28.11.07

O seriado “Mothern”, exibido pelo canal GNT, é um bom exemplo de que a TV brasileira pode um dia exibir sitcoms. Apesar do tema um tanto específico – a maternidade e todos os pepinos que advêm dela –, é interessante mesmo para quem nem tem filhos ou é casado.
O programa ficou entre os finalistas ao Emmy Internacional deste ano na categoria “série dramática”, mas não levou. Apesar de bem feito, ainda é um lactente se comparado às séries da BBC ou mesmo americanas (temos de ter noção disso, do contrário ficamos com a velha expectativa que se repete em todo evento do Oscar: sempre achando que o boneco de melhor filme estrangeiro será nosso).
Falo de “Mothern” porque hoje entrevistei uma das mães do seriado, a atriz Juliana Araripe. E pude entender melhor porque a série tem emplacado. Além de louca, ela contou que as quatro atrizes também colaboram com o roteiro, improvisam muito e acrescentam experiências pessoais às histórias. Fora das telas, Juliana é mãe de Calu, de 3 anos.
Nosso assunto inicial era, obviamente, a série, mas o assunto descambou. Mesmo. Jornalista, já foi apresentadora de um jornal de esportes na Band e de alguns institucionais da Sky, mas fala besteira que só. Confessou, por exemplo, ser fascinada por cocôs. Utiliza-se de dois fatos – ter intestino preso e adorar fazer terapia – para testar de tudo. No momento está fazendo hidrocolonterapia. Está disposta a eliminar “cocôs velhos”. Percebendo o interesse dela pelo tema, fiz a indicação do restaurante “Banheiro Moderno”, na China, assunto deste blog no domingo.
Até o processo de seleção para apresentar o telejornal na Band virou uma história cômica. Vinda do Rio especialmente para o teste, ficou horas parada no trânsito paulistano. Diante da iminência de perder a hora, não teve dúvidas: agarrou o primeiro motoboy que encontrou ao abandonar o táxi e ordenou que a levasse à emissora. Apesar de ter conseguido chegar a tempo, estava o próprio Bozo. Enfiou a cabeça na torneira e fez o teste com o cabelo molhado. Foi aprovada pela naturalidade.
A atriz relembrou ainda os tempos em que teve de apresentar um outro telejornal às sete da manhã. Da cintura para cima, tudo lindo. Para baixo, a calça de flanela do pijama e um chinelo de dedo.
Mas Juliana já era da pá virada – e pilantra – desde pequena. Aos 9, 10 anos, ganhou muito dinheiro pedindo esmolas na rua. Ela e suas amiguinhas faziam ponto nos faróis da Faria Lima ou da Juscelino Kubitschek e depois torravam a grana com pizzas. Tudo ia bem até Juliana ser reconhecida e dedurada por uma das amigas de sua mãe.
Depois do flagra, teve de se virar de outras formas. Armou uma mesinha na feira e começou a vender objetos de sua própria casa, como cinzeiros e o que mais pudesse levar sem chamar muito a atenção. Também fazia bazares para as empregadas do prédio em que morava com suas roupas usadas e vendia jornais velhos.
Apesar de tanta experiência surreal, Juliana não se considera humorista. Criou personagens como a Branca de Neve crespa ou a Mulher-bafo (que todos achavam que era enfermeira por causa do protetor que usava na boca), mas não teve muito sucesso no espetáculo que fazia com uma amiga. “Dava tudo de si”, mas a platéia era só traço.
Pois eu acho que ela deveria insistir no talento para o humor. Porque se não for humorista, Juliana é um caso clássico de mentirosa compulsiva.
P.S.: a coluna volta sábado ou domingo. Nos próximos dias estarei em Feliz Natal (MT). Até!
27.11.07

Saiu hoje a notícia de que Lula precisava: o Brasil entrou para o grupo de países de “alto desenvolvimento humano” no ranking elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Agora só não sai terceiro mandato se as forças ocultas entrarem em ação.
