21.1.08

SE COLAR, COLOU

 Termina hoje mais uma São Paulo Fashion Week. Muito já foi escrito sobre o evento. Já se discutiu sobre as caras de cigano Igor das modelos, dos gambitos que podem se romper com uma passada mais vigorosa, do cachê de Gisele Bundchen, das roupas que não servem nem para buscar pizza no portão do prédio num domingo chuvoso e até que a moda brasileira está com tudo e não está prosa. Pra frente, Brasil!
Mas o mais interessante nas semanas de moda são os que movimentam essa indústria: as figurinhas que fazem de tudo para aparecer. Se for o caso, vendem a mãe para se sentarem na primeira fila. Acham “tudo de bom” fazer pose, sacar os óculos escuros – mesmo que o desfile aconteça no maior breu – e lançar um olhar de quem entende do “babado”. Eles têm “atitude”. Essa é a palavra.
Quando falo de figurinhas não me refiro aos vips. Esses têm assento reservado na fila do gargarejo, estão lá a trabalho – pelo menos na teoria – e geralmente ganham além do convite e da pulseirinha de acesso ao céu, brindes e uma série de agradinhos que eles “a-do-ram”.
Pequeno parêntese: querem ver até o mais milionário dos seres ficar feliz? Dê a ele um brinde num evento. Pode ser um par de Havaianas, um porta-comprimidos ou uma amostra grátis de paçoca. O mimo é o de menos. O importante é ser de graça.
Quando digo figurinhas quero dizer figurinhas mesmo. Aquelas que vêm em todos os pacotinhos, as que todo mundo já tem. São muito variadas e colam – ou tentam – em qualquer lugar. É para isso que eles são “descolados”.
A diversidade de reino, família, classe e espécie é grande: famosos C, D, E… X, Y, Z, cantores e atrizes esquecidas, misses dos anos 80, Perrys Salles, jovens com “atitude” que vêm de um bairro mais afastado ou até de outro Estado, aspirantes a modelo-manequim-atriz-jornalista, estilista, editor de revista de moda ou simplesmente seres que sonham serem descobertos para encontrarem um “lugar ao sol”.
Com tamanha variedade de figurinhas surgem três opções de álbuns ilustrados: o da ONU, o da Torre de Babel ou o do Jardim Zoológico.
Apesar do tom irônico, até tenho uma certa simpatia por elas. Esse mundinho é uma panela – ou uma chapa quente, como queiram. O tal do “ver e ser visto” conta de verdade.
O segredo está em se assemelharem àquelas figurinhas holográficas ou purpurinadas que ninguém tem. Mais: precisam se sentir ou vender bem a idéia de que são a última figurinha do pacote.

