24.11.07

SE ESSA VIOLA FALASSE

 Figura maravilhosa esse Paulinho da Viola. Há muito tempo fui a um show dele – e devo confessar que não foi uma experiência marcante. Mas depois de assistir ao documentário “Paulinho da Viola – Meu Tempo É Hoje”, se ainda não virei fã das músicas, posso dizer que me apaixonei pela personagem.
Talvez por conhecer apenas algumas de suas canções e principalmente por não ter idéia do maluco que se esconde por trás daquele rosto sereno o show não tenha sido inesquecível. Hoje uma apresentação de Paulinho teria outros significados.
A minha descoberta vai na mesma linha do que ocorre quando nos deparamos com os livros que constam da lista do vestibular. Somos obrigados a lê-los, mas não temos interesse pelo tema, não conhecemos o autor e principalmente não estamos “etariamente” preparados para entendê-los e, consequentemente, apreciá-los. Naquela época do show não estava apta para gostar de Paulinho.
Continuo não sendo fã de samba e menos ainda de pagode. Isso posso dizer tranquilamente – em certos trechos do documentário temos de aturar Zeca Pagodinho e sua voz de bêbado ou a Velha Guarda da Portela, mas o sacrifício vale a pena porque depois tem mais Paulinho.
O melhor do documentário são as intervenções familiares e os momentos em que o músico fala sobre si mesmo.
Se não fosse músico, teríamos um brilhante marceneiro. Em casa, mostrando a pequena oficina bem equipada com várias ferramentas e bancadas, Paulinho diz que é ali que gosta de passar grande parte de seu tempo. É para lá que se dirige quando precisa aliviar as tensões. Sim, diz ele, música não é só a glória dos aplausos no palco. Também é preciso lidar com muito estresse.
Outra paixão do músico são as velharias automotivas. Ele tem o hábito de comprar carros antigos destruídos para recuperá-los. Quando digo destruídos estou sendo boazinha. Alguns automóveis estão tão detonados que quem olha se arrisca a dizer que nem a carcaça será aproveitável.
Um dos filhos entrega que há mais de 20 anos ele está trabalhando no mesmo carro, um Karman Guia. Corta para a mulher de Paulinho indo visitar o barracão onde estão amontoadas as carangas. “Benhê, qual era aquele que vi há muitos anos, que estava prontinho, com farolzinho e tudo?”. E ele: “É esse mesmo” – e emenda uma desculpa esfarrapada para explicar porque o automóvel está sem faróis, sem vidros e empoeirado.
Ganhamos um músico, mas perdemos um excelente profissional para serviços gerais. Um dos momentos mais engraçados é quando a esposa conta que até quando estão hospedados em hotéis Paulinho quer fazer pequenos reparos. Já chegou ao cúmulo de ligar para a recepção e pedir um alicate emprestado. Quando não parte para a ação, fica resmungando coisas do tipo “aquilo ainda não deu problema, mas vai cair a qualquer hora”.
O filho tira ainda mais o sarro ao dizer que ele fica feliz até quando o couro de uma poltrona se descola. “Ele reclama e faz cara de quem não gostou, mas no fundo está feliz porque vai ter de arrumar”.
O tempo de Paulinho realmente é outro, como fica bem claro na explicação da esposa de como é um telefonema dele para o 102. Mesmo precisando apenas do número do telefone de uma oficina, engata num papo com a atendente enumerando tudo o que já tentou para resolver o problema. Explica que já checou a parte elétrica e que tem certeza de que não foi pane seca. É ou não um maluco maravilhoso?
Não restam dúvidas de que a escolha do tempo como fio condutor e subtítulo do filme foi correta. Arranjem um tempinho para assistir ao documentário e pensarem na frase que Paulinho diz no final: “eu não vivo no passado, é o passado que vive em mim”.

tatinha13    11:24 — Arquivado em: Sem categoria
4 Comentários
  1. Tati, um dia você irá gostar também das músicas dele. É uma questão de tempo.

    Comentário por Ricardo Linhares — 24.11.07 @ 17:24

  2. Suas músicas são formidáveis e eu diria que não existe ninguem no nível dele.
    Existe cantores e cantores…..ele é um grande musico

    Comentário por Juventino — 24.11.07 @ 20:29

  3. Me identifiquei muito com várias coisas que voce escreveu. Tambem não gosto de samba e do Paulinho da Viola,fui gostando aos pouquinhos,mas sua figura sempre teve minha simpatia e admiração

    Comentário por picida ribeiro — 25.11.07 @ 0:18

  4. Fiquei curioso para ver esse documentário, que mostra o lado MacGyver do Paulinho da Viola.
    Ah! Também faço parte do time que tem que se acostumar com a música dele - como o sabor da tônica Schweppes…

    Comentário por Ricardo Rezende — 28.11.07 @ 0:23

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