Apesar de seguir negando o plano de permanecer no poder, Lula continua alimentando o povo com a idéia de que é o presidente-Midas. Há poucos dias, após divulgar a descoberta de uma grande reserva petrolífera em Santos, disse que o Brasil vai se tornar autosuficiente na produção de gás e que entraremos para a Opep. Também ficou feliz como criança em loja de doce ao ouvir de seu colega Hugo Chávez que é o magnata do petróleo. Tudo lindamente divulgado, mas feiosamente explicado.
Trata-se da metade de todo o petróleo descoberto pelo país nos últimos 50 anos? Sim. Temos como retirá-lo de lá? Não. O povo sabe? Claro que não. Aliás, grande parte do eleitorado de nosso Midas, acostumado aos desenhos do Pica-Pau no SBT, acha que é só furar o chão que o petróleo jorra.
O presidente da Petrobrás disse que os campos estão abaixo de uma espessa camada de sal. A camada de pré-sal tem cerca de 800 quilômetros de extensão. Mas o povo sabe lá quem é o presidente da Petrobrás? Ou o que é Petrobrás?
O fato é que Lula segue a cartilha de Rubens Ricupero e só divulga o que é bom. Vai martelar durante semanas que o país entrou para o grupo de países de “alto desenvolvimento humano”, mas não vai falar que somos também o país com maior desigualdade entre ricos e pobres. No Brasil, os 10% mais ricos da população têm renda 51,3 vezes maior do que os 10% pobres.
Moral da história: Lula é que nem aquelas linhas bem miudinhas de regulamento de promoções e concursos. Tem de ser lido nas minúcias, senão corremos o risco de levarmos gato por lebre.
P.S.: vejam hoje, no “Programa do Jô”, a matéria feita em Coité do Nóia (AL)
26.11.07

Há dias em que inexplicavelmente nada é capaz de abalar nosso lado zen. Seria tão bom se isso se repetisse diariamente! Não perderíamos o apetite ou o sono com as picuinhas do cotidiano e ainda seríamos vistos como seres bem-humorados e felizes.
Enfrentar um tiozinho pé do breque no trânsito quando a gente está indo tirar o pai da forca, por exemplo. Não é sempre que temos a paciência de esperar até ele se lembrar de olhar para o retrovisor ou simplesmente sair da frente. Nossa vontade é meter a mão na buzina, piscar o farol e, em alguns casos, desejar coisas horrorosas para até a quinta geração da figura.
E quando vamos ao supermercado e nosso incrível cartão com chip – feito para nos dar mais segurança e agilidade – cisma de “não passar”? “Não tá passando, você pode ir até o atendimento ao cliente e usar a máquina de lá?” diz a menina do caixa. Nesses dias em que Buda toma conta de nosso ser vamos tranquilamente ao local indicado, pegamos uma filinha e aguardamos nossa vez sem grandes dramas.
No banco há também o caso clássico: o do office-boy que encosta no guichê com um calhamaço de tudo o que se possa imaginar, como contas, carnê de não-sei-o-quê, Telesena, rifa, bilhete único e se bobear até bilhete de jogo do bicho para pagar. O normal é lançarmos um olhar cúmplice para quem está atrás de nós e darmos uma bufada para demonstrarmos nosso descontentamento. Sem remédio, invocamos o santo protetor dos pegadores de fila em banco e ficamos quietos. Não há nada que se possa fazer.
Existem também os que no afã de darem suas explicações só nos causam aflição. Mesmo com uma pergunta que só admite um “sim” ou um “não” como resposta, os seres deste tipo dão um jeito de transformar as três letrinhas num discurso infindável. Começam contando desde a hora em que saíram da cama até o momento de nossa abordagem. É preciso estar muito zen num dia desses – sob pena de sair vestido numa camisa-de-força.
Enfim, o esperado seria termos TPM uns cinco, seis dias por mês, mas não é o que ocorre. Passamos o mês inteiro irritadas e em apenas um dia – e olhe lá – somos coroadas com a paciência de um monge. E paciência, ao contrário do que diz Lenine, não dá pra fingir.
25.11.07

Quem se espanta com o fato de os chineses apreciarem petiscos como ganhafoto ou tanajura frita pode continuar espantado. Pois eles conseguiram se superar. A novidade é um restaurante em que tudo remete ao banheiro – até a comida.
