19.10.07

Acabo de voltar de uma expedição pela cidade de Curralinho, no Pará. Alcançar o local foi uma prova que envolveu sangue frio, preparo físico e paciência. Vencida a primeira etapa – cerca de seis horas de viagem de São Paulo a Belém –, no mesmo dia encarei um monomotor até o lugar. Acreditem, a outra opção de transporte na capital paraense era uma barca furada: uma viagem de barco que duraria oito horas rio Pará abaixo.
Localizada na região da Ilha do Marajó, Curralinho tem por volta de 25 mil habitantes que sobrevivem basicamente do extrativismo do açaí, do palmito e da pesca. Foi o local em que nossa equipe mais sofreu abordagens em busca de ajuda. Foram queixas em relação ao desemprego e às condições de saúde. Representávamos a salvação para os que nos procuravam. Também pudera. Eles vivem literalmente ilhados.
Situação triste e constrangedora, mas felizmente não trabalho no “Cidade Alerta” e não estava no local em busca de matérias de denúncia ou atrás de um grande furo jornalístico. O objetivo era levar um pouco de alegria.
Acho que conseguimos. As boas-vindas foram calorosas. Recebidos com fogos de artifício, até inauguramos uma palmeira com pinturas marajoaras que foi batizada como Jô Soares – o açaí e o peixe estão deixando a população com o fosfato em dia.
No início a cidade era uma fazenda particular administrada por portugueses. Com o tempo surgiram diversas fazendas na área, o “curralzinho” perdeu o “z” e acabou se transformando no alvo de piadas que conhecemos hoje.
Não é apenas a denominação do município que dá margem a brincadeiras maliciosas. Alguns rios da região também levam nomes curiosos – todos com as duas letrinhas no início, no meio ou no fim. Os pescados, idem: aracu, tucunaré, maiacu…
Pau Grande para eles não é o lugar em que nasceu Garrincha, mas sim um curso d´água perto de Boa Vista. Não por acaso, o Pau Grande deles fica perto de um outro rio, o Furo Grande.
O restante vou censurar – pode ter criança lendo. Na verdade, é para que vocês assistam a matéria que vai ao ar nesta terça-feira, no “Programa do Jô”.
Vejam AQUI algumas fotos de Curralinho
16.10.07

Fofoca é um negócio muito sério. Se eficaz, pode arruinar a vida de uma pessoa. Quem se lembra do caso Glória Pires? Em 1998 espalhou-se o boato (ou a fofoca) de que ela estava no hospital porque teria tentado cortar os pulsos após flagrar o marido na cama com a filha mais velha. Em poucas horas a notícia tomou uma proporção tão grande que ela teve quase de aparecer num plantão do “Jornal Nacional” para mostrar que tudo estava bem.
Houve vários outros episódios de maledicência, como o de que Cláudia Raia estaria com Aids ou mesmo Milton Nascimento.
Em algumas situações – como no caso de Milton Nascimento, que emagreceu excessivamente – até compreendemos a motivação do boato, mas fica difícil entender porque ele “pega” ou não. De algo, entretanto, tenho certeza: é uma tarefa para desocupados.
Toco neste assunto hoje porque pesquisadores alemães e austríacos descobriram que a fofoca pode ter uma função social. Eles sugerem que falar da vida alheia ajuda as pessoas a saber quem é confiável e quem não é dentro de um grupo.
Segundo eles os indivíduos podem ter suas opiniões mais influenciadas pelas fofocas do que por fatos que elas mesmas presenciaram. Para chegarem à conclusão, fizeram uns testes – meio confusos – através de um jogo que valia dinheiro.
Não sei se estes cientistas mereceriam o Prêmio Nobel e ainda não entendi qual é a função social, mas é algo que nos leva a pensar. Às vezes fico especulando o que move um ser humano a ter tanto interesse pela vida alheia.
Conheço uma pessoa que fica ansiosa pela chegada da “Caras”. Se puder, passa o dia olhando sites de fofocas e, principalmente, adora falar da vida dos outros. Por que ela é assim? Será que a vida desta pessoa é tão desinteressante que precisa adicionar experiências de terceiros? Não tem nada melhor para fazer? Por que a curiosidade? Por que não consegue se segurar e precisa dividir suas descobertas?