tatinha13    10:03 — Arquivado em: Sem categoria


20.1.08

FOI SEM QUERER QUERENDO

 “Desejo e Reparação” ganhou o Globo de Ouro de melhor filme? E lá vamos nós para o cinema conferir o longa com a maior probabilidade de sair vencedor do Oscar deste ano.
Nenhum dos outros seis indicados estrearam no Brasil, o que torna difícil qualquer comparação ou mesmo averiguar a imparcialidade dos jurados. Mas “Desejo e Reparação” é um bom filme – à parte se estender demais nos acontecimentos da Segunda Guerra.
Merece ser visto por vários motivos, seja pela fotografia, pela direção de arte, pela garotinha que interpreta a protagonista na infância – ou por Vanessa Redgrave na velhice –, pela história de amor aos moldes de Romeu e Julieta e finalmente pela saída criativa do roteiro ao criar um final meio feliz.
É improvável estar meio grávida ou ser um ex-viado, mas é possível existir um filme com um desfecho semi-feliz.
Tudo se desenrola a partir de um julgamento equivocado de Briony, uma menina de 12 anos que é a testemunha decisiva na condenação de um jovem à prisão. Ela passa o resto de seus dias tentando corrigir o erro do passado. A atitude de Briony separa os dois protagonistas, faz com que ela se martirize e use toda sua imaginação para amenizar o estrago.
O título original é mais adequado, “Atonement” (“Reparação”), mas os responsáveis pela escolha do equivalente em português sempre escolhem o nome levando em consideração o que pode atrair mais comedores de pipoca com manteiga aos “multiplex”.
Esta semana compartilhei com vocês minha dúvida quanto às características que fazem um livro bom ou ruim. A mesma questão não me faço em relação ao cinema. Já tenho a resposta na ponta da língua: se a história é boa e me leva a fazer relações para algo além do tema abordado ou até sugerir um mote para este blog, já são motivos mais do que suficientes para o meu bonequinho se levantar e bater palmas.
Em “Desejo e Reparação” fiquei pensando num negócio que todo mundo já tentou um dia: consertar uma burrada. A frase clássica é “se eu pudesse voltar atrás…”. Às vezes somos meio Briony e temos muita imaginação (o que é ótimo), mas na maioria dos casos viajar apenas adia nossa volta à realidade.
Qual a utilidade de se pedir perdão a alguém depois que o mal já foi causado? Era melhor ter pensado duas, três, cem, mil vezes antes de agir. Depois que fez, vale a pena pedir desculpas? Um pedido de perdão é garantia de que o erro não vai mais se repetir? Claro que não. O lesado volta a ser o que era quando percebe que o outro reconheceu a vacilada? E quando o saldo não pode mais ser revertido?
Esses humanos…

P.S.: Pensamento do dia em frente à agência de publicidade por onde passo diariamente: o amor é igual à guerra. Depois de declarado acabou-se o sossego.

tatinha13    10:20 — Arquivado em: Sem categoria


19.1.08

O DIABO QUE OS CARREGUE

 Existe em São Paulo uma praga muito pior do que a dengue e a febre amarela juntas: os motoboys.
Além do transtorno que já nos causam diariamente quebrando retrovisores e fazendo gestos obscenos e ameaças se o carro fica um milímetro a mais para a direita, agora interditam o trânsito dia sim e outro também para protestarem contra algumas resoluções da prefeitura e do Conselho Nacional de Trânsito.
A partir de fevereiro – em caráter experimental – estará proibida a circulação de motos nas pistas expressas das marginais. Será criada ainda uma faixa exclusiva para os motociclistas na avenida 23 de Maio. Eles reclamam também do aumento do seguro obrigatório e das novas regras do Contran quanto a padrões obrigatórios de capacete e itens de segurança.
Eles têm direito de protestar? Sim, desde que não interfiram no direito de ir e vir – literalmente – dos outros cidadãos. O aumento do seguro obrigatório da moto é legítimo? Sim, já que os acidentes envolvendo motoqueiros em São Paulo são que nem capítulo de novela: ocorrem todos os dias. Kassab faz bem em não recebê-los? Não sei, mas na verdade acredito que o prefeito esteja com medo de virar refém do bando.
Os motoboys agem como uma quadrilha. Se um deles se indispõe com um motorista ou sofre um acidente, em menos de três minutos brotam – até dos bueiros, se bobear – milhares para prestar soliedariedade. A imagem que se tem do episódio é a de um bando de selvagens famintos ao redor de um caldeirão com uma sopa de cenouras, cebolas e um prisioneiro.
Compará-los a uma quadrilha não é exagero. No dicionário, além da acepção que já conhecemos para o termo, consta um uso do Rio Grande do Sul, que é manada de cavalos de pelagens diversas que andam juntos, seguindo a égua madrinha. Apesar de darem seus coices por aí, não precisam de nenhuma égua para se locomoverem.
Há também uma definição do Alentejo: grupo de carretas puxadas por touros – a diferença é que aqui em São Paulo são os touros que pilotam as tais carretas.
Lendo a notícia sobre o protesto de ontem descobri que os motoboys têm até um rap, o "125 Motivos de Correria", que narra o dia-a-dia da categoria. Um dos trechos diz: "Ei, cachorro louco / loucos motoboys / todo dia eu corro risco”. E nós também, né?
A mesma reportagem trouxe um exemplo do tipo de provocação a que somos submetidos. Eles gritaram um "com certeza você já pediu pizza na sua casa" para um motorista que estava irritado com a interdição.
Se fosse preciso parar de come pizza para acabar com os motoboys, até estou disposta ao sacrifício.
Para terminar de um jeito mais ameno, recomendo uma esquete de Marco Luque – que também já foi ator do espetáculo de humor “Terça Insana”. Vejam aqui um trecho do personagem Jackson Five.