Novidade para nós, já que o local foi inaugurado há mais de três anos e é praticamente o Mc Donalds deles. Chama-se “Banheiro Moderno” e funciona em Taipei. Segundo o dono, a inspiração veio de um desenho animado japonês.
Por incrível que pareça, achei o ambiente deliciosamente agradável e bem decorado. Há lugares muito mais nojentos por aqui. Alguém já passou em frente ao setor de carga e descarga de um restaurante de luxo? Não deixa nada a dever aos bares pé-de-porco que existem no centro de toda cidade.
Já estou morta de vontade de ir para a China para usar esse banheiro. Privadas – com as tampas devidamente fechadas – funcionam como cadeiras, as refeições são servidas em potinhos de plástico em formato de privadas ou banheiras e os guardanapos são rolos de papel higiênico que ficam em cima das mesas. Há também mictórios que fazem as vezes de pia.
Os pratos e as sobremesas também vêm com influências sanitárias. O mais criativo é o sorvete de chocolate – que vocês já devem imaginar em que formato sugestivo ele aparece à mesa.
Encararia numa boa uma refeição no “Banheiro Moderno”. Só faço ressalvas ao guardanapo, que não pode ser um “Primavera” da vida. Como será o banheiro do restaurante? Não sendo na cozinha, tudo bem.
Vejam algumas fotos AQUI
24.11.07

Figura maravilhosa esse Paulinho da Viola. Há muito tempo fui a um show dele – e devo confessar que não foi uma experiência marcante. Mas depois de assistir ao documentário “Paulinho da Viola – Meu Tempo É Hoje”, se ainda não virei fã das músicas, posso dizer que me apaixonei pela personagem.
Talvez por conhecer apenas algumas de suas canções e principalmente por não ter idéia do maluco que se esconde por trás daquele rosto sereno o show não tenha sido inesquecível. Hoje uma apresentação de Paulinho teria outros significados.
A minha descoberta vai na mesma linha do que ocorre quando nos deparamos com os livros que constam da lista do vestibular. Somos obrigados a lê-los, mas não temos interesse pelo tema, não conhecemos o autor e principalmente não estamos “etariamente” preparados para entendê-los e, consequentemente, apreciá-los. Naquela época do show não estava apta para gostar de Paulinho.
Continuo não sendo fã de samba e menos ainda de pagode. Isso posso dizer tranquilamente – em certos trechos do documentário temos de aturar Zeca Pagodinho e sua voz de bêbado ou a Velha Guarda da Portela, mas o sacrifício vale a pena porque depois tem mais Paulinho.
O melhor do documentário são as intervenções familiares e os momentos em que o músico fala sobre si mesmo.
Se não fosse músico, teríamos um brilhante marceneiro. Em casa, mostrando a pequena oficina bem equipada com várias ferramentas e bancadas, Paulinho diz que é ali que gosta de passar grande parte de seu tempo. É para lá que se dirige quando precisa aliviar as tensões. Sim, diz ele, música não é só a glória dos aplausos no palco. Também é preciso lidar com muito estresse.
Outra paixão do músico são as velharias automotivas. Ele tem o hábito de comprar carros antigos destruídos para recuperá-los. Quando digo destruídos estou sendo boazinha. Alguns automóveis estão tão detonados que quem olha se arrisca a dizer que nem a carcaça será aproveitável.
Um dos filhos entrega que há mais de 20 anos ele está trabalhando no mesmo carro, um Karman Guia. Corta para a mulher de Paulinho indo visitar o barracão onde estão amontoadas as carangas. “Benhê, qual era aquele que vi há muitos anos, que estava prontinho, com farolzinho e tudo?”. E ele: “É esse mesmo” – e emenda uma desculpa esfarrapada para explicar porque o automóvel está sem faróis, sem vidros e empoeirado.
Ganhamos um músico, mas perdemos um excelente profissional para serviços gerais. Um dos momentos mais engraçados é quando a esposa conta que até quando estão hospedados em hotéis Paulinho quer fazer pequenos reparos. Já chegou ao cúmulo de ligar para a recepção e pedir um alicate emprestado. Quando não parte para a ação, fica resmungando coisas do tipo “aquilo ainda não deu problema, mas vai cair a qualquer hora”.
