22.10.07
PASSE DE MÁGICA

O que mais me chamou a atenção na matéria de capa da “Veja” sobre a “guerra” entre Globo e Record não foram os números ou a quantidade de dinheiro injetada pela Universal na TV, mas a explicação do bispo Macedo para a cobrança do dízimo.
Ele compara a quantia que seus fiéis repassam à igreja ao acordo entre um dono de terra e seu trabalhador. Segundo Macedo, se o arrendatário dá 50% do que retira da terra cultivada para o dono, é normal que o fiel dê 10% para a “obra de Deus”.
Saiu-se muito bem, são apenas 10% dos rendimentos. Mas, peraí. Existem fiéis que ganham um salário mínimo. Outros – como o próprio Macedo – sabem adubar a terra e vêem seu pé de feijão crescer até os céus. Literalmente.
Se a Universal – e consequentemente a Record – está indo de vento em popa é porque a relação servo e senhor feudal continua dando frutos em pleno século 21. Para todo carro há um macaco, para todo contador de história há uma platéia e para todo charlatão há uma vítima. Ou milhares. E não se fala mais nisso. Se tudo é feito dentro da lei – ou nas brechas –, se a empresa é uma coisa e a Igreja é outra, se os 10% de um somado com os 10% do outro dá 2 bilhões de reais por ano e no fim todos ficam felizes e vão para o céu, eu que não meto a mão nessa cumbuca. Deixa esse mingau engrossar para lá.
Enquanto isso, há gente se preparando para ser um Macedo no futuro. Leio hoje que no final deste ano receberão seus canudos os 35 primeiros bacharéis formados pela Faculdade de Teologia Umbandista, em São Paulo. A faculdade é a primeira do tipo a ser credenciada e reconhecida pelo MEC. Enade neles!
O leque de disciplinas é tão amplo que no fim do curso acho que os alunos podem até escolher entre variados tipos de “ilusionismo”: o de Edir Macedo, padre Marcelo, Mãe Dinah ou Paulo Coelho. Eles cursaram sociologia, psicologia, filosofia, ciências políticas, matemática, artes, lógica, anatomia, botânica, administração templária (?) e sistemas filo-religiosos (??).
A explicação do coordenador do curso, Roger Soares, não é tão objetiva quanto a do bispo: “Estudamos a teologia da umbanda com um enfoque multidisciplinar, passando pela ciência e pela religião e resgatando a cultura popular. O umbandista é o mestiço brasileiro e a faculdade é a valorização dessa cultura”. Captaram?
Mas não é só isso. Nos quatro anos de curso as aulas práticas ensinam a preparar rituais e conduzir cerimônias tradicionais da umbanda através do manuseio de ervas e folhas secas.
O coordenador faz questão de deixar claro que a proposta do curso não é formar pessoas para comandar templos umbandistas (apesar de os formandos terem capacidade para isso). Diz que os bacharéis em teologia podem dar aulas na educação básica como qualquer outro formado em teologia tradicional. Ele só está se esquecendo de uma coisa: combinar com os pais da criançada.
Neste caso eu meteria a colher nessa sopa. É mais do que certo que não deixaria um charlatão “formado” numa faculdade de umbanda dar aulas de teologia para um filho meu. O caldo ia entornar.
tatinha13
9:58 — Arquivado em: 

Quais são os critérios do MEC para reconhecer um curso superior? Imaginem só a lista dos cursos reprovados!
Comentário por Ricardo Rezende — 22.10.07 @ 22:46
Essa é boa… Tô até sem palavras…
Só um casinho sobre a moça-que-trabalha-na-casa-da-minha-mãe. Ela frequenta a Universal e pediu pra minha mãe calcular quanto é 10% do salário + vale transporte + INSS (que minha mãe paga integral pra ela) + fundo de garantia, pra doar pra igreja. Afinal, ela disse, o vale, o fundo e o INSS também fazem parte do salário, e os 10% têm de ser de tudo somado. Tadinha…
Comentário por Lile — 23.10.07 @ 6:58