tatinha13    15:15 — Arquivado em: Sem categoria


18.1.08

QUESTÕES-PREGO

 Mês passado comentei sobre um livro interessante que havia começado, “Buda ou Desapego – “Viagens pelo mundo em busca da verdade, do significado da felicidade e do homem que encontrou tudo isso”. Vieram as férias, o levei comigo para os dias de festa, mas o esqueci no carro. Como perdi o fio da meada, li outro que estava na bagagem até que Buda viesse ao meu encontro novamente.
Trata-se de “Tudo que você não soube”, o mais recente de Fernanda Young, roteirista e apresentadora de TV.
De saída já digo que não a considero irritante. Nem genial. É apenas uma maluca acelerada que fala o que não deve e depois se arrepende. O que não dá para negar é que Fernanda é criativa – dizem as más línguas que as situações de “Os Normais”, “Minha Nada Mole Vida” e outras séries são sacadas dela, mas é o marido, Alexandre Machado, quem organiza tanto pensamento fugidio.
Não li os livros anteriores, como “Efeito Urano” e “Aritmética”, mas a leitura deste me plantou uma pulga atrás da orelha. O que faz um livro ser bom? A velocidade com que o lemos? O que aprendemos com ele? Aquele que nos faz interromper a leitura para refletir sobre um parágrafo? Ser um clássico da Literatura? Ser bem aceito pela crítica? O que faz do livro ou do autor um clássico?
As dúvidas surgiram porque li “Tudo que você não soube” em dois dias. Rápido e rasteiro. Fernanda escreve de maneira simples, usa muitas gírias, palavrões, pensamentos soltos, enfim, ela escreve do jeito que ela fala normalmente. Não é brilhante. Isso é bom ou ruim?
A história é um desabafo. Uma mulher na casa dos 40 resolve escrever um livro para o pai moribundo contando tudo que ele não soube. Entre as revelações, conta por que motivo martelou a mãe e ficou presa por três anos.
Em grande parte o livro é autobiográfico, apesar de ela avisar no início que nenhum dos episódios narrados se baseia em fatos reais. A personagem tem claramente muitas características de Fernanda: meio obssessiva, impulsiva, inquieta, em crise.
Se aprendi alguma coisa? Uma: que aquela música “You’re so vain”, da Carly Simon, foi escrita para sacanear o Mick Jagger, com quem Carly havia namorado.
Eu me diverti especialmente com as duas últimas páginas. Num trecho em que ela enumera algumas situações que ela odeia: “os termos: ‘eu costumo brincar que…’, ‘fulano é tudo de bom’, ‘axé para você’. Diminutivo: ‘quer tomar um vinhozinho?’, ‘um prossecozinho?’. Juro, se o Johnny Depp chegasse para mim e me oferecesse um prossecozinho eu daria as costas para ele e iria embora”. (…) “Sotaque forte demais, seja de onde for. Por favor, se controle. Você pode ter nascido no lugar lindo que for, mas não precisa ficar gaúcho demais, nem carioca demais, nem mineiro demais. (…) Não suporto folclore. E não aguento culpa cultural – aquelas coisas que a gente tem que gostar porque é legal gostar”.
Entre o que ela adora, Roberto Carlos: “se bem que ele não precisa mais fazer nenhuma música boa na vida, pois as melhores são dele. Amo Roberto – se ele fosse meu amigo, eu o convenceria a cortar o cabelo”.
Se não acrescenta, não é um clássico ou a escritora é crucificada pelos críticos, pelo menos diverte. Vou voltar para o Buda. Quem sabe ele tem alguma resposta?