O filho tira ainda mais o sarro ao dizer que ele fica feliz até quando o couro de uma poltrona se descola. “Ele reclama e faz cara de quem não gostou, mas no fundo está feliz porque vai ter de arrumar”.
O tempo de Paulinho realmente é outro, como fica bem claro na explicação da esposa de como é um telefonema dele para o 102. Mesmo precisando apenas do número do telefone de uma oficina, engata num papo com a atendente enumerando tudo o que já tentou para resolver o problema. Explica que já checou a parte elétrica e que tem certeza de que não foi pane seca. É ou não um maluco maravilhoso?
Não restam dúvidas de que a escolha do tempo como fio condutor e subtítulo do filme foi correta. Arranjem um tempinho para assistir ao documentário e pensarem na frase que Paulinho diz no final: “eu não vivo no passado, é o passado que vive em mim”.
23.11.07

O Brasil até tenta, mas está muito longe de ser um país sério. No ano que vem teremos de agüentar candidatos do naipe de Gretchen e Ronaldo Esper. Até lá, vamos nos contorcendo com as agruras de alguns prefeitos que estão a um passo de pendurarem uma melancia no pescoço.
O prefeito de Araçariguama (SP), Carlos Aymar Srur Bechara, está empenhado em alterar a letra do Hino Nacional. Quer substituir o “deitado eternamente em berço esplêndido” por “abençoado eternamente em berço esplêndido”. A justificativa é a mais tosca possível. Segundo ele o “deitado” dá um ar de cansado, desanimado. O “abençoado” é mais para frente. Ora, cansado estamos nós, prefeito.
Além desta brilhante idéia, Aymar decidiu pintar 42 prédios e bens do patrimônio municipal com as cores do arco-íris em protesto contra a decisão de uma juíza que o proibiu de usar a cor verde nos prédios do lugar. Aymar argumentou que o arco-íris pertence a todos e não tem nada mais impessoal.
Há também um projeto de implantar um teleférico entre o único cinema da cidade (no alto de uma colina) e a região central e ainda criar uma trilha ecológica para cadeirantes.
Proponho que ele seja a cobaia no teste da geringonça.
Já o prefeito de Aparecida do Norte (SP), mais conhecido como Zé Louquinho, honra cada letra de seu apelido. Fez um decreto impedindo que as mulheres vestissem minissaia na cidade, contratou cães para fazer a segurança no cemitério, pintou o cabelo de verde e amarelo para agradar o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, participou de uma reunião vestindo tanga e enviou à Câmara Municipal um projeto proibindo a chuva na cidade. Esse precisa ser interditado – com ou sem chuva.
Outros pensam mais além e querem mesmo é fazer o dinheiro render. O prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, virou garoto-propaganda em um comercial do BH Shopping. A empresa que administra o shopping aparece no site do TSE como doadora de R$ 200 mil para a campanha à reeleição do prefeito em 2004. Um bom exemplo de toma-lá-dá-cá.
Ao que parece Fernando Pimentel tem feito um bom trabalho em BH, mas me pergunto se os eleitores de Aymar e Zé Louquinho aprovam as atitudes de seus eleitos.
22.11.07

Esta semana entrevistei quatro garotas que concluíram algo que todo ser do sexo feminino já sabe: que vira uma burra quando se apaixona. Apesar da constatação óbvia, conseguiram ter uma idéia original para tratar desse tema complicado. Criaram o site “Mulé Burra”. Nele, Danielle (Bucéfala), Giseli (Idiotilde), Jujumenta (Lina) e Antânia (Ana Marcia) comentam suas (des) aventuras amorosas com bom humor.
Sentindo-se uma Bucéfala após descobrir que seu affair estava saindo com outra, Danielle reuniu mais três amigas que também passavam por momentos pouco inspiradores e criou o site. Além de ter dado o pontapé, Danielle foi a que enfrentou as maiores roubadas. Caiu no papo de um Lobo Mau que depois de alguns meses de namoro disse com pesar que ia partir para a França para um doutorado. Na mesma noite da despedida, desesperada, ela engravidou de um amigo.
