20.2.08
DEDO DE DEUS

Paracas foi o local mais surpreendente e emocionante da viagem. Foram mais de 300 km a partir de Lima, um almocinho e uma rodada de bingo dentro do ônibus, uma visão nada agradável na passagem pelos escombros de Pisco e Chincha e a chegada à rodoviária. Neste ponto, uma única sensação: a de quem se meteu numa fria.
O pensamento é inevitável porque não se tratava de uma parada de ônibus-padrão de cidade pacata do interior com uma tenda coberta, um camelô e um vira-latas magro. Muito pior.
Um ferro-velho com piso de areia sem nem sequer um banquinho. O ônibus entra, alguém fecha o portão e tem-se a impressão de que é o fim da linha. O impulso é o de querer subir no ônibus novamente.
Na tentativa de amenizar o choque ou reproduzir as boas-vindas feitas com um tapete vermelho, foram postos sobre o chão dois ou três pedaços de carpete velho – que nem aparecem, tamanha a quantidade de areia. Tudo só fez sentido depois, após a explicação do significado da palavra “Paracas”: chuva de areia.
O desconforto continua na chegada ao hotel. Graças ao terremoto, sobraram apenas dois ou três opções de hospedagem. É pegar ou largar.
A esperança só começa a aparecer no porto da praia de El Chaco, ponto de saída para as lanchas que visitam as Ilhas Ballestas, a cerca de uma hora da costa. Apenas nas ilhas é que perdoamos tudo e temos a certeza de que Deus existe.
Durante o trajeto o barco é acompanhado por várias aves e pela movimentação de golfinhos e leões-marinhos na água.
A primeira parada é no Candelabro, um desenho gigantesco cravado numa duna de areia às margens do Pacífico descoberto em 1862. São 177m x 54 m de enigma. Há várias hipóteses para o surgimento do símbolo e seu significado:
1) pode representar um calendário
2) ter sido feito por ETs
3) ser a representação de um cacto alucinógeno sagrado para os povos da época
4) referência feita por piratas para sinalizar tesouros escondidos
5) sinal de ponto de desembarque para as tropas enviadas por José San Martín
O que quer que represente, é lindo e misterioso. A primeira pergunta vem repleta de desconfiança: como um desenho numa duna pode resistir durante tanto tempo? Posso apostar que há um tiozinho de plantão durante à noite que refaz o desenho diariamente com uma enxada.
Só depois nos lembramos de que lá, assim como em Lima, não chove.
A viagem prossegue rumo às Ilhas Ballestas. A partir de uma certa distância o teto começa a ficar carregado de aves e ouve-se muita gritaria. Mais alguns metros e a descoberta do santuário. São cerca de 3 mil leões-marinhos, 215 espécies de pássaros e outros tantos pinguins.
Os rugidos dos leões misturado ao sobrevôo das aves, à água verde e cristalina, à brancura das montanhas e ao olhar meigo dos pinguins nos dão a sensação de proximidade com o Divino. Emoção indescritível para quem poucas horas antes rogava pragas.
Após alguns minutos ensurdecida com tanta beleza, volto a escutar algumas informações do guia turístico. As ilhas – com menos de um quilômetro quadrado e 53 metros de altura – receberam esse nome por terem a forma de uma “ballesta”, ou seja, de um arco-e-flecha.
O excremento das aves é o responsável pelo branco dos barrancos. É tanto cocô que os peruanos resolveram lucrar com isso. A cada sete anos é feita a retirada de 3.500 a 4 mil toneladas de excrementos, vendidos para o exterior. Uma empresa italiana explora 23 pontos de recolhimento de fezes em todo o país.
Se as armações em Brasília persistirem, em breve serei a mais nova empresária do ramo.
Outro passeio imperdível é a Reserva Natural de Paracas, em pleno deserto. Além de dunas maravilhosas, praias que não imaginei encontrar no Peru, como a de Santa Maria e suas areias vermelhas. Ainda na costa do Pacífico, uma formação rochosa que antes do terremoto lembrava uma catedral, daí o nome. Triste pensar que há menos de um ano ainda poderia visualizá-la.
No dia seguinte, sensação inversa na rodoviária: o impulso de não querer entrar no ônibus novamente. E a promessa de trazer um tapete vermelho na bagagem. Não para mim, mas para estendê-lo por toda Paracas.
P.S.: a coluna volta na segunda-feira. Nos próximos dias estarei em Brasília – já em estudo para os pontos de recolhimento das fezes.
Vejam algumas fotos AQUI
tatinha13
11:03 — Arquivado em: 

Tati, você vai perder tempo indo até Brasília para tal pesquisa. Posso te informar onde encontrar o tal produto exportado a preço de ouro pelos peruanos: Câmara do Deputado, Senado Federal, Palácio do Planalto e outros mais.
Comentário por Ricardo Linhares — 20.2.08 @ 11:50
Oi, leio que a viagem foi proveitosa. Que bom que vc tenha gostado. O Peru é um país mais que abençoado. É lindo. sintomático, significativo. Fiz a mesma viagem nos anos 90. Outras rotas. Mas, os sentimentos todos os mesmos que os seus. Me concentrei em Cusco, pois pretendia fazer a mesma aventura da minha Guru. Hoje, 2008, o país não é mais o mesmo, nem os peruano, mas o importante continua lá. Tinha esquecido de comentar que só o desembarque no areroporto de Lima vaeu pela viagem toda. Foi ilário e tenebroso. Ah! tem também as viagens de ônibus todos e tudo misturado. Muito divertido. Hoje eu já não faria. Bjs.
Comentário por Elizabeth — 20.2.08 @ 15:11
Oi Tati, acredite se quiser mas desde a primeira descriçao incredula da viagem voce me despertou uma vontade impar de seguir o tapete vermelho do desse itinerario..tenho uma identificaçao curiosa com o Peru, mas infelizmente ainda não tive a oportunidade de conhecer. Se nao se importar quero aproveitar mais dicas tuas quando isso acontecer. As fotos são absurdamente lindas.
Uma otima viagem para Brasilia e bom trabalho.
Saudações mineiras
Comentário por Érika Monteiro — 22.2.08 @ 11:58