devem decidir.
Guardadas as devidas proporções, mas em outros tempos, se Hitler quisesse distribuir umas cartilhas também não teria problemas com o governo brasileiro?
Deveríamos iniciar uma campanha no mesmos moldes que a do blog “Lanna Action for Burma”, que criou o protesto “Calcinhas pela Paz”. O grupo pede que mulheres de todo o mundo enviem suas peças íntimas para a embaixada de Mianmar mais próxima. O objetivo é afastar do poder os generais birmaneses que estão causando aquele fuá em Mianmar.
Diz a tradição que dentro da cultura birmanesa e da do sudeste asiático em geral esta história de calcinha é uma mensagem forte. Os generais são supersticiosos e acreditam que o contato com as roupas íntimas femininas pode derrubá-los do poder.
Além de nos juntarmos a esta campanha, poderíamos mandar nossas calcinhas para o Chávez. Ele não é birmanês, mas quem sabe não surte algum efeito?
Precisamos abrir o olho com este papo de livros bolivarianos. Tanto o nosso quanto o de Lula. Ao que tudo indica, entretanto, nosso presidente está como Drummond hoje: cego.