29.2.08

OS LOBOS EUROPEUS

 No dia seguinte, malas prontas para botar o pé na estrada novamente. Desta vez rumo a Cusco, distante 380 km de Puno. Apesar de curto se comparado ao trecho Nazca-Arequipa, o percurso foi cumprido durante um dia inteiro, pois é marcado por algumas paradas para visitas a sítios arqueológicos, vilas e pontos turísticos que brindam toda a rodovia.
O roteiro é inaugurado por Pucara, local conhecido por seus ceramistas. São eles quem confeccionam o amuleto mais tradicional entre os peruanos: os tourinhos.
Em todas as cidades – exceto em Lima – há o costume de se colocar no telhado das casas uma dupla destes animais. Os “touritos de Pucara” teriam o poder de trazer prosperidade, sorte e proteção para a família.
O povo realmente tem fé, já que em 80% das habitações há um casalzinho chifrudo em cima das telhas.
Pucara também abriga uma igreja colonial do século 18, a de Santa Isabel, que clama por restauração.
Mais 103 km e chega-se a La Raya, divisa entre os municípios de Puno e Cusco e
o ponto mais alto de toda a saga peruana: 4.313 metros de altitude.
Neste local está o que vou chamar de o “Mont Blanc das Américas”: o Monte Chimboya. Basta fazer uma bela pose com o pico nevado ao fundo para que seus amigos acreditem que você esteve nos Alpes.
Do degelo do Chimboya nasce o rio sagrado dos incas, o Vilcanota. O rio perpassa toda a região do Vale Sagrado e segue até Águas Calientes – cidadezinha aos pés de Machu Picchu.
O roteiro turístico segue até Raqchi, onde se localizam as ruínas do Templo de Wiracocha, tido pelos incas como o deus criador do universo. Construído há mais de 600 anos, foi o maior templo erguido por eles e muito provavelmente ruiu por causa de um grande incêndio.
Grandioso, funcionava também como residência para pessoas importantes na época, como sacerdotes e nobres. Originalmente era circundado por um muro de seis quilômetros edificado com blocos artesanais à base de água, pedaços de cacto, lã, barro e palha. Nem a casinha mais engenhosa dos Três Porquinhos contava com material tão resistente.
A última parada antes de Cusco é na Vila de Andahuaylillas, onde está a Igreja São Pedro e São Paulo, vulgarmente conhecida como “Capela Sistina Americana” . A igreja – esta sim em processo de restauração – ganhou o nome porque paredes e teto são recobertos por pinturas do século 17.
Após a chegada em Cusco um sentimento de indignação causado pela constatação de que as ruínas que ficaram para contar história foram obra de um povo criativo e valente que não teve forças para lutar contra uma colonização em nome de Deus.
E a conclusão: nem os “touritos de Pucara” foram capazes de proteger os incas das diabruras dos espanhóis – bem mais cruéis do que o Lobo Mau.