O fofoqueiro nunca está sozinho. Está sempre “repercutindo”(adoro esta palavra) alguma coisa. E utiliza inclusive este verbo, o “repercutir”. Também raramente se aproxima de alguém para conversar inocentemente. No momento certo checa a informação de que precisava – sob o seu ponto-de-vista, muito discretamente.
Como vêem, este é um enigma que para mim está muito longe de ser desvendado.
A MTV tem uma vinheta ótima que diz o seguinte: “Desligue a TV e vá ler um livro”. Conselho semelhante tenho para os fofoqueiros: “Dê um descanso à sua língua, leia um livro, vá dormir ou pentear macaco”.
P.S. 1: Embarco hoje para a cidade de Curralinho, no Pará. Se tudo der certo, sexta-feira estou de volta
P.S. 2: Vejam hoje, no “Programa do Jô”, a matéria feita em Minador do Negrão (AL)
15.10.07

A grande febre musical da minha adolescência foi o Menudo. Eram lindos, afinados e ainda sabiam dançar. Mas como acontece na maioria dos casos de sucesso instantâneo, desapareceram rapidamente. Hoje só temos notícias do (grande) Ricky Martin e de vez em quando vemos Robby (que agora é Rosa) em algum programa de auditório.
Nunca comprei ou ganhei discos da banda – nem aquele em eles apareciam com uma prancha, na praia –, mas usei um brinco que tinha uma foto do Ricky aos 14 anos – quase um tiozinho para mim na época. Comprei na feira de domingo e o exibi em minhas orelhas por um bom tempo. Se bobear, ainda está numa gaveta na casa dos meus pais. Também não me esqueço de um broche que ganhei num amigo secreto na escola. Dei um LP do “RPM” e ganhei um broche. Quem iria se esquecer disso?
Pois se eu fosse adolescente hoje o alvo de minha paixão seria Zac Efron. Ele é o astro da série “High School Musical”. O garoto é meio vesgo, mas graças ao sucesso já enxerga um lindo futuro.
Alguns fãs estão tão enlouquecidos que não aguentaram esperar o lançamento do segundo filme e o baixaram pela Internet.
Família que pirateia unida permanece unida. Enquanto os pais assistem ao piratão de “Tropa de Elite” os filhos se distraem com a sequência de “High School Musical” – que dizem ser muito melhor que a primeira.
Gostaria de entender o fascínio que a fórmula “música + coreografia + cantores lindos = histeria coletiva” exerce sobre os adolescentes. O LP pode ter virado CD, MP3 ou ringtone e o filme novo facilmente baixado pela Internet, mas a equação continua dando resultado. E não é negativo, e sim exponencial (isso existe?).
De qualquer forma, taí um mistério para ser desvendado. Pode ser que ganhe o Prêmio Nobel.
Além de Zac, uma outra personagem faz a cabeça das meninas. É Gabriela, interpretada por Vanessa Hudgens. A explicação me parece clara. Além de ser o par romântico de Zac, é namorada dele “na vida real”. Todas querem ser Vanessa.
Mas nem tudo é só glamour. Na época do Menudo, vira e mexe Paulo Ricardo era preso por porte de droga. Desta vez não foi diferente. Alguém do “High School” tinha de pagar o pato. E foi Vanessa. Fotos em que ela aparece nua vazaram na Internet.
Que triste isso. No meu tempo nunca escapuliu nenhuma imagem do Ricky tomando banho – até porque o pai e a mãe da Internet ainda nem haviam se casado.
A Disney não deve ter ficado nada contente com esta história – justamente às vésperas da estréia de seu blockbuster adolescente. Mas se foi jogada de marketing, Vanessa jogou alto.
Entre pelados e piratas, tenho um veredicto: vesgo aqui só o namorado.
14.10.07

A névoa é um fenômeno climático interessante. Ela embaça a vista, reduz a visibilidade, causa receio e medo. Não é à toa que a usamos como metáfora para expressar dificuldades.
Há momentos em que parece que ela não vai se dissipar nunca. Que não vamos ver o amanhecer e que a luz do Sol só virá no próximo verão. Até lá temos de viver num “winter blues” que se anuncia eterno.