tatinha13    8:13 — Arquivado em: Sem categoria


17.1.08

ELES QUEREM NOSSO SANGUE

 Esta época do ano é a mais aguardada pelos fanáticos por liquidações e pontas de estoque. Em todas as grandes capitais do mundo há pessoas que passam os 365 dias aguardando esse “Momento D” para mobiliar a casa ou modernizar o guarda-roupa. Hora de êxtase para uns, mas de ódio genuíno para outros.
Esse ódio se manifesta muito claramente quando damos de cara com uma peça que compramos um mês atrás e está pela metade do preço na promoção. Não sei como agir numa situação como essa. Pedir o dinheiro de volta? Devolver o produto? Barganhar o mesmo modelo com uma cor diferente? Pedir para falar com o gerente?
Não que a peça esteja com defeito, suja ou manchada. Ela simplesmente faz parte do “imperdível bota-fora” – ou como não quer Aldo Rebelo, “on sale”.
Para alegria ou tristeza – dependendo do tipo de jogador que você é – nossa vida não é um Banco Imobiliário em que todos os jogadores têm dinheirinho colorido e saem comprando propriedades na avenida Atlântica ou no Morumbi.
Nossa passagem pela Terra está mais para Boca Rica, um cofrinho que inicia as crianças na vida da jogatina. Ele funciona como um caça-níqueis. Moedas são depositadas até o limite da capacidade da Boca. Daí ela tira a mãozinha da barriga e abre a portinha descarregando o conteúdo.
No nosso caso a brincadeira é só depositar. A portinha nunca abre – pelo menos na nossa vez.
O mundo das promoções tem ainda um personagem interessante, que é o desesperado. Os telejornais mostram vários deles fazendo fila na porta de lojas de eletrodomésticos desde as cinco da manhã. Assim que as portas sobem ele sai correndo como numa gincana. O mesmo ansioso – eufemisticamente falando – pode ser visto na liquidação da batata a R$ 0,50 o quilo ou na da abobrinha a R$ 0,30.
Patético, se não fosse triste. Infelizmente no Brasil há muita gente que precisa agir desta forma para sobreviver. Entre uma promoção aqui, um bota-fora ali, um produto próximo da data de vencimento acolá vão caminhando como podem. Afinal, o Boca Rica não brinca em serviço.