Vejam algumas fotos AQUI

tatinha13    10:00 — Arquivado em: Sem categoria


28.2.08

A VERDADEIRA ILHA DA FANTASIA

 E segue a campanha “Veja o Peru você também”, que convida os leitores masculinos a se despirem de seus preconceitos e considerarem a hipótese de estarem frente a frente com o Peru.
O tema de hoje é Puno, capital do folclore peruano e onde está o Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo.
Saindo de Arequipa são mais cinco horas de deserto até Juliaca, cidadezinha caótica próxima a Puno e ponto de escoamento para todas as espécies de produtos ilegais graças à facilidade de acesso ao lago e, consequentemente, à Bolívia – capital-mor do contrabando e que divide o Titicaca com o Peru.
É preciso mais 30 minutos de serra para localizarmos Puno, encravada num vale a 3.810 metros de altura. De cima, uma visão de algo parecido com uma Favela da Rocinha, com várias casas construídas nos morros que rodeiam o lago. Há 108 mil habitantes na cidade.
Logo na chegada a orientação do guia turístico para evitarmos movimentos bruscos, ações que envolvam muito esforço, correrias e comidas pesadas.
Já havia notado que todas as vezes que ele descia do carro voltava ofegante, mas pensei que se tratasse de um fumante ou um sedentário crônico. Após o aviso percebi que era coisa séria e resolvi me garantir com mais um rolinho de folhas de coca – apesar de já ter consumido vários durante o trajeto desde Arequipa.
Estive em Puno num mês especial. Em fevereiro comemora-se o feriado da padroeira Nossa Senhora da Candelária e quase ninguém trabalha. Nas ruas encontrei várias pessoas dançando em blocos e fantasiadas à la desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro. Foi assim durante toda a estadia em Arequipa e Puno.
Há diversas opções de passeio pelo lago, desde os que saem de madrugada e só voltam no fim da tarde até os mais curtos, de meio dia, como o que fiz à tribo dos Los Uros, a cerca de meia hora do porto.
Titicaca quer dizer “puma” na língua Aimará. O lago recebeu esse nome por ter a forma de puma, uma espécie de leão-da-montanha que em outros tempos era facilmente encontrado em todo o Peru.
A visita ao povoado dos Los Uros leva algum tempo para ser digerida. Difícil acreditar que enquanto falamos sobre nanotecnologia há pessoas vivendo sobre ilhas flutuantes feitas de junco sem banheiro ou cozinha. Mas sem televisão nunca. Uma gambiarra solar cujo funcionamento não entendi muito bem proporciona alguns momentos com o mundo que consideramos o certo.
É provavelmente durante os jogos da Copa do Mundo que surgem as idéias para os nomes das crianças. Segundo o guia turístico há uma série de Ronaldinhos na tribo.
Los Uros é uma comunidade formada por 40 ilhas nas quais vivem 320 famílias. Cada uma delas se organiza à sua maneira, batiza sua área com um nome e constrói seu próprio chão com a “totora”, um tipo de junco. Apesar de todas elas terem âncora, se deslocam quando há ventos mais fortes.
Uma ilha grande pode demorar cerca de um ano para ser montada, mas pode ir por água abaixo – literalmente – se houver uma briga.
No caso de um desentendimento familiar a ilha é cortada no ponto da discórdia – com um serrote grande ou uma motoserra trazida diretamente de Puno no caso de os nervos estarem à flor da pele.
Além da área destinada às famílias há uma parte comunitária que funciona como uma cidade, com escola, consultório médico, igreja e prefeitura.
Ainda de acordo com o guia turístico, os Los Uros surgiram antes dos incas, mas abandonaram o local muitos séculos atrás. Então o governo de Puno foi à cata dos remanescentes a fim de ressuscitar o modo de vida da tribo. Hoje vivem basicamente do artesanato e do dinheiro dos turistas.

Dêem uma espiada neste outro mundo AQUI

tatinha13    14:46 — Arquivado em: Sem categoria


27.2.08

PARA TODO SEMPRE, AMÉM

 Refeita das emoções de Nazca, parti em direção a Arequipa, terra de Mário Vargas Llosa. São aproximadamente 600 km percorridos em dez horas – tempo suficiente para apreciar a imensidão do deserto e a serenidade do Pacífico.
O traçado da estrada é o grande responsável pelo infindável trecho. Sinuoso, estreito e várias vezes tomado pelas areias do deserto, é um desafio para passageiros e motoristas, que em certos momentos precisam aguardar outro ônibus em algum cotovelo de pista para transpor a serra. Mas a paisagem cumpre perfeitamente a função de nos distrair.
Arequipa fica a 2.325 metros de altitude e é a segunda cidade mais importante do Peru. Lugar simpático, bem-cuidado e aparentemente mais próspero do que os anteriores, com uma população que ultrapassa um milhão de habitantes.
Há mais de 200 vulcões na cidade, mas três são mais conhecidos e podem ser visualizados conjuntamente a partir do Mirante Carmen Alto: Chachani – 6.075 metros –, Misti – 5.825 metros, ainda ativo –, e Pichu Pichu – o “Ponta Aguda”, com 5.664 metros.
Há milhares de prédios históricos e igrejas em Arequipa, mas a principal atração é o Convento de Santa Catalina. Além de lindo, guarda uma história de peso, e a cada corredor vivenciamos parte da sensação de como era a vida das mulheres lá dentro.
Fundado em 1579, era habitado apenas por jovens aristocratas e funcionava como uma cidadela. De acordo com o costume da época, numa família com três meninas a primeira deveria se casar; a segunda ser religiosa e a terceira permanecer solteira. Por isso a necessidade de um convento de luxo.
Para hospedar a filha os pais tinham de pagar um dote de 2.400 moedas de prata – nos dias de hoje, algo em torno dos 30 mil dólares.
As meninas ingressavam aos 12 anos e deveriam morar no convento até o fim de seus dias. Afinal, com um dote tão caro seria uma desfeita se resolvesse abandonar a vida religiosa.
Após a decisão, cada família tinha de construir uma casa para a herdeira. Existiam habitações para as menos abastadas que abrigavam mais de uma menina, mas apenas a casa era conjunta. Todo o resto era separado, como compras ou responsabilidades com roupa e comida.
A vida no Santa Catalina era como numa pequena cidade. As meninas iam à feira no pátio interno, tinham permissão para terem até quatro empregadas, visitavam-se, bordavam, cozinhavam e rezavam muito. Só não podiam sair do mosteiro nem tampouco ter contato físico com quem quer que fosse – mesmo com familiares. As conversas se davam através de um local chamado locutório e eram acompanhadas por uma “freira-escutadora”.
Apenas em 1871 tudo passou a ser coletivo. Outras datas também são importantes, como a abertura ao público em 1970 e o tombamento pelo Patrimônio Histórico, em 2000.
Ainda hoje algumas freiras residem no local. As desiludidas têm agora uma luz no fim do túnel: podem rumar para Arequipa.

