30.8.08
EM ESTADO BRUTO

Uma nota publicada pela revista “Veja” desta semana me acendeu uma luzinha. Ela revela o resultado de uma pesquisa da Faculdade Getúlio Vargas e do Instituto Gallup sobre felicidade.
De acordo com o estudo, o brasileiro é o que apresenta a maior expectativa de felicidade para os próximos cinco anos dentre os 132 países pesquisados. A nota média para a satisfação com a vida em 2012 no Brasil é de 8,4.
Analisando o aspecto positivo, pelo menos somos campeões em alguma coisa. Além disso, apesar de tanta mazela, corrupção e caos ainda temos esperança. Já é um grande passo.
O que fez com que minha luzinha acendesse foi uma conclusão a que chegou o escritor, professor, teólogo e um dos mais brilhantes cronistas que conheço, Rubem Alves.
No livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola” – que coincidententemente tinha passado o olho no dia anterior – ele observa algo interessante. Para Rubem, “a ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Ostras felizes não fazem pérolas… Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na Ciência ou na Arte, surge sempre de uma dor doída…”.
Daí fiquei pensando que talvez o brasileiro não seja ostra. Seja apenas um bicho das profundezas do mar. Parece não fazer muito esforço para transformar em pérola todos os nossos grãos de areia. Na verdade, o que temos por aqui é mais do que o simples grão de areia. Temos uma verdadeira pedreira.
Por que será que essas pedras não provocam a dor doída descrita por Rubem?
tatinha13
10:30 — Arquivado em: 

Excelente a relação traçada entre o resultado da pesquisa e o livro de Rubem Alves. Parabéns!
Penso que, por razões históricas (país católico e ex-colônia), o clima de conformismo sempre prevaleceu. É mais fácil falar “Deus quis assim” do que batalhar para mudar, da mesma forma que a maioria prefere ficar na zona de conforto a encarar desafios. Sem reconhecer que há grãos de areia, não será possível gerar pérolas, e é por isso que sou tão pessimista em relação ao futuro do país.
Comentário por Ricardo Rezende — 30.8.08 @ 11:47
Tati, parabéns pela lucidez na sua crônica de hoje.
Um abraço.
Comentário por Ricardo Linhares — 30.8.08 @ 12:16
Minha iluminada Tati, que maravilha! Eu também sou admirador, fã, macaco de auditório do mestre e professor Rubem Alves e não poderia ser diferente. Apesar das mazelas que assolam o nosso país, nós somos um povo trabalhador, inteligente e alegre. Pena que mal governado. O processo criativo, segundo dizem, é de 20% inspiração e 80% transpiração. Eu acho que precisamos transpirar mais, ou como escreveu o grande mestre Rubens, precisamos deixar fluir mais e mais a nosso dor doida. E mesmo assim continuarmos um povo, alegre, felizes.
Forte abraço.
CAUROSA - caurosa.worpress.com
Comentário por caurosa — 30.8.08 @ 13:19
É comum se ver animais trancafiados e tosados de sua liberdade, ou seja em ilhas, fossos ou gaiolas, por não terem outra opção, ficarem se divertindo e chamando à atenção dos que passam e ficam com a impressão de que estão felizes.
Talvez seja uma comparação já que o povo se acostumou com corrupção, exploração, subordinação, insubordinação, falta de empolgação, jetão, mensalão e tantos ostros ão, que tenha resolvido viver de omissão…
De alguma forma pode ser que estajam com a razão.
Abraços
Comentário por Milve — 30.8.08 @ 17:17