tatinha13    15:39 — Arquivado em: Sem categoria


16.1.08

QUANDO NÃO PEDEM PRA SAIR

 Para não fugir muito do tema de que tratei ontem, vamos continuar falando do mundo-cão. Mas desta vez sob um outro ponto-de-vista: o do humor. Até o desespero pode ser engraçado ou patético.
Já faz algum tempo vi uma notícia sobre um cabeleireiro homossexual de Sorocaba (SP) que é forte candidato ao troféu “O maior amor do mundo”. Morto de saudades de seu namorado, mas sem perspectivas de retornar à penitenciária onde também estava para visitá-lo, apareceu vestido de mulher e pediu para ser trancafiado de novo. Diante da negativa, gritou um “ah, então é assim?”, saiu, agrediu e tentou assaltar a primeira mulher que encontrou pela frente. Acabou conseguindo o que mais queria: ser preso em flagrante para passar o resto dos dias ao lado da metade da sua laranja. Bem apertadinhos.
Ontem, em Franco da Rocha (SP), mais uma notícia na mesma linha. Com peruca e roupas femininas, um dos detentos se misturou às mulheres que haviam ido visitar os presos e fugiu pela porta da frente. Se contar ninguém acredita.
Diante de notinhas deste tipo não restam dúvidas de que o brasileiro é um povo criativo. Na alegria e na tristeza.
Não sobram incertezas também quanto à veracidade de algumas notícias que julgamos cinematográficas, como revólveres sendo achados dentro de bolos de aniversário ou em lugares nunca dantes imaginados. Até passamos a entender por que os que visitam um parente na prisão passam por uma revista rigorosa – constrangedora até.
Histórias como essas, mais do que servirem para roteiristas de cinema, poderiam ser tratadas com mais carinho pelas autoridades. Com uma população carcerária tão criativa, por que não canalizar essa energia para algo positivo? Entendo que na teoria colocá-los para trabalhar fazendo artesanato em pedra-sabão é realmente lindo ou romântico demais, mas absurdo por absurdo, quer mais que roubar só para ser preso?
Fica a inquietação.

tatinha13    8:51 — Arquivado em: Sem categoria


15.1.08

ESTRELA CADENTE

 Na fila ouço um cara que estava à minha frente pedir uma inteira e uma meia para “Meu Nome é Johnny”. Pensei: espero que esse nó cego não se sente perto de mim e fique batendo o pé na poltrona durante a projeção.
Já na sala e refeita da preocupação, assisti a “Meu Nome Não é Johnny”. O filme é baseado na história real de João Guilherme Estrella, jovem da classe média carioca que, inicialmente consumidor, passa para o outro lado do balcão e se torna um dos maiores distribuidores de drogas do Rio nos anos 80 e início dos 90.
O assunto também foi tema do livro homônimo do jornalista Guilherme Fiuza e na época do lançamento – cerca de três anos atrás – cheguei a entrevistar João Estrella.
Minhas impressões foram um pouco aflitivas. Por dois motivos senti que não estava conversando com uma pessoa recuperada. João falava aceleradamente e fungava o tempo inteiro. Antes que eu seja alvo de algum processo, impressão é pura impressão.
Ele narrava tudo o que havia acontecido com uma ponta de orgulho. Fazia questão de dizer que tinha boas condições de vida e que não precisava do dinheiro.
O filme reafirma isso. Mostra um João Estrella querido, bem-sucedido com as mulheres, com a família e com o tráfico.
“Meu Nome Não É Johnny” deixa claro quais são os alvos daquela arma no final de “Tropa de Elite”. Jovens – a maioria tão rebelde sem causa quanto João – que vivem da (e para a) droga.
Em pelo menos duas cenas o João do cinema fala que não pegou o bonde das drogas para ganhar dinheiro, mas para gastá-lo. Esse é o primeiro caso do que classifico como traficante-perua, aquele que gasta desmedidamente.
Selton Mello – mais uma vez no papel de Selton Mello – não é o grande destaque. Lá pelas tantas o filme atinge o auge com a presença do ator Luís Miranda – da trupe do espetáculo de comédia stand-up “Terça Insana”, em cartaz em São Paulo.
Vou ser suscinta quanto à participação dele para manter o mistério, mas Luís interpreta um preso maluco que diz frases do tipo “ele tá falando merda sem legenda” (ao tentar se comunicar com um angolano que só fala inglês).
Isto acontece durante o curto período em que João Estrella espera o julgamento na cadeia. Pouco depois se beneficia da ineficiência da Justiça brasileira e passa dois anos num manicômio. Se tem uma coisa que o protagonista não é, é louco. De qualquer forma, sofreu com as ameaças de seus colegas de internação – a maioria já havia dado fim em toda a família.
Além de Luís Miranda, os melhores momentos do filme acontecem em Veneza. O italiano macarrônico de Selton Mello vale a pena por causa de frases como “vou entrare embaixo deste edredoni porque estoy com fredo”.
Quem tiver curiosidade, recomendo assistir primeiro a “Meu Nome Não É Johnny” e depois a “Tropa de Elite”. Seria um sacrilégio fazer o contrário.