Confiram algumas fotos AQUI

tatinha13    15:39 — Arquivado em: Sem categoria


26.2.08

UM ANTES, OUTRO DEPOIS

 Nazca é o assunto de hoje na jornada peruana. Localizada a cerca de duas horas de Paracas, é conhecida pelas linhas que surgem no meio do nada e ninguém sabe dizer como, quando e por quê apareceram.
A maioria das pessoas talvez já tenha ouvido falar dos desenhos por causa do livro “Eram os Deuses Astronautas?”. Nele, o suíço Erich von Däniken especula a possibilidade das antigas civilizações terem surgido por obra de extraterrestes.
Não sou partidária da idéia. Acredito que foram realmente os incas ou uma cultura anterior os responsáveis pelas linhas em pleno deserto.
Os desenhos – basicamente de bichos estilizados, como cachorro, macaco e aranha – foram declarados patrimônio da humanidade em 1994 e apareceram para o mundo em 1927 graças a um norte-americano. Mas foi uma alemã chamada Maria Reiche quem mais se dedicou ao estudo das linhas. Algumas delas chegam a ter três quilômetros de extensão, daí a necessidade de um sobrevôo.
A aventura é de tirar o fôlego. Não tanto pela beleza, mas pela radicalidade. No embarque o piloto dá todas as orientações: diz que o vôo terá duração de meia hora e ele irá mostrar os 12 desenhos com a ponta da asa primeiro para os passageiros da direita e depois para os da esquerda. E só. Não pode passar mais do que duas vezes porque há vários outros aviões atrás. Se ele atrasa é problema na certa. Devidamente amarrados, lá vamos nós. Para o alto e avante!
As duas primeiras linhas são só alegria. Cai para a direita, para a esquerda e segue para o próximo. Na quarta, quinta linha já estamos querendo matar quem quer que tenha feito os desenhos. Pra quê tanta criatividade? Que tal vermos só umas seis?
Com o sacolejo não é preciso ser a mais sensível das criaturas para a pressão ir por terra. É quando nos damos conta de que o piloto nos avisou de quase tudo – esqueceu de recomendar um Dramin no café da manhã ou um carregamento de sachê de sal na bolsa. Além do mal-estar causado pela queda da pressão, a barriga dá sinais de que está trabalhando.
Com muito esforço consegui fotografar as 12 linhas e mais uma de brinde que o piloto arranjou – não me lembro qual era – e não usar o saquinho de emergência. A melhor parte é mesmo a aterrissagem e a conseqüente ida ao banheiro.
Os sobreviventes podem tentar mais um passeio – geralmente o sobrevôo é feito bem cedo.
Foi o que fiz. Visitei os aquedutos de Cantayoc, erguidos por antigas civilizações e que ainda hoje são a única fonte de água da cidade. Há 36 espalhados por toda Nazca, mas água é artigo de luxo. Só fica disponível duas horas por dia.
Os aquedutos mostram o grau de desenvolvimento de quem os construiu: são bem profundos, mas o acesso se torna uma brincadeira porque foram edificados em forma de espiral.
Após um dia tão turbulento a dica é descer em alguns deles para tomar uma água fresca e ajudar nosso labirinto a se localizar após as emoções do sobrevôo.

