15.1.08
ESTRELA CADENTE

Na fila ouço um cara que estava à minha frente pedir uma inteira e uma meia para “Meu Nome é Johnny”. Pensei: espero que esse nó cego não se sente perto de mim e fique batendo o pé na poltrona durante a projeção.
Já na sala e refeita da preocupação, assisti a “Meu Nome Não é Johnny”. O filme é baseado na história real de João Guilherme Estrella, jovem da classe média carioca que, inicialmente consumidor, passa para o outro lado do balcão e se torna um dos maiores distribuidores de drogas do Rio nos anos 80 e início dos 90.
O assunto também foi tema do livro homônimo do jornalista Guilherme Fiuza e na época do lançamento – cerca de três anos atrás – cheguei a entrevistar João Estrella.
Minhas impressões foram um pouco aflitivas. Por dois motivos senti que não estava conversando com uma pessoa recuperada. João falava aceleradamente e fungava o tempo inteiro. Antes que eu seja alvo de algum processo, impressão é pura impressão.
Ele narrava tudo o que havia acontecido com uma ponta de orgulho. Fazia questão de dizer que tinha boas condições de vida e que não precisava do dinheiro.
O filme reafirma isso. Mostra um João Estrella querido, bem-sucedido com as mulheres, com a família e com o tráfico.
“Meu Nome Não É Johnny” deixa claro quais são os alvos daquela arma no final de “Tropa de Elite”. Jovens – a maioria tão rebelde sem causa quanto João – que vivem da (e para a) droga.
Em pelo menos duas cenas o João do cinema fala que não pegou o bonde das drogas para ganhar dinheiro, mas para gastá-lo. Esse é o primeiro caso do que classifico como traficante-perua, aquele que gasta desmedidamente.
Selton Mello – mais uma vez no papel de Selton Mello – não é o grande destaque. Lá pelas tantas o filme atinge o auge com a presença do ator Luís Miranda – da trupe do espetáculo de comédia stand-up “Terça Insana”, em cartaz em São Paulo.
Vou ser suscinta quanto à participação dele para manter o mistério, mas Luís interpreta um preso maluco que diz frases do tipo “ele tá falando merda sem legenda” (ao tentar se comunicar com um angolano que só fala inglês).
Isto acontece durante o curto período em que João Estrella espera o julgamento na cadeia. Pouco depois se beneficia da ineficiência da Justiça brasileira e passa dois anos num manicômio. Se tem uma coisa que o protagonista não é, é louco. De qualquer forma, sofreu com as ameaças de seus colegas de internação – a maioria já havia dado fim em toda a família.
Além de Luís Miranda, os melhores momentos do filme acontecem em Veneza. O italiano macarrônico de Selton Mello vale a pena por causa de frases como “vou entrare embaixo deste edredoni porque estoy com fredo”.
Quem tiver curiosidade, recomendo assistir primeiro a “Meu Nome Não É Johnny” e depois a “Tropa de Elite”. Seria um sacrilégio fazer o contrário.
tatinha13
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