11.11.07
O FUTURO A DEUS PERTENCE
Assim como existem pessoas que nascem com o bumbum para a Lua, há quem chegue ao mundo com apenas uma finalidade: sofrer. Não que sejam destinadas ao fracasso, mas à infelicidade. Nada dá certo. Nunca. É o que consigo depreender após assistir à cinebiografia da cantora francesa Edith Piaf, “Piaf – Um Hino ao Amor”.
Ela nasceu em Paris e foi abandonada pela mãe – uma cantora de rua alcoólatra – por volta dos 4, 5 anos de idade. É encaminhada pelo pai – contorcionista de circo – ao prostíbulo comandado por sua avó. Entre moças de reputação tida como duvidosa a cantora passa alguns anos de sua infância. Os melhores – como se conclui ao fim do filme.
Durante este período fica cega por quatro anos e recebe todas as atenções do grupo de tutoras. Após recuperar-se da cegueira, é levada pelo pai, que decide viajar com o circo. Na confusão é arrancada dos braços de uma das prostitutas, Titine, a quem nunca mais encontra.
Apresentando-se na rua com ele, Piaf começa a cantar. Cresce, arranja uma amiga-irmã que a acompanhará pelo resto da vida, e inicia sua carreira como cantora de rua. Vive de uns míseros trocados até ser descoberta por um empresário da noite – Gerard Depardieu –, que lhe dá o codinome Piaf (pardal).
Quando nos preparamos para assistir ao sucesso da cantora, tudo desanda. O dono de cabarés é encontrado morto e ela é acusada de cúmplice dos assassinos. Quase vai presa.
No meio de tudo isso Piaf é mostrada com sua vida desregrada de bebedeiras e suas paixões. A maior delas foi um lutador de boxe casado, Marcel Cerdan, que morre na queda de um avião. Muitos anos antes de conhecer o pugilista a cantora teve uma filha, que faleceu de meningite na infância. Piaf também sofreu um acidente de carro que matou o namorado que estava ao volante e a deixou no hospital toda quebrada por alguns meses.
Após a morte de Cerdan ela dá uma pirada – mesmo se casando novamente. A debilidade física que apresentava desde pequena só se agrava e ela recorre à morfina. Acaba por adquir mais um vício.
Apesar da vida de perdas em série, Piaf é retratada como uma mulher bem-humorada e viva. O olhar, que já é perspicaz, ganha mais enlevo graças às sobrancelhas desenhadas a lápis. Era pequena, curvada, varapau e com um raciocínio rápido. Simples entender por que Bibi Ferreira fez sucesso ao interpretá-la. A semelhança física entre as duas é um caso para a Ciência.
A atriz Marion Cotillard, que dá vida à Piaf, é simplesmente genial. Não sou contemporânea da cantora (até porque ela morreu aos 47 anos), mas pelas fotos e vídeos que localizei no You Tube, Marion está perfeita. Se indicada, já tem meu voto ao Oscar de melhor atriz.
Uma das cenas mais lindas é quando, tricotando na praia, já muito doente, Piaf recebe uma jornalista americana para uma entrevista pingue-pongue – aquelas do tipo “cor preferida?”, “um prato?”. Após algumas questões como essas, a repórter indaga: “Se fosse dar um conselho a uma mulher, qual seria?” Piaf responde: “Ame”. “E a uma jovem?” – “Ame”. “E a uma garota?” – “Ame”.
É chover no molhado dizer que ao final da sessão está uma choradeira coletiva? Principalmente pela música de encerramento, "Non, Je Ne Regrette Rien". Em certo trecho ela canta: "Não, eu não lamento nada. Nem o bem que me fizeram, nem o mal. Isso tudo me é igual. Não, nada de nada… Não, eu não lamento nada. Está pago, varrido, esquecido. Não me importa o passado".

tatinha13
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