Vejam algumas fotos AQUI

tatinha13    16:27 — Arquivado em: Sem categoria


25.2.08

MOSTRA TUA CARA

 Hoje vou pular um capítulo da saga sobre o Peru para contar parte da minha expedição por Brasília. Como escrevi no post anterior, aproveitei a ida à capital federal para pesquisar possíveis pontos de recolhimento de fezes.
Para quem não acompanha o blog, a idéia surgiu após a passagem por Paracas, onde há diversos locais para retirada de excrementos de aves, que são exportados a preço de ouro.
Por motivos óbvios, não há melhor lugar no Brasil para recolher este tipo de produto do que Brasília. Posso fazer fortuna exportando as sujeirinhas malcheirosas de nossos políticos – com a diferença de que não preciso esperar sete anos para o acúmulo do material.
Pela primeira vez desde que vou a Brasília fiz uma visita guiada pelo Congresso Nacional. Finalmente pus fim à confusão que sempre me vinha à mente no momento de identificar se a cúpula para cima é o prédio da Câmara ou do Senado.
Além de acabar com esse vergonhoso drama, o passeio – que é gratuito e dura cerca de uma hora – confirmou que todo o complexo é um perfeito retrato do país. A começar pelo banheiro, cujas fechaduras não funcionam. Além do mais, o ar é carregado. Não digo isso apenas pela quantidade de tapetes que forram chão e paredes – sabemos que há mais do que ácaros no ambiente – mas tudo é escuro e sóbrio. Um submundo em todos os sentidos.
Mas há outras curiosidades. A mais interessante é uma bandeira do Brasil gravada no carpete de uma das paredes abaixo da tribuna do plenário do Senado. Apareceu por acaso, por iniciativa de um faxineiro que a desenhou com o aspirador de pó. O funcionário pensou que ia levar um pito no dia seguinte, mas gostaram tanto da idéia que a bandeira está lá até hoje. Será que o provisório que vira permanente tem aí suas raízes?
Só não digo que tudo é sombrio por causa das obras do artista plástico mineiro Athos Bulcão – pinturas e algumas esculturas – que enfeitam várias partes do conjunto.
Entrei tanto no plenário do Senado quanto no da Câmara. No do Senado ainda repousa um buquê de flores sobre a mesa do recém-falecido senador Jonas Pinheiro.
O acesso às bancadas dos senadores não é permitido, mas na Câmara me diverti bastante. Sentei-me numa delas e, apesar de saber que não estava no local certo, brinquei de Heloísa Helena e votei contra a cassação de Luís Estevão. Também fiz a dancinha da pizza e tive meus momentos de Tatiana Guadagnin – graças a Deus, com uns quilinhos a menos.
O passeio valeu a pena. Recomendo. Só fiquei triste por dois motivos: não descobri onde se localiza o sofá azul de Mônica Veloso e nem achei o guichê para pegar a senha para receber o Mensalão.

P.S. 1: A propósito, a cúpula virada para cima é o prédio da Câmara dos Deputados

P.S. 2: Vejam algumas fotos AQUI

P.S. 3: Não disse que Marion Cotillard merecia o Oscar?