tatinha13    15:47 — Arquivado em: Sem categoria


14.1.08

PRATO DO DIA: CANJA

 Já repararam como somos imprudentes? Está lá no rótulo de produtos dermatológicos como protetores solares, depiladores ou bronzeadores: antes de usar, faça o teste numa pequena região. Deixe o produto agir por cinco minutos. Ao primeiro sinal de ardência, remova-o da pele. Alguém faz isso? Claro que não. Ninguém lê o rótulo ou a bula de qualquer coisa antes de usá-la.
Esta falta de cuidado está presente em vários outros departamentos de nossa vida. No trânsito é normal motoristas ligarem a seta depois que já viraram o volante. Ou pisarem ainda mais fundo quando o farol fica amarelo.
Se o uso da camisinha fosse prática comum não teríamos tantos casos de Aids surgindo a cada dia. O mesmo aconteceria com a dengue se a dona-de-casa retirasse a água excedente do vasinho de plantas.
Depois que a coisa aperta todos tentam correr atrás do tempo perdido, mas pode ser tarde demais. É mais ou menos como pedidos de desculpas. A tentativa de retratação chega, mas o estrago já foi causado.
Reparo tal atitude não só agora, quando vejo milhares de brasileiros ávidos por uma vacina de febre amarela, mas após o motorista passar por um acidente muito grave. Após presenciar a tragédia, nos cinco minutos seguintes dirige como manda a cartilha do Detran: com as duas mãos ao volante, cinto de segurança etc e tal. Passado o tempo, ele confunde tudo e acha que está fazendo um teste dermatológico. Remove o produto da pele e se joga.
É muito interessante. Nossa imprudência – ou memória curta, se preferirem – não vem à tona apenas diante de uma nova eleição, quando as incompetências e roubalheiras são facilmente esquecidas. Ela surge involuntária e repetidamente.
Poderíamos começar a dar mais atenção aos rótulos e seguir pelo menos um dos conselhos que eles estampam: a persistirem os sintomas procure orientação médica. Será que com remédio resolve?

tatinha13    9:48 — Arquivado em: Sem categoria


13.1.08

O REI DA SELVA

 Essa vamos ter de engolir. Este é o momento em que Hugo Chávez manda o mundo calar a boca. Pois é. Infelizmente o presidente venezuelano se transformou no grande herói deste início de 2008 ao mediar a libertação de reféns das Farc na Colômbia.
Vários países se mobilizaram para tentar resolver o impasse – inclusive o Brasil – mas nenhum deles conseguiu a proeza de Chávez. Apesar de ser a terceira tentativa do venezuelano, está mais do que clara a boa vontade dos guerrilheiros com ele. A recíproca é verdadeira. Tanto, que Chávez comete o exagero de pedir que as guerrilhas sejam reconhecidas como grupos políticos e não como terroristas.
Que espécie de grupo político é esse que mantém pessoas acorrentadas às árvores no meio da selva, rodeadas de tarântulas, cascavéis e à mercê de bombas jogadas de helicópteros?
Na entrevista coletiva que concedeu um dia após sua libertação, Clara Rojas – refém nos últimos seis anos ao lado da ex-deputada Consuelo González – contou histórias de arrepiar. Além das condições mais do que selvagens a que eram submetidas, revelou em que circunstâncias deu à luz seu filho Emmanuel. O bebê nasceu numa cesárea improvisada e teve o braço quebrado por causa da inexperiência de quem conduzia o parto. Além disso, pouco após o nascimento a criança contraiu leishmaniose e foi levada para longe da mãe.
Por mais que esteja sendo levado pela emoção – elogiado até pelo governo dos Estados Unidos – não há como Chávez não reconhecer terrorismo em fatos como estes. Está na hora de o rei da Espanha mandar um “por que não te calas?” de novo.
Não quero nem ver o que pode acontecer se o venezuelano conseguir com que os mais de 500 reféns sejam postos em liberdade. Ou encontrar a garota Madeleine. Ou acabar com a guerra do tráfico no Rio de Janeiro. Tenho até calafrios.
Nem é preciso dizer que o caneco do Prêmio Nobel da Paz vai para a Venezuela.

