18.1.08
QUESTÕES-PREGO

Mês passado comentei sobre um livro interessante que havia começado, “Buda ou Desapego – “Viagens pelo mundo em busca da verdade, do significado da felicidade e do homem que encontrou tudo isso”. Vieram as férias, o levei comigo para os dias de festa, mas o esqueci no carro. Como perdi o fio da meada, li outro que estava na bagagem até que Buda viesse ao meu encontro novamente.
Trata-se de “Tudo que você não soube”, o mais recente de Fernanda Young, roteirista e apresentadora de TV.
De saída já digo que não a considero irritante. Nem genial. É apenas uma maluca acelerada que fala o que não deve e depois se arrepende. O que não dá para negar é que Fernanda é criativa – dizem as más línguas que as situações de “Os Normais”, “Minha Nada Mole Vida” e outras séries são sacadas dela, mas é o marido, Alexandre Machado, quem organiza tanto pensamento fugidio.
Não li os livros anteriores, como “Efeito Urano” e “Aritmética”, mas a leitura deste me plantou uma pulga atrás da orelha. O que faz um livro ser bom? A velocidade com que o lemos? O que aprendemos com ele? Aquele que nos faz interromper a leitura para refletir sobre um parágrafo? Ser um clássico da Literatura? Ser bem aceito pela crítica? O que faz do livro ou do autor um clássico?
As dúvidas surgiram porque li “Tudo que você não soube” em dois dias. Rápido e rasteiro. Fernanda escreve de maneira simples, usa muitas gírias, palavrões, pensamentos soltos, enfim, ela escreve do jeito que ela fala normalmente. Não é brilhante. Isso é bom ou ruim?
A história é um desabafo. Uma mulher na casa dos 40 resolve escrever um livro para o pai moribundo contando tudo que ele não soube. Entre as revelações, conta por que motivo martelou a mãe e ficou presa por três anos.
Em grande parte o livro é autobiográfico, apesar de ela avisar no início que nenhum dos episódios narrados se baseia em fatos reais. A personagem tem claramente muitas características de Fernanda: meio obssessiva, impulsiva, inquieta, em crise.
Se aprendi alguma coisa? Uma: que aquela música “You’re so vain”, da Carly Simon, foi escrita para sacanear o Mick Jagger, com quem Carly havia namorado.
Eu me diverti especialmente com as duas últimas páginas. Num trecho em que ela enumera algumas situações que ela odeia: “os termos: ‘eu costumo brincar que…’, ‘fulano é tudo de bom’, ‘axé para você’. Diminutivo: ‘quer tomar um vinhozinho?’, ‘um prossecozinho?’. Juro, se o Johnny Depp chegasse para mim e me oferecesse um prossecozinho eu daria as costas para ele e iria embora”. (…) “Sotaque forte demais, seja de onde for. Por favor, se controle. Você pode ter nascido no lugar lindo que for, mas não precisa ficar gaúcho demais, nem carioca demais, nem mineiro demais. (…) Não suporto folclore. E não aguento culpa cultural – aquelas coisas que a gente tem que gostar porque é legal gostar”.
Entre o que ela adora, Roberto Carlos: “se bem que ele não precisa mais fazer nenhuma música boa na vida, pois as melhores são dele. Amo Roberto – se ele fosse meu amigo, eu o convenceria a cortar o cabelo”.
Se não acrescenta, não é um clássico ou a escritora é crucificada pelos críticos, pelo menos diverte. Vou voltar para o Buda. Quem sabe ele tem alguma resposta?
tatinha13
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