tatinha13    17:36 — Arquivado em: Sem categoria


20.2.08

DEDO DE DEUS

 Paracas foi o local mais surpreendente e emocionante da viagem. Foram mais de 300 km a partir de Lima, um almocinho e uma rodada de bingo dentro do ônibus, uma visão nada agradável na passagem pelos escombros de Pisco e Chincha e a chegada à rodoviária. Neste ponto, uma única sensação: a de quem se meteu numa fria.
O pensamento é inevitável porque não se tratava de uma parada de ônibus-padrão de cidade pacata do interior com uma tenda coberta, um camelô e um vira-latas magro. Muito pior.
Um ferro-velho com piso de areia sem nem sequer um banquinho. O ônibus entra, alguém fecha o portão e tem-se a impressão de que é o fim da linha. O impulso é o de querer subir no ônibus novamente.
Na tentativa de amenizar o choque ou reproduzir as boas-vindas feitas com um tapete vermelho, foram postos sobre o chão dois ou três pedaços de carpete velho – que nem aparecem, tamanha a quantidade de areia. Tudo só fez sentido depois, após a explicação do significado da palavra “Paracas”: chuva de areia.
O desconforto continua na chegada ao hotel. Graças ao terremoto, sobraram apenas dois ou três opções de hospedagem. É pegar ou largar.
A esperança só começa a aparecer no porto da praia de El Chaco, ponto de saída para as lanchas que visitam as Ilhas Ballestas, a cerca de uma hora da costa. Apenas nas ilhas é que perdoamos tudo e temos a certeza de que Deus existe.
Durante o trajeto o barco é acompanhado por várias aves e pela movimentação de golfinhos e leões-marinhos na água.
A primeira parada é no Candelabro, um desenho gigantesco cravado numa duna de areia às margens do Pacífico descoberto em 1862. São 177m x 54 m de enigma. Há várias hipóteses para o surgimento do símbolo e seu significado:
1) pode representar um calendário
2) ter sido feito por ETs
3) ser a representação de um cacto alucinógeno sagrado para os povos da época
4) referência feita por piratas para sinalizar tesouros escondidos
5) sinal de ponto de desembarque para as tropas enviadas por José San Martín
O que quer que represente, é lindo e misterioso. A primeira pergunta vem repleta de desconfiança: como um desenho numa duna pode resistir durante tanto tempo? Posso apostar que há um tiozinho de plantão durante à noite que refaz o desenho diariamente com uma enxada.
Só depois nos lembramos de que lá, assim como em Lima, não chove.
A viagem prossegue rumo às Ilhas Ballestas. A partir de uma certa distância o teto começa a ficar carregado de aves e ouve-se muita gritaria. Mais alguns metros e a descoberta do santuário. São cerca de 3 mil leões-marinhos, 215 espécies de pássaros e outros tantos pinguins.
Os rugidos dos leões misturado ao sobrevôo das aves, à água verde e cristalina, à brancura das montanhas e ao olhar meigo dos pinguins nos dão a sensação de proximidade com o Divino. Emoção indescritível para quem poucas horas antes rogava pragas.
Após alguns minutos ensurdecida com tanta beleza, volto a escutar algumas informações do guia turístico. As ilhas – com menos de um quilômetro quadrado e 53 metros de altura – receberam esse nome por terem a forma de uma “ballesta”, ou seja, de um arco-e-flecha.
O excremento das aves é o responsável pelo branco dos barrancos. É tanto cocô que os peruanos resolveram lucrar com isso. A cada sete anos é feita a retirada de 3.500 a 4 mil toneladas de excrementos, vendidos para o exterior. Uma empresa italiana explora 23 pontos de recolhimento de fezes em todo o país.
Se as armações em Brasília persistirem, em breve serei a mais nova empresária do ramo.
Outro passeio imperdível é a Reserva Natural de Paracas, em pleno deserto. Além de dunas maravilhosas, praias que não imaginei encontrar no Peru, como a de Santa Maria e suas areias vermelhas. Ainda na costa do Pacífico, uma formação rochosa que antes do terremoto lembrava uma catedral, daí o nome. Triste pensar que há menos de um ano ainda poderia visualizá-la.
No dia seguinte, sensação inversa na rodoviária: o impulso de não querer entrar no ônibus novamente. E a promessa de trazer um tapete vermelho na bagagem. Não para mim, mas para estendê-lo por toda Paracas.

P.S.: a coluna volta na segunda-feira. Nos próximos dias estarei em Brasília – já em estudo para os pontos de recolhimento das fezes.