Quando algo não vai bem os manos costumam dizer que “tá embaçado” ou que fulano “tá embaçando”. Infelizmente nossa passagem pela Terra é pontuada não apenas por dias de céu azul e claro, mas também por nuvens e nevoeiros.
Prefiro as nuvens. Observando-as lá no alto temos a chance de, com alguma criatividade, identificar formas naquilo que se assemelha a um emaranhado de algodão.
Passatempo comum para as crianças, contemplar o céu à procura de ursinhos ou monstros pode ser um martírio para os adultos – a brincadeira é encarada como tarefa de teste psicotécnico.
No nevoeiro não existe sequer esta possibilidade lúdica. O que se apresenta à nossa frente é uma massa disforme e turva. O desconhecido.
Névoa intensa sinaliza mais um problema. A impossibilidade de enxergarmos o outro faz-nos sentirmos sós – mesmo que estejamos a um passo do nosso destino. É quando nos solidarizamos com os manos e constatamos que a nossa vida “tá o maior embaço”.
Uns são corajosos. Outros, pacientes. Os primeiros ligam o farol e vão adiante. Atravessam o túnel de névoa sem saber se encontrarão luz lá no fim.
Os pacientes refletem. Não que sintam medo, mas empacam por alguns instantes a fim de avaliar os riscos. Atitude aparentemente prudente, mas tão arriscada quanto. No meio da névoa acaba-se indo de encontro com o que não queremos. E acidentes podem acontecer.
Até o efeito estufa tem seu lado positivo. Dentro de uma determinada faixa é de vital importância para a sobrevivência na Terra. O mesmo podemos dizer sobre a névoa após sua passagem. Mas só muito tempo depois.
Entender por que ela vem e como ela se dispersa é um esforço em vão. Afinal, como explicar um fenômeno da natureza?
13.10.07

A área da saúde é um terreno pantanoso. É tão variável quanto a moda. A diferença é que para sacarmos as tendências de estilo para o próximo verão é só darmos uma passada no shopping e olharmos uma única vitrine. Todas as outras serão iguais – as atuais, invariavelmente, terão bolsas grandes, cores cítricas, dourado ou prateado e o retorno de um clássico dos anos 80: o balonê.
No campo da saúde a história é outra. Ficamos à mercê das descobertas científicas ou de algum livro bombástico desmascarando alimentos – caso de “Sugar Blues”. Lançado em meados dos anos 70, afirmava que o açúcar causava câncer, era a droga mais consumida pela humanidade e ainda tratava os produtores como traficantes.
Entre alarmistas e cientistas, acabamos tão perdidos quanto a vergonha de nossos políticos. O caso mais clássico é o do ovo. Muito já foi discutido, mas continuamos com a interrogação na testa. Afinal, ele colabora ou não para o aumento dos níveis de colesterol?
No entanto, como na moda, a saúde tem suas modinhas. Teve a do vinho – uma taça ao dia é ótimo remédio para o coração –, a da acerola – que contém muito mais vitamina C que a laranja –, a da soja – que previne uma série de doenças e é muito nutritiva.
O chá verde é o balonê deste verão. É tão milagroso que tem praticamente os mesmos efeitos da pílula do frei Galvão – com a vantagem de poder ser consumido por pecadores, neopentecostais, mórmons, budistas e até católicos.
O ingrediente transpôs barreiras. Hoje já existem cremes, perfumes, sabonetes e até shampoos à base de chá verde. Do jeito que a coisa anda, se Lula souber dos benefícios da erva pode esquecer-se do etanol e passar a louvar as características do chá no exterior – se não for uma matéria-prima genuinamente brasileira, sem problemas. Lula sabe vender seus peixes.
Para um alimento cair no gosto popular depende da forma como os cientistas ou estudiosos o vendem para a imprensa. Porque ela acaba comprando. Uma vez divulgada a notícia de que o chá ajuda a emagrecer e tem propriedades antioxidantes, milhões de pessoas que nunca tomaram chá mate gelado na praia correm para o supermercado e já fazem um estoque de chá em casa.
Apoiado na mesma informação, o dono do estabelecimento também toma suas providências. Põe o produto em liquidação e escala o locutor do mercado para anunciar a promoção-relâmpago: na compra de quatro caixinhas de chá mais R$ 10 o comprador leva de “presente” uma caneca plástica para tomar seu chazinho bem quentinho.
