18.2.08
DANÇA DA CHUVA URGENTE!

Primeira parada: Lima, a cidade onde São Pedro tira férias. A seca do Nordeste costuma ser a vilã dos problemas sociais nesta área do Brasil, mas ao que parece os peruanos deixam essa desculpa de lado apesar de não virem chuva há mais de 30 anos – as últimas gotas caíram em 1970. Água dos céus apenas 15,7 milímetros por ano.
Consequentemente, não há bueiros, poucas casas têm telhado – apenas laje – e as construções são de gesso. Cada planta, árvore e jardim são regados diariamente. Mesmo sob essas condições, abundam lindas áreas verdes. Os melhores exemplos são o canteiro central da avenida Arequipa – onde está a maioria das embaixadas –, o bairro nobre de San Isidro – que conta com oliveiras com cerca de 450 anos – e o Parque do Amor.
O parque fica no bairro de Miraflores e tem uma linda vista para o Pacífico. No centro há uma grande estátua de um casal aos beijos feita pelo artista peruano Víctor Delfín. Ao redor, bancos e janelas redondas de concreto decorados com mosaicos coloridos nos quais se percebe claramente a influência do espanhol Gaudí.
Inaugurado em 14 de fevereiro (Dia dos Namorados) de 1993, o local celebra os encontros de apaixonados que ficavam ali para observar o pôr-do-sol. Em 2003, em comemoração aos dez anos do parque, foi realizado um concurso de beijos.
O nome Lima merece uma explicação. Ele não se refere às árvores de laranja-lima que possam ter existido na capital nem tampouco ao sobrenome do fundador. A denominação é um grande equívoco. Quando os colonizadores espanhóis chegaram não conseguiam pronunciar “Rímac”, nome do rio que atravessa a cidade. E “Rímac” virou “Lima”.
O mal-entendido se estende ainda às informações sobre a população. Alguns dizem que os habitantes ficam em torno de 8 milhões. Outros, dos 10 milhões.
Só no decorrer da viagem fui me dando conta do motivo de a capital ser tão populosa. Como escrevi ontem, nas demais regiões do país há falta de água, deserto e neve. Em Nasca, por exemplo, água nas torneiras só duas horas por dia. Para sobreviver é preciso contar com o instinto de sobrevivência dos antepassados incas.
Como o clima é muito seco, o limenho não dispensa um picolé. Carrinhos de sorvete que vendem o “D’Onofrio” (o “Kibon” deles) são encontrados em todas as esquinas.
Os habitantes de Lima se viram como podem com a escassez de água, mas não conseguiram escapar do principal problema de uma cidade grande: o trânsito. Lá ainda há o agravante de existirem pouquíssimos semáforos. Por outro lado, não convivem com a praga dos motoboys – vi duas motos apenas.
A buzina é o item mais importante do carro. É com ela que os taxistas avisam que estão livres. Nos cruzamentos, atravessa primeiro quem jogar o automóvel na frente. Não há preferencial ou limite de velocidade. O resultado é que todos os carros – mesmo os novos – têm algum amassado. Em meio à luta dos motoristas, o pedestre passa batido. Ficaria rica vendendo capacetes, caneleiras e cotoveleiras para os limenhos.
No meio do caos, um oásis de tranquilidade. No bairro de Miraflores está localizada a “Huaca Pucllana”, um sítio arqueológico do século 5 que funcionava como centro cerimonial, político e econômico. Frequentado pela elite, dividia-se basicamente em duas partes.
Uma – em forma de pirâmide com sete plataformas que os arqueólogos tentam agora reconstituir – era o local onde se realizavam cultos religiosos e de oferendas aos deuses. Os sacrifícios humanos eram comuns, principalmente de crianças e mulheres. As escolhidas para os deuses tinham de ter três características essenciais: serem ricas, bonitas e jovens.
Escavações na Huaca revelaram a existência de 24 mulheres e crianças sob mais de quatro metros de profundidade. Os homens, já naquela época, não serviam como oferenda. Presente de grego.
A segunda parte era voltada às atividades políticas e econômicas – fabricação de cerâmica.
Um passeio pelo centro antigo de Lima também vale muito a pena. É lá que estão a Praça das Armas, que abriga o Palácio do Governo, a Catedral de Lima, um chafariz, fotógrafos à caça de turistas e pombas. Muitas. Um chapéu com abas largas resolve o problema. Mas, convenhamos, praça sem pomba não é praça.
Para quem não tem medo de assombração a visita ao Convento de São Francisco é obrigatória. Sob a igreja homônima estão as catacumbas, que serviram de cemitério entre 1.600 e 1.823. Estima-se que cerca de 60 a 70 mil pessoas foram enterradas sob o piso da igreja. Como sempre, só os endinheirados tinham esse privilégio. Quanto mais se pagava, melhor o lugar em que o defunto era enterrado.
Após o reconhecimento do convento chega-se à bat-caverna em que ficavam as catacumbas. De longe sente-se o cheiro de mofo. Na descida ao inferno – ou o que representava o céu para eles –, milhares e milhares de ossos, especialmente crânios e tíbias. Um pouco macabro, mas interessante.
Os dias em Lima me fizeram perceber que definitivamente o Peru não é só Cusco e Machu Picchu. Amanhã temos mais um capítulo.
Vejam algumas fotos de Lima AQUI
tatinha13
16:24 — Arquivado em: 

Eu também achei curiosa a ausência de chuvas em Lima. Não tenho os valores mas mesmo assim a umidade relativa do ar não é tão baixa quanto a de Brasília em setembro, por exemplo. E como você percebeu, há bastante verde em Lima, dentro do contexto de uma metrópole.
Grato pelo relato de viagem. Traz-me boas lembranças.
Comentário por Samuel — 18.2.08 @ 18:51
Olá Tati! Muito bom o texto! Reflete exatamente o que vi na viagem também.
O trânsito no Peru é totalmente caótico! Ninguém respeita ninguém, e a buzina rola solta. Também reparei que quase todo carro que andava por lá tinha um amassado ou risco. Os ônibus públicos de lá são antigos e os motoristas muito apressados. O ônibus arrancava com a porta aberta e com o passageiro subindo ou descendo. Muitos ônibus foram trazidos dos EUA (tudo sucata). Vi até aquele ônibus escolar amarelo clássico que era utilizado nos EUA!
Para complementar o texto..
Sobre o D’Onofrio, ele na verdade é fabricado pela Nestlé. Muitos sorvetes da Nestlé que você encontra lá, encontra por aqui também.
Sobre as catacumbas do Convento de São Francisco, o nosso guia disse que em alguns lugares os ossos foram reorganizados de um modo que deixe mais bonito a visualização. Você deve ter reparado no último poço redondo (era o estágio final dos restos mortais), onde os crânios e ossos estavam muito bem organizados.. alguns poderiam achar bonito, e outros, sinistro…
Comentário por Calvin — 18.2.08 @ 23:26
O D’onofrio foi peruano durante mais de 40 anos. recentemente a nestle compro a empresa, mantendos os produtos mais a qualidade baixo muito.
Comentário por liliana — 30.1.09 @ 4:44