Vejam algumas fotos AQUI

tatinha13    11:03 — Arquivado em: Sem categoria


19.2.08

É O MELHOR PARA PODER CRESCER

 Hoje o tema é um dos grandes prazeres da vida: comida. A boa educação e os cuidados com a saúde recomendam que comamos para viver, mas bem que gostaríamos de fazer o contrário – principalmente em viagens.
A questão é que sair degustando de tudo quando se está fora de casa é uma manobra arriscada que pode resultar em aumento de peso – no mínimo – ou em desinterias e vômitos – que podem estragar parte das férias.
Mas a tarefa é necessária. Antes de mandar pra dentro o jeito é o velho e bom “seja o que Deus quiser”.
O que mais impressiona na alimentação do peruano é a quantidade de cereais e grãos consumidos. Puro carboidrato. São 1.200 variedades de milho – 18 só na região do Vale Sagrado . De batata, 4.500.
Não é bem a quantidade de espécies de milho que chama a atenção, mas o tamanho dos grãos. Nunca vi nada parecido. São gigantescos. Só para se ter uma idéia, um deles recebe o humilde nome de “branco imperial”. Além de grande, é deliciosamente cremoso e vale por uma refeição.
Diversos outros alimentos são feitos à base de milho. O suco de morada é um exemplar curioso. A aparência é a de groselha ou suco de frutas vermelhas, mas é uma bebida feita com uma espécie de milho roxa. O sabor está bem longe de ser de suco de milho.
Sabem aquela pipoca do saco rosa com gosto de isopor – que por sinal eu adoro – ? Eles também têm, mas fazem em casa e vendem em saquinhos transparentes. São gostosíssimas – não são tão açucaradas como as daqui – e são tamanho família.
O tira-gosto servido nos restaurantes não é o clássico pãozinho com manteiga ou azeitona e picles, mas um milho tostado com sal cujo gosto mais se assemelha ao do amendoim. Enorme também.
Para acompanhar, as cervejas Cusquenha, Arequipana, Cristal ou o “Pisco Souer”, a caipirinha deles. É feita à base de pisco (aguardente de uva), limão, açúcar e clara de ovo.
Como não tomo bebidas alcóolicas, preferi uma “Inca Cola”. A Inca é o “Guaraná Antarctica” dos peruanos. Encontrada em qualquer boteco, é um mistério. Alguns disseram que é de erva-cidreira, outros, de maçã. Como o refrigerante é um Frankenstein – verde-limão com cheiro de tutti-frutti – ficou complicado decifrá-lo, mas não é enjoativo como a nossa tubaína. Dá para se divertir.
Não percebi se a minha língua ficou manchada com a “Inca Cola”, mas com o café com certeza. O que tomamos no Brasil, por mais forte que seja, é sempre marrom. Lá é preto. Não sei se é importado da Colômbia ou cultivado no Peru, mas não deve fazer nada bem. Idem com o leite. Evitei tomá-lo porque é amarelado e com uma consistência quase de iogurte. Nem mandando um “seja o que Deus quiser” me arrisquei.
Entre as carnes, muito frango – assado, grelhado, frito, cozido, empanado (“chincharrone”) –, mas também há espaço para saborear cortes mais exóticos como o lhama ou alpaca. Não experimentei da primeira, mas a alpaca é mais clara e um pouco mais suave que a carne de vaca. Gostosa.
Apesar das temperaturas pouco amenas e do clima seco, as frutas não são um problema para os peruanos. Há de tudo. O desconhecido fica por conta da “tuna”, que cresce num cacto. Pequena, amarela, meio espinhenta por fora e cheia de sementes por dentro, parece ser da família do kiwi. Nada especial.
E, finalmente, a coca. Em todos os hotéis há um cesto com folhas de coca para os momentos em que a dor de cabeça aperta. A dica é pegar algumas, fazer um rolinho, mascar um pouco e deixá-lo ao lado da bochecha. O sabor não é dos mais agradáveis, mas fica mais fácil se a virmos como remédio. Antes assim do que encará-la como o vizinho Maradona.

Saboreiem algumas fotos AQUI

tatinha13    10:10 — Arquivado em: Sem categoria


18.2.08

DANÇA DA CHUVA URGENTE!