Vamos precisar de muito chá verde para engolirmos essa e muitas outras que vêm por aí…
P.S.: a propósito, a foto acima é de um muffin de chá verde
12.10.07

Já repararam como o mundo é cheio de situações improváveis? Não é pessimismo nem tampouco ceticismo ou que fui abatida por algum mal do século. Apenas uma espécie de “sentimento de improbabilidade”.
É improvável que a nossa geração alcance a juventude eterna, tenha a família feliz, o emprego dos sonhos e, para os que realmente a desejam, a vida eterna. Bem como que sejamos privilegiados pela descoberta de uma pílula que nos permita comer sem efeitos colaterais – ou laterais mesmo.
É improvável que achem um culpado pela morte de Lady Di. Da mesma forma, que se consiga provar que a garota Madeleine desapareceu pelas mãos dos pais ou que O.J. Simpson matou a esposa.
É improvável que estejamos presentes no dia em que for anunciada a cura para a Aids ou para o câncer. Ou que noticiem que ninguém mais é vitimado pela depressão, pelo sentimento de culpa, pelo ciúme, inveja ou arrependimento.
É improvável que Michael Jackson admita que ficou branco porque fez tratamento para isso. Ou que Xuxa assuma que teve um caso com Pelé por interesse. Que Glória Maria revele sua idade. Que Camila Pitanga diga que alisa o cabelo. Ou Gisele Bundchen reconheça que seu peito não é de fábrica.
É improvável que os fiéis da bispa Sônia desconfiem que o dinheiro do dízimo vai para o bolso dela e, de lá, para uma Bíblia com fundo falso direto para Miami. Que as crianças voltem a acreditar em Papai Noel e em cegonha. E que os adultos não temam o Leão.
É improvável que Elvis esteja vivo, que Dercy Gonçalves morra este ano, que dona Marisa pare de fazer plásticas e que Lula passe por uma cirurgia para recolocar o dedo.
É improvável que descubram o processo de construção das pirâmides, o segredo da fórmula da Coca-Cola. Ou como foram os últimos minutos dos que estavam nos aviões que foram jogados contra as Torres Gêmeas. Ou do que é feita a salsicha e se o ovo faz mal à saúde.
É improvável que Maradona pare de consumir cocaína, que Rubinho seja tricampeão mundial de Fórmula 1 e que Ronaldo Fenômeno emagreça, se case e fique com a mesma mulher para sempre.
É improvável que não existam mais buracos nas ruas de São Paulo, balas perdidas no Rio de Janeiro, motins em penitenciárias e que os presídios tenham capacidade para abrigar todos os criminosos.
É improvável que Lula faça um pronunciamento dizendo que sempre soube de tudo.
Tudo é improvável. Não impossível.
11.10.07

O dólar cai, a Bolsa sobe, novos bebês são encontrados em matagais, mais gente morre em acidentes rodoviários, outro maluco americano abre fogo na escola, mas algo permanece imutável: a presença de Renan Calheiros na presidência do Senado.
Por mais que senadores e deputados se organizem em nome de um “Fora, Renan!” será difícil ele largar o osso – apesar de não precisar, afinal, está mais para cachorro de madame que para vira-lata.
Mesmo com tanta gente querendo a cabeça dele, Renan pensa que tem um quê de Che Guevara. Deve achar que “vale mais vivo que morto”. Pensamento, convenhamos, típico de megalomaníaco.
Livrou-se da cassação, mas ainda responde a outros três processos: suposta ajuda a uma cervejaria, ter utilizado laranjas para comprar veículos de comunicação em Alagoas e é suspeito de integrar esquema de coleta de verbas em ministérios liderados pelo PMDB.
Se conseguiu se safar do mais difícil - que era se dar bem num processo em que toda a opinião pública fez marcação cerrada - agora é só ensaiar a coreografia da comemoração.
Dizem que Lula é um presidente Teflon – nada cola nele. Eu me arriscaria a dizer que Renan é Bombril – o que tem mil e uma utilidades.
Para se eleger deputado federal e depois senador bancou o Omo Progress para seus eleitores de Murici. Com a promessa de remover as sujeiras mais difíceis, incluindo manchas, foi eleito.