O mundo deu suas voltinhas e algum tempo depois ela encontrou uma colega que também conhecia o Lobo Mau francês. Conversa vai, conversa vem, descobriu que o tal curso nunca havia existido, que ele nunca tinha saído do Brasil e que estava com um filho de um ano.
Já Giseli constatou em pleno Maracanã que seu “namorado” era casado – e um tremendo vacilão. Distraído, tirou a camisa e estava lá a prova do crime: um anel pendurado na correntinha que usava no pescoço. Fim da partida. Hoje só se interessa por garotos mais novos e não dá ouvidos à mãe, que diz que “de criança, basta seu filho”.
A Jujumenta Lina se cansou dos homens que denomina “farpados”: os que cercam e ainda por cima machucam. Está solteira convicta.
Ana Marcia, após ter levado foras em dois Natais seguidos, conseguiu retomar o namoro e hoje é casada com um dos causadores de seu sofrimento natalino. Das quatro, é a única que leva uma “vida normal”: casada, professora de Geografia em escola pública, grávida de quatro meses.
Algumas seções do site são bem interessantes. Já passaram pela seção “A Burra do Mês” Suzana Vieira, a finada velhinha argentina que se casou com aquele canastrão e Gracyanne Barbosa, noiva do pagodeiro Belo.
Há também o “Burraldas Greatest Hits”, que reúne algumas canções dor-de-cotovelo comentadas, como “Se Enamora”, do Balão Mágico ou “Evidências”, de Chitãozinho e Xororó.
Apesar de árido, é um assunto que sempre rende – desde que tenhamos a capacidade de rir de nossa própria desgraça…
21.11.07

Vejo hoje a seguinte pergunta num site para jovens: “Qual tipo de filme é a sua vida?”. Fiz o teste só de bobeira, só para comprovar que a Internet tanto pode ser a salvação quanto nos levar à mais completa alienação.
Na verdade, ninguém precisa responder ao questionário para saber. Os mais precipitados vão dizer que é um filme de terror, mas a vida de qualquer um de nós é um dos muitos filmes de Almodóvar. Aparentemente a história não faz o menor sentido, ninguém sabe de onde veio, qual o seu papel na trama e para onde (e quando) vai. Quando o enredo já está rocambolesco o bastante, começam as reviravoltas e os absurdos.
Muitas destas mudanças fogem ao nosso controle. É apenas o destino agindo. Em outros casos tudo sai do prumo por causa de algum personagem – como nos romances de Agatha Christie, geralmente dos que menos desconfiamos. Tanto faz se são mocinhos ou vilões declarados. O autor os insere não para subir a audiência ou para imprimir mais emoção à história, mas por algo maior e que foge à nossa compreensão.
Não é assim? Vivemos situações tão surreais que quando as contamos ficamos com fama de Pinóquios. Há algumas cenas tão peculiares que sozinhas já renderiam um filme ou no mínimo um curta-metragem – a história do cocô no meu cabelo, já relatada aqui, daria um bom curta.
Todo mundo tem uma história ou uma cena marcante que gosta de repetir – até para tentar entender como tudo aconteceu. É como a reconstituição de um crime. Se o final foi feliz, melhor ainda. Acrescentamos uns toques de aventura para prender a atenção de nosso espectador e fazemos um pouco de suspense até revelar o desfecho. Mas se o fim foi muito triste… Repetimos do mesmo jeito. Por que às vezes gostamos de nos fazer de vítimas? Para nós e para os outros? Para mostrar nosso talento e recebermos uma nova sinopse? Ou para conquistarmos a simpatia dos telespectadores?
Garanto que ninguém tem as respostas, só o autor. O problema é que o roteirista dessa nossa novela é meio Rubem Fonseca. Não concede entrevistas.
20.11.07

Foi com espanto que li a notícia de que a carreira mais concorrida da Fuvest este ano é Jornalismo. São 41,63 candidatos por vaga. Depois vêm os cursos de Publicidade e Propaganda, Relações Internacionais, Curso Superior do Audiovisual (?) e Medicina e Ciências Médicas.