 Primeira parada: Lima, a cidade onde São Pedro tira férias. A seca do Nordeste costuma ser a vilã dos problemas sociais nesta área do Brasil, mas ao que parece os peruanos deixam essa desculpa de lado apesar de não virem chuva há mais de 30 anos – as últimas gotas caíram em 1970. Água dos céus apenas 15,7 milímetros por ano.
Consequentemente, não há bueiros, poucas casas têm telhado – apenas laje – e as construções são de gesso. Cada planta, árvore e jardim são regados diariamente. Mesmo sob essas condições, abundam lindas áreas verdes. Os melhores exemplos são o canteiro central da avenida Arequipa – onde está a maioria das embaixadas –, o bairro nobre de San Isidro – que conta com oliveiras com cerca de 450 anos – e o Parque do Amor.
O parque fica no bairro de Miraflores e tem uma linda vista para o Pacífico. No centro há uma grande estátua de um casal aos beijos feita pelo artista peruano Víctor Delfín. Ao redor, bancos e janelas redondas de concreto decorados com mosaicos coloridos nos quais se percebe claramente a influência do espanhol Gaudí.
Inaugurado em 14 de fevereiro (Dia dos Namorados) de 1993, o local celebra os encontros de apaixonados que ficavam ali para observar o pôr-do-sol. Em 2003, em comemoração aos dez anos do parque, foi realizado um concurso de beijos.
O nome Lima merece uma explicação. Ele não se refere às árvores de laranja-lima que possam ter existido na capital nem tampouco ao sobrenome do fundador. A denominação é um grande equívoco. Quando os colonizadores espanhóis chegaram não conseguiam pronunciar “Rímac”, nome do rio que atravessa a cidade. E “Rímac” virou “Lima”.
O mal-entendido se estende ainda às informações sobre a população. Alguns dizem que os habitantes ficam em torno de 8 milhões. Outros, dos 10 milhões.
Só no decorrer da viagem fui me dando conta do motivo de a capital ser tão populosa. Como escrevi ontem, nas demais regiões do país há falta de água, deserto e neve. Em Nasca, por exemplo, água nas torneiras só duas horas por dia. Para sobreviver é preciso contar com o instinto de sobrevivência dos antepassados incas.
Como o clima é muito seco, o limenho não dispensa um picolé. Carrinhos de sorvete que vendem o “D’Onofrio” (o “Kibon” deles) são encontrados em todas as esquinas.
Os habitantes de Lima se viram como podem com a escassez de água, mas não conseguiram escapar do principal problema de uma cidade grande: o trânsito. Lá ainda há o agravante de existirem pouquíssimos semáforos. Por outro lado, não convivem com a praga dos motoboys – vi duas motos apenas.
A buzina é o item mais importante do carro. É com ela que os taxistas avisam que estão livres. Nos cruzamentos, atravessa primeiro quem jogar o automóvel na frente. Não há preferencial ou limite de velocidade. O resultado é que todos os carros – mesmo os novos – têm algum amassado. Em meio à luta dos motoristas, o pedestre passa batido. Ficaria rica vendendo capacetes, caneleiras e cotoveleiras para os limenhos.
No meio do caos, um oásis de tranquilidade. No bairro de Miraflores está localizada a “Huaca Pucllana”, um sítio arqueológico do século 5 que funcionava como centro cerimonial, político e econômico. Frequentado pela elite, dividia-se basicamente em duas partes.
Uma – em forma de pirâmide com sete plataformas que os arqueólogos tentam agora reconstituir – era o local onde se realizavam cultos religiosos e de oferendas aos deuses. Os sacrifícios humanos eram comuns, principalmente de crianças e mulheres. As escolhidas para os deuses tinham de ter três características essenciais: serem ricas, bonitas e jovens.
Escavações na Huaca revelaram a existência de 24 mulheres e crianças sob mais de quatro metros de profundidade. Os homens, já naquela época, não serviam como oferenda. Presente de grego.
A segunda parte era voltada às atividades políticas e econômicas – fabricação de cerâmica.
Um passeio pelo centro antigo de Lima também vale muito a pena. É lá que estão a Praça das Armas, que abriga o Palácio do Governo, a Catedral de Lima, um chafariz, fotógrafos à caça de turistas e pombas. Muitas. Um chapéu com abas largas resolve o problema. Mas, convenhamos, praça sem pomba não é praça.
Para quem não tem medo de assombração a visita ao Convento de São Francisco é obrigatória. Sob a igreja homônima estão as catacumbas, que serviram de cemitério entre 1.600 e 1.823. Estima-se que cerca de 60 a 70 mil pessoas foram enterradas sob o piso da igreja. Como sempre, só os endinheirados tinham esse privilégio. Quanto mais se pagava, melhor o lugar em que o defunto era enterrado.
Após o reconhecimento do convento chega-se à bat-caverna em que ficavam as catacumbas. De longe sente-se o cheiro de mofo. Na descida ao inferno – ou o que representava o céu para eles –, milhares e milhares de ossos, especialmente crânios e tíbias. Um pouco macabro, mas interessante.
Os dias em Lima me fizeram perceber que definitivamente o Peru não é só Cusco e Machu Picchu. Amanhã temos mais um capítulo.

