21.10.07
SEM TROPA E COM CHOQUE

Finalmente assisti a “Tropa de Elite”. Finalmente porque tive de vê-lo em duas etapas. Na primeira, na sexta-feira de estréia, passei mal e fui obrigada a deixar a sala com a história já pelo meio. A combinação da câmera nervosa com o fato de eu ter sentado mais perto da tela do que o de costume me fizeram ficar tão zureta quanto o capitão Nascimento.
Ontem – da última fileira do cinema – consegui assistir à segunda parte do filme brasileiro mais polêmico de todos os tempos. Além de ter sido matéria em todos os jornais e revistas do país, foi tema de um “Roda Viva” e de um sem-número de entrevistas e discussões na TV.
O barulho é plenamente compreensível. O filme é ótimo. Retrata sem filtros um dos nossos maiores temores: a violência. Não há bandidos e mocinhos. Ou são todos arroz tipo agulhinha ou todos feijão carioca. E ambos, como mostra o prato do brasileiro, se misturam.
Para quem, como eu, que achava que existia uma simbiose – ou parasitose – entre policiais e traficantes, em “Tropa de Elite” fica bem claro que a larva virou não uma lombriga, mas uma anaconda desgovernada. O drama é muito pior do que eu supunha. E, surpreendentemente, o diretor José Padilha deixou para trás um elemento muito comum nesta safra de filmes nacionais: a pieguice.
Sangue espirra, tiros ecoam dos fuzis, corpos são carregados como peças de carne, mas o show tem de continuar. E o show do Bope é espetacular.
Pouco acompanhei as discussões ou li as resenhas que o filme suscitou – não queria perder a surpresa de algo que já havia visto pela metade – mas acredito que a PM deva estar furiosa com a parte que a toca.
Se não é possível separar quem é arroz e quem é feijão entre polícia e tráfico, o mesmo não se pode dizer entre o Bope e a PM retratados no filme. A polícia representa o que há de pior e o Bope surge, com toda sua garra e truculência, para reprimir os corruptos. Nem que para isso as mortes tenham de ser colocadas na caderneta do Papa.
“Tropa de Elite” se passa em 1997, mas a precariedade da polícia é tanta que por instantes pensamos que a história é da década de 70 ou 80. As instalações policiais são sofríveis, bem como a situação da frota de veículos. Faltam peças, mecânicos capacitados e o protagonista: o dinheiro.
Não sei se por ingenuidade ou falta de observação, nunca tinha reparado no símbolo do Bope – um crânio atravessado por facas e do qual pendem granadas. Pouco violento, no entanto, se levarmos em consideração a que tipo de treinamento estes policiais de elite são submetidos. Treinamento também pouco questionável se tivermos em mente onde os aprovados vão trabalhar e que pepinos vão ter de encarar.
Achei interessante ainda uma tática mostrada no filme: a de que para diminuir as estatísticas de homicídios em sua área certos grupos policiais desovam os corpos em freguesia alheia. Vivendo e aprendendo.
O mais terrível ao deixar a sessão de “Tropa de Elite” é pensar que acabamos de ver um filme não-ficcional. É o nosso mundo real. Uma realidade que ao deixarmos a sala de cinema irá surgir à nossa frente.
E não poderia ter exemplo mais oportuno para ilustrar o que estou falando: as mortes na Favela da Coréia esta semana no mesmo palco no qual José Padilha encenou sua história. O Rio de Janeiro.
tatinha13
7:32 — Arquivado em: 

Também achei o filme ótimo, principalmente por mostrar que muitos jovens das classes média e alta carioca, que também sofrem com a violência urbana, são responsáveis por sustentar traficantes ao consumirem drogas. Eles participam de ONG’s, pedem paz, criticam a polícia e tudo mais, mas não deixam de “enrolar baseados” e “cheirar carreirinhas”. Hipocrisia pura!
Comentário por Ricardo Rezende — 21.10.07 @ 9:45
Também concordo com o leitor do blog que se assina Ricardo Rezende. Não consigo desvincular a responsabilidade do usuário de drogas da violência causada pelo tráfico. Afinal, os usuários também financiam esse vultuoso comércio. Não vejo outro caminho a não ser o da legalização. Drogas, assim como a bebida alcóolica, deve ser um problema de saúde pública e não um crime. O assunto é polêmico e a solução (se virá) não será a curto prazo. Mas já podemos chegar a uma conclusão definitiva: a política de repressão ao comércio de entorpecentes falhou feio.
Comentário por Joubert — 21.10.07 @ 10:34
Esse filme é um tapa na cara da classe média.
Bjs
Assisti e gostei muito, mas me preocupo com a situação da nossa sociedade atualmente. Uma sociedade carente de heróis.
E convenhamos, eu amo o Wagner Moura, maso capitão Nascimento não é exemplo pra ninguém.
Ser honesto, trabalhar bem, ser responsável e comprometido são qualidades que temos a obrigação de ter. Não considero mérito nenhum…
Detalhe: Asisti 4x esse filme e se o Wagner Moura me quisesse eu não tava sofrendo tanto
Comentário por Thaysa — 21.10.07 @ 21:52