As vagas de Jornalismo sempre foram muito disputadas, mas não me lembro de ter ocorrido nada de tão marcante na área este ano. Tentei puxar pela memória algum personagem de novela que era bonito e jornalista bem-sucedido, correspondente morto em guerra ou algum âncora de TV que tenha ficado milionário. Nada, nada.
O único grande acontecimento de 2007 foi a inauguração da Record News, que se autointitula o primeiro canal de notícias da TV aberta (mais ou menos… Por acaso alguém consegue sintonizar algum canal UHF?).
Propagandas enganosas à parte, notei a ausência do curso de Direito, mas não foi difícil decifrar porquê ele não está entre os preferidos. Os recentes acontecimentos em nossa política estão aí para provar que a carreira jurídica não anda com muito moral.
Mesmo sem entender o repentino interesse pela carreira jornalística, algo consigo concluir: teremos ainda mais concorrência numa área em que raramente os funcionários são selecionados pelo currículo. E ainda: por mais caídas que estejam as Torres Gêmeas ou por mais incêndio que tenha causado a queda do avião do TAM é necessário ter o máximo de concentração para o trabalho ir adiante. E, convenhamos, manter a calma em situações-limite não é para qualquer um.
Abro um parêntese para discordar do que disse Luis Fernando Veríssimo esta semana no I Salão Nacional do Jornalista Escritor, no Memorial da América Latina. Ao comentar seu método de trabalho e o uso do computador, falou que antigamente as redações tinham máquinas de escrever. Era um barulho infernal. Hoje, com os computadores, as redações parecem bancos. Limpas e silenciosas.
Que me desculpe o Veríssimo, mas a redação deveria ser muito mais silenciosa do que é – o que nem sempre é possível. Apesar de termos nos livrado das máquinas de escrever, temos de conviver com as TVs, que ficam ligadas 24 horas. Cada ofício tem seu osso, não é mesmo? Espero que os aspirantes a jornalista saibam roer os seus.
P.S.: confiram hoje, no " Programa do Jô", a matéria feita em Muitos Capões (RS)
19.11.07

Feriado em São Paulo é como o trânsito às seis da tarde: totalmente previsível. A maioria viaja para a praia e enfrenta congestionamentos tanto na saída quanto na volta à cidade. Os que ficam parecem ter apenas uma programação: fazer compras na 25 de Março.
Já cheguei a pensar que era a proximidade de alguma data comemorativa que fazia os paulistanos se acotovelarem na principal rua de compras do país, mas depois notei que a ida à 25 é um dos passeios preferidos na folga de muita gente.
Aproveitar bem esse paraíso das muambas requer tempo. Não é possível dizer “vou dar um rolê na 25”. Ninguém dá uma passada na 25. Tudo lá tem de ser analisado com muita calma. Escarafunchar cada bequinho, sobreloja, estande e até as novidades dos camelôs. Os mais ousados devem reservar um tempinho para um pit stop num abacaxi no gelo ou num sanduíche de lingüiça com cebola (o que não mata, engorda). Portanto, feriados e finais de semana não são os melhores momentos para isso. Na confusão perde-se o principal do lugar: as cenas. Ninguém enxerga ninguém e todos não vêem nada, só cabeças.
E nada de ir estressado à 25. Os apitos estridentes que imitam gatos resfriados podem irritar quem já estiver propenso a isso. Impaciência na hora de entrar ou sair de uma loja vai dar em briga. Andar em grupo? Esqueça.
Vá livre para apreciar a habilidade do ambulante do cortador de legumes que descasca, corta, fatia, pica, mói, faz esculturas… E você ainda ganha uma flor feita de uma jaca! Mexa em todas as fivelas de cabelo, experimente todos os brincos e pulseiras e não perca o ar sereno depois que a vendedora te informar que ali é só atacado.
Mais duas dicas importantes: não vá de carro e não seja ingênuo. Ao ouvir do vendedor que aquele tênis Nike último modelo sai por apenas R$ 50 não ouça o seu bolso, e sim seu bom senso. Saia da loja, tome vergonha na cara e vá a um shopping se quiser algo de qualidade. Afinal, a 25 de Março não é para amadores.