Vejam algumas fotos de Lima AQUI

tatinha13    16:24 — Arquivado em: Sem categoria


17.2.08

GLU-GLU

 Cá estou de volta ao batente. O objetivo de descansar foi pro saco, mas por uma boa causa. Não queria perder nada. Portanto, vi, comi, fotografei e senti o que pude – inclusive o tal “mal de altitude” – e retorno pronta para encarar mais um ano e compartilhar parte das sensações com vocês.
Como não criei grandes expectativas, me surpreendi com tudo. Esse inesperado mundo novo me faz iniciar hoje a campanha “Veja o Peru você também” – que se estende aos leitores masculinos deste blog.
Foram 11 dias de viagem nos quais percorri as cidades de Lima, Paracas, Nasca, Arequipa, Puno – onde está o Lago Titicaca –, Cusco e finalmente Machu Picchu. Todas as informações e imagens foram devidamente documentadas e tentarei dividi-las em capítulos para facilitar.
Por ora digo que o Peru é um país de muitos contrastes e números absurdos. Reúne todas as possibilidades naturais e vai vivendo como pode. Sofre com os terremotos – fato que pude comprovar nas regiões de Pisco, Ica e Chincha, devastadas pelo terremoto do ano passado –, mas tem terra fértil, o lago navegável mais alto do mundo – o Titicaca –, paisagens e praias belíssimas em milhares e milhares quilômetros de deserto – dos quais só percorri 1.000 deles –, picos nevados que não devem nada ao Mont Blanc, uma cidade perdida no meio da selva amazônica – Machu Picchu – e o principal: a herança guerreira do povo inca, que faz com que os peruanos sobrevivam em lugares tão ou mais inóspitos do que o Saara ou a Antártida. Cheguei ainda a algumas conclusões:
1) O brasileiro realmente faz corpo mole quando o assunto é trabalho
2) Os incas são os verdadeiros inventores do Lego
3) Cristóvão Colombo não descobriu a América
4) Carboidrato engorda.
Escreverei um post só sobre comida, mas já adianto que as peruanas são bem gordinhas. Resultado da alimentação baseada nas 4.500 variedades de batata? Ou por que podem escolher entre 1.200 tipos de milho? Este é apenas mais um dos vários enigmas que ainda preciso desvendar sobre o país.
Amanhã tem mais. Preciso me organizar. Por enquanto, curtam algumas fotos AQUI

tatinha13    10:36 — Arquivado em: Sem categoria


5.2.08

À PROCURA DO LOBO-MAU

 Adelfa Volpe, aquela velhinha argentina de 82 anos que se casou com um garotão de 24 fez escola. Uma empresa americana realiza na próxima quinta-feira, dia 07, o concurso “Sugar Mamas and the Boy Toys”. Algo como “As doces mamães e seus garotos de brinquedo”.
Diz o site: "A simbiose permitiu que homens feios e ricos atraíssem jovens lindas e sedentas por dinheiro durante séculos. Agora é a hora das mulheres".
O criador, Jeremy Abelson, disse que teve a idéia após os inúmeros protestos gerados por causa de um concurso semelhante no ano passado que juntava homens ricos e mulheres jovens e bonitas.
O site “Pocket Change” se autodenomina a quarta onda do feminismo. Diz que um monte de jovens atraentes estão ansiosos para substituir a população de homens de meia-idade solteiros, cansados, sobrecarregados de trabalho e sem desejo sexual que não são ricos o suficiente para namorar mulheres da mesma idade que seus filhos.
Para participar, os candidatos do sexo masculino precisam de dois pré-requisitos: ter menos de 35 anos e enviar cinco fotos para avaliação da jurada Janis Spindel, famosa “formadora de casais”. As mulheres devem ter mais de 35 anos e pelo menos um salário de US$ 500 mil por ano ou ter no mínimo US$ 4 milhões em bens.
Mais de 5.000 homens se inscreveram, mas apenas 20 serão selecionados para o grande dia.
O site da cupida Janis Spindel diz que ela está no mercado desde 1993 e já realizou 760 casamentos e mais de dez mil relacionamentos “sérios”.
Gail Garrison, 44 anos, uma das candidatas, diz que os homens mais novos esperam que uma mulher mais velha seja mais comprometida. “Eles te olham por causa da inteligência, não estão à procura de uma mãe”. Já Nancy Richards, de 50 anos, uma produtora de teatro da Broadway, quer um cara mais novo que esquie e jogue tênis e é bem mais realista. “É verdadeiramente o que estou procurando? Não. É uma opção? Então por que não?”.
Que o digam Demi Moore (que namora o também ator Ashton Kutcher) e Ana Maria Braga (atualmente com o barraqueiro Marcelo Frisoni).
Adela não está mais entre nós para dar seu testemunho, bem como Marília Gabriela. Mas é como disse Nancy Richards: “por que não?”. Cada um gasta dinheiro com o que quer.

P.S.: este blog sai de férias para o Peru e retorna dia 17 de fevereiro. Se eu conseguir acesso, posto algumas fotos. Até a volta!

tatinha13    12:36 — Arquivado em: Sem categoria
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