tatinha13    12:06 — Arquivado em: Sem categoria


12.1.08

NÚMERO DOIS COM FRITAS GRANDE

 Praça de alimentação de shopping pode ser um show de horrores.
As opções se descortinam diante de nossos olhos. Aparentemente são inúmeras. Há desde o restaurante chique de frutos do mar até o hamburguer-elástico da rede Giraffas. O mais seguro, entretanto, é não inventar muito. As chances de ter de engolir uma lasanha sem nem o queijo estar derretido são grandes em lugares assim.
Além dos banners anunciando a promoção do dia – geralmente por R$ 10,90 – e dos avisos de “nossos talheres não são descartáveis”, há mais um elemento neste ruidoso cenário: os caça-clientes.
Esses seres exercem a segunda profissão mais ingrata do mundo – a primeira é ser motorista de ônibus no Rio de Janeiro. Eles ficam em frente à loja repetindo como robôs a frase “já conhece o nosso cardápio?”. Mesmo que passemos com a prova de que já fizemos nossa refeição – uma casca de feijão preto no dente – eles nunca desistem. São funcionários muito empenhados, só perdem para os da CET (assunto para outro post).
A fantasia desses caça-clientes varia de acordo com o estilo de comida da rede. Se for baiana, as mulheres estão vestidas como tal. Os homens parecem ter saído da roda de capoeira. Nunca me atrevi a olhar os pés dos sujeitos. Tenho receio de encontrar algum Luís Caldas preparando a comida.
Há shoppings que não se contentam com o barulho de pratos e talheres. Contribuem com a poluição sonora colocando um pianista num palco entre as mesas. Quanto mais alta a Quinta de Beethoven, maior a probabilidade de saber se os caras ao lado estão de saco cheio do patrão. É inevitável trocar a conversa pelo berro.
Mas os sons da praça de alimentação não se resumem aos de pratos, talheres, pianistas e gritos de “já conhece o nosso cardápio?”. Depois que optamos entre o quibe com recheio de salsicha ou o bife à parmegiana – com bufê incluso – temos de aguardar nosso número no painel.
A dica é se concentrar na fome ou no mostrador eletrônico e não dar ouvidos ao que se passa à nossa volta, já que todos os restaurantes tiveram a brilhante idéia de trabalhar com o mesmo sistema. A cada vez que ouvimos um apito nos levantamos desesperados. E esses sinais sonoros abundam. Às vezes tenho a sensação de que algumas pessoas pedem a comida e resolvem ir às compras. Há números que ficam horas apitando. A senha berra por socorro e nossa fome também.
Resolvido o problema da comida, partimos para mais uma etapa da gincana: achar um lugar para traçarmos nosso filé ao molho madeira com três acompanhamentos – nem que seja ao lado do pianista.
Há quem se comporte como um lutador de sumô e se jogue sobre a mesa antes de o ex-habitante retirar o que lhe pertence. Existem também os mais precavidos. Sentam-se educadamente antes mesmo de terminarmos a refeição. Os mais divertidos são os que ficam em pé, com a bandeja na mão, secando a comida do outro. Vez por outra vão para Portugal e perdem o lugar.
Diante de tanta dificuldade a escolha continua sendo nossa. Brincar de Jamie Oliver em casa ou arriscar uns passinhos com o Luís Caldas ao som do piano? Ó dúvida cruel.

tatinha13    11:26 — Arquivado em: Sem categoria
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