27.2.08
PARA TODO SEMPRE, AMÉM

Refeita das emoções de Nazca, parti em direção a Arequipa, terra de Mário Vargas Llosa. São aproximadamente 600 km percorridos em dez horas – tempo suficiente para apreciar a imensidão do deserto e a serenidade do Pacífico.
O traçado da estrada é o grande responsável pelo infindável trecho. Sinuoso, estreito e várias vezes tomado pelas areias do deserto, é um desafio para passageiros e motoristas, que em certos momentos precisam aguardar outro ônibus em algum cotovelo de pista para transpor a serra. Mas a paisagem cumpre perfeitamente a função de nos distrair.
Arequipa fica a 2.325 metros de altitude e é a segunda cidade mais importante do Peru. Lugar simpático, bem-cuidado e aparentemente mais próspero do que os anteriores, com uma população que ultrapassa um milhão de habitantes.
Há mais de 200 vulcões na cidade, mas três são mais conhecidos e podem ser visualizados conjuntamente a partir do Mirante Carmen Alto: Chachani – 6.075 metros –, Misti – 5.825 metros, ainda ativo –, e Pichu Pichu – o “Ponta Aguda”, com 5.664 metros.
Há milhares de prédios históricos e igrejas em Arequipa, mas a principal atração é o Convento de Santa Catalina. Além de lindo, guarda uma história de peso, e a cada corredor vivenciamos parte da sensação de como era a vida das mulheres lá dentro.
Fundado em 1579, era habitado apenas por jovens aristocratas e funcionava como uma cidadela. De acordo com o costume da época, numa família com três meninas a primeira deveria se casar; a segunda ser religiosa e a terceira permanecer solteira. Por isso a necessidade de um convento de luxo.
Para hospedar a filha os pais tinham de pagar um dote de 2.400 moedas de prata – nos dias de hoje, algo em torno dos 30 mil dólares.
As meninas ingressavam aos 12 anos e deveriam morar no convento até o fim de seus dias. Afinal, com um dote tão caro seria uma desfeita se resolvesse abandonar a vida religiosa.
Após a decisão, cada família tinha de construir uma casa para a herdeira. Existiam habitações para as menos abastadas que abrigavam mais de uma menina, mas apenas a casa era conjunta. Todo o resto era separado, como compras ou responsabilidades com roupa e comida.
A vida no Santa Catalina era como numa pequena cidade. As meninas iam à feira no pátio interno, tinham permissão para terem até quatro empregadas, visitavam-se, bordavam, cozinhavam e rezavam muito. Só não podiam sair do mosteiro nem tampouco ter contato físico com quem quer que fosse – mesmo com familiares. As conversas se davam através de um local chamado locutório e eram acompanhadas por uma “freira-escutadora”.
Apenas em 1871 tudo passou a ser coletivo. Outras datas também são importantes, como a abertura ao público em 1970 e o tombamento pelo Patrimônio Histórico, em 2000.
Ainda hoje algumas freiras residem no local. As desiludidas têm agora uma luz no fim do túnel: podem rumar para Arequipa.
Confiram algumas fotos AQUI
tatinha13
15:39 — Arquivado em: 

Querida Tati, hoje roubei um pouco do meu tempo para ler alguns textos. Que maravilha! “Coisa de cinema”. Além do conhecimento, é impressionante o humor com que escreve. Orgulho-me muito de você, linda.
Comentário por Tatida Rezende — 28.2.08 @ 10:23