27.9.08
FALE À MOTORISTA SOMENTE O INDISPENSÁVEL

Há dias em que tenho vontade de surtar no trânsito. Penso em seguir os passos do motorista de um Corsa apreendido esta semana que acumulou mais de R$ 3,4 milhões em multas: passar o farol vermelho, burlar o rodízio, fazer conversões em locais proibidos, ignorar os detectores de velocidade e toda sorte de barbaridades possíveis.
Mas minha rebeldia dura pouco. Volto ao mundo real em poucos minutos e faço o jogo do contente tentando ver o lado bom do trânsito em São Paulo. Com esforço, até acho algo que valha a pena.
Num percurso rápido da minha casa até a academia consigo matar vários coelhos com uma cajadada só.
No terceiro farol encontro os meninos responsáveis pelo meu lava-rápido. Após tentar uma série de negativas – “não tenho trocado”, “já está limpo”, “hoje não” ou “NÃO!” – desisti. Páro, digo apenas um não, eles fingem que não ouvem e “limpam” o vidro. Enquanto isso, me distraio com os malabaristas e rezo para aquele pauzinho não escapar da mão do moleque e arranhar o carro. Terminados ambos os espetáculos, o farol abre e eu me vou.
O semáforo seguinte – ainda mais demorado que o anterior, no cruzamento da Rebouças com a Henrique Schaumann – é mais completo. Faço a feira – dependendo da época pode-se escolher entre cerejas ou morangos –, me atualizo – graças à distribuição gratuita dos jornais “Destak” ou “Metro” –, compro coisinhas para a casa – guarda-chuvas, panos de prato ou calculadora –, engordo – com balinhas, chicletes ou Suflair – e até me equipo adquirindo binóculos para enxergar o tamanho do congestionamento.
Mais alguns faróis e dou de cara com mais uma personagem do meu dia-a-dia: o tiozinho de uma perna só. Estrategicamente localizado – na junção da Gabriel Monteiro da Silva com a Faria Lima –, está lá diariamente sentadinho em sua cadeira. O trânsito pára, ele se levanta e começa a peregrinação de vidro em vidro. Curiosamente, apesar de estar há anos no mesmo bat-local e bat-hora, ele ainda não sabe o significado de uma palavra fundamental para qualquer pessoa – ainda mais para um pedinte: educação.
Diante do “não”, ele xinga o motorista. Mas também já resolvi esse problema. Cansada dos insultos do perneta, simplesmente pego um livro e não levanto os olhos até que o farol se abra.
Tudo isso ocorre num período de dez minutos. E meu dia nem começou. Fico na expectativa de saber quantos malabaristas, lavadores, pernetas ou vendedores eu ainda terei de cruzar. E volto a pensar em agir como o motorista do Corsa. Meu lema agora é: “Só por hoje”.
tatinha13
15:33 — Arquivado em: 

Minha malabarista Tati, se o trânsito não fosse tão intenso, você simplesmente poderia trocar o carro pela bicicleta e uma mochila. Seus problemas estariam resolvidos e ainda ganharia uma bela oportunidade de melhorar suas funções cardio-respiratórias.
Forte abraço
CAUROSA- caurosa.wordpress.com
Comentário por caurosa — 27.9.08 @ 16:47
Aqui em Brasília dificilmente eu perco tempo (e paciência) no trânsito. Sim, essa cidade tem alguns pontos positivos!
Comentário por Ricardo Rezende — 27.9.08 @ 18:58
Apesar de todos esses malabares no trânsito,não tem quem deixa de dizer……eu te amo São Paulo
Comentário por Juventino — 27.9.08 @ 20:45
E ainda tem gente aqui em Brasília que acha que pega trânsito…
Comentário por Vaninha — 29.9.08 @ 9:54