Dando um bom salto no tempo, foi uma margarina derretida quando conheceu Mônica Veloso. Como no comercial, fez cara de quem precisava de um pouco de “Qualy” e conquistou a dona da casa. Mal sabia Mônica que essa margarina estava cheia de gordura trans e ia lhe fazer um mal terrível ao coração.
Renan também já atacou de coruja ao ser pego com a boca na botija pela esposa por causa de seu affair e da filha que teve fora do casamento. Não falou nada, só ficou prestando atenção – até quando dona patroa apareceu para perdoá-lo publicamente.
No momento Renan é um pepino. Quando a gente o esqueceu um pouquinho, nos lembramos novamente – graças à notícia de que grampeou telefones de colegas. Como brasileiro é ruim de memória, até que este novo papel de Renan pode vir a ser útil.
Uma questão me atormenta: será que o Bombril vai arranhar o Teflon?
10.10.07

Sou fã da Danuza Leão. Não cheguei a ler a autobiografia dela, “Quase Tudo”, e nem o “Na Sala com Danuza”, uma espécie de manual de etiqueta, mas não perco a coluna no jornal. Neste domingo ela falou sobre como podemos ser felizes com as coisas simples da vida, como comer um pedaço de fruta docinha na feira, tomar um banho bem quentinho e até colocar um pijama velho e ficar em casa sem fazer nada. Constatou ainda algo um tanto controverso – que pode ser assunto para outro post . Que para sermos ou estarmos felizes não precisamos necessariamente de uma pessoa.
Questões complicadas à parte, o fato é que ela sabe como ninguém falar de sentimentos. Tem o dom.
Após ler o texto, concordei em gênero, número e grau. Além das pequenas bobagens que estão ao nosso alcance, nada como um agradinho a nós mesmos para ficarmos contentes. Às vezes uma bobeira – como um vidro de esmalte, uma meia, um brinco baratinho ou qualquer miudeza de uma loja de R$ 1,99 – nos faz Poliana por um dia.
Pois eu acabo de me dar um presentinho. Não foi comprado numa loja de R$ 1,99 e nem foi tão barato, mas posso usá-lo vestindo meu pijama velho. Comprei um computador portátil e agora estou que nem pinto no lixo: numa alegria só.
Após alguns anos resistindo à idéia de ter computador em casa – já passo o dia inteiro em frente de um – percebi que não conseguiria viver sem. Faz falta para tudo: escrever este diário, localizar telefones e endereços, baixar músicas, usar o telefone… Estou dependente da tecnologia. Não chego a ser viciada em Internet, mas se fico um dia sem abrir emails viro um poço de ansiedade.
Como qualquer brinquedo novo, nos primeiros dias ele é tão requisitado que deve rogar praga até a nossa quinta geração. Descobrir todos os meandros, entretanto, leva tempo e requer uma dose de paciência. O barulho do vizinho pode estar incomodando e o pernilongo também, mas a empolgação com a novidade nos transforma em monges budistas. Sem contar que ficamos cheio de dedos com o brinquedinho novo. Comer um pedaço de fruta docinha perto dele? Nem pensar.
Coincidência ou não, o Dia das Crianças está aí. O que vocês vão se dar de presente?
9.10.07

Que Mônica Veloso que nada… A polêmica do momento está sendo causada por um artigo que Luciano Huck escreveu na “Folha de S. Paulo” após ter tido o seu relógio Rolex roubado no bairro do Itaim.
Foi na semana passada. Num longo texto na página 3 do jornal ele contou que quase morre sem conhecer o segundo filho. Mostrava-se revoltado com o fato de pagar seus impostos em dia e tentar fazer as pessoas mais felizes – seja em seu programa, seja na ONG que criou – o Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias. O que recebeu em troca foi um quase-tiro na testa. Falou ainda que tinha o costume de andar de carro blindado, mas hoje não usa mais carros do tipo por filosofia.
Foi o que bastou. Havia muito não apareciam cartas tão indignadas no painel do leitor do jornal – mais de 300. Houve quem o defendesse, mas a grande maioria estava pê da vida com o fato de uma pessoa famosa, rica e bem-sucedida reclamar por ter sido roubada. Alguns disseram: “bem-vindo ao mundo real” ou pobrezinho, levaram o relógio que havia recebido da Angélica por conta de seu aniversário.
Ontem a confusão continuou com um artigo de um escritor do Capão Redondo, o Ferréz – o Capão é um bairro na periferia sul de São Paulo. Em seu texto, Ferréz desce a lenha em Huck.
Sob o ponto de vista de quem vive cercado pela pobreza, defende o bandido – que no texto ele chama de “correria”. Num trecho, justificando a atitude do ladrão, diz: “se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos”. E no final: “Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes”.
Nesta luta de classes que acabou virando a discussão, tendo mais para Huck. Entendo a revolta de Férrez, mas nada, nada e nada justifica o crime. Huck pode ter nascido em boa família, ter grana, ser famoso e ter condições de comprar quantos Rolex quiser, mas acredito que ele também tem o direito de manifestar sua indignação.
Minha opinião vai na mesma linha do que havia escrito sobre o “Cansei!”, de João Doria Jr. Não é porque os integrantes têm vida boa regada a champagne e caviar que não possam se manifestar. É absolutamente legítimo.
Ferréz vai na contramão de tudo. Também está no direito de expor suas idéias, mas incitar o crime é outra história.
Por essas e outras é que, se tivesse grana, ao contrário de Huck, passaria a andar de carro blindado.
P.S.: Assistam hoje, no Programa do Jô, a reportagem feita em Lagoa de Velhos (RN)
8.10.07

A clonagem da ovelha Dolly foi o início de uma grande polêmica. Há quem tema que cientistas malucos passem a produzir seres humanos em série e que o avanço represente na verdade um retrocesso para a nossa espécie.
Não ponho a mão no fogo por nada – muito menos por aquilo que não conheço direito – mas tenho minhas dúvidas se chegaremos lá. A pressão da sociedade será grande para que isso não ocorra. De qualquer forma, sou a favor da clonagem terapêutica, aquela usada para obter células-tronco. A partir delas pode-se produzir tecidos ou órgãos inteiros para transplantes e salvar a vida de milhares de doentes ou pessoas que ficaram inválidas por quaisquer motivos.
Menciono o assunto clonagem porque estou espantada com uma técnica macabra chamada “reborn, que consiste em reproduzir bebês reais no formato de bonecos usando materiais como vinil e silicone. Já havia visto dois bonecos-bebês no filme “Licença para Casar”, só não sabia que já tinham nome.
O negócio é espantoso. Existem alguns bem mal feitos, mas outros ficam tão perfeitos que dão medo. Parados, parecem bebês mortos-vivos.
O trabalho, que geralmente é feito através de fotos antigas de pessoas, também pode ser realizado a partir de “modelos” vivos. O primeiro passo é retirar da boneca qualquer acessório ou pintura que venha de fábrica. Cabeça, corpo e membros são tingidos de maneira a se aproximar ao máximo do tom de pele de um bebê – nesta fase da pintura ainda são acrescentadas “veinhas”!
O corpo é recheado de forma a ficar com a consistência e o peso de um recém-nascido. Já para a colocação dos cabelos é realizado praticamente um transplante. Os fios são colocados – ou “plantados” – um por um. Os fabricantes-deuses podem acrescentar batidas cardíacas se o cliente assim o quiser.
Nos sites especializados sobram esquisitices. Há bebês de todos os tamanhos, tipo de cabelo, cores de olhos, fraldinhas, chupetas e roupinhas. Além de ser um trabalho totalmente artesanal e com muitas opções, os preços não são nada convidativos: entre U$ 200 e US$ 300 – mas há bebês mais em conta para papais com o bolso mais murcho.
Não sei o que se passa na cabeça de uma pessoa que compra um “reborn”. A facilidade de não precisar trocar a fralda? Se fabricam bebês com batimento cardíaco também devem aceitar encomendas de bebês chorões - mas ainda acho mais fácil e rápido produzi-los pelo método natural.
Apesar do estranhamento, os "reborn" nos fazem refletir sobre uma questão para além da clonagem: por que enquanto alguns compram bonecos-bebês outros resolvem se desfazer de seus originais jogando-os em lagos ou rios de suas cidades? Foram vários casos apenas nesta semana que passou. O que há de errado?
Vejam aqui fotos